Zoologia

Na natureza, o guepardo foi medido a 93 km/h, mas o que o distingue é acelerar e frear em poucos passos

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

O guepardo (Acinonyx jubatus) é tido como o animal terrestre mais veloz, mas quase ninguém tinha medido uma caça de verdade. Em 2013, pesquisadores do Royal Veterinary College puseram colares com GPS e sensores de movimento em cinco guepardos selvagens de Botsuana e registraram 367 corridas. A maior velocidade foi 93 km/h. O pico médio ficou em cerca de 54 km/h, mantido em geral por só 1 a 2 segundos. O que impressionou foram as acelerações, as freadas e as curvas.

O valor que se repete, cerca de 104 km/h (29 m/s), vinha de medições anteriores, feitas com animais perseguindo uma isca em linha reta. Na natureza, a caça é outra coisa: a corrida média teve 173 m, e só 26% das 367 corridas terminaram em presa capturada. Num único passo, os guepardos aceleraram até 3 m/s e frearam até 4 m/s, quase o dobro do medido em cavalos de polo. Nas curvas, a aceleração lateral passou de 13 m/s² em velocidades abaixo de 61 km/h. Para isso servem as garras, que não se recolhem por completo e funcionam como travas, e a coluna flexível, que ajuda a manter o equilíbrio ao frear.

A hipótese do superaquecimento caiu

Dizia-se que o guepardo abandona a caça porque superaquece. Em 2013, sensores de temperatura em quatro guepardos livres mostraram corpo a 38,4 °C, em média, quando a perseguição acabava, sem prejuízo da caça. A temperatura subiu mais depois de uma caça bem-sucedida (1,3 °C contra 0,5 °C).

Velocidade é só parte da história

Na natureza, o guepardo corre, em média, 1,3 vez por dia, e o pico de cada corrida dura segundos. Um guepardo a 93 km/h, com aceleração lateral de 13 m/s², levaria cerca de 6 segundos para uma curva de 180 graus, num raio de 52 m. Por isso os autores do estudo de 2013 concluem que a velocidade máxima não é típica da fase final de uma caça bem-sucedida: antes de virar, o animal freia.

Corpo para acelerar e frear

Os guepardos selvagens do estudo pesavam em média 53 kg, mais que os 33 kg dos de cativeiro, e boa parte da massa era musculatura locomotora. Em comparação com o galgo, os ossos do membro posterior são mais longos e pesados, o que permite passadas maiores e suporta forças maiores, e o psoas é muito potente. Os autores propõem que a aceleração venha da musculatura das costas, não só dos músculos do quadril.

Um mito de calor corrigido

A ideia de que o guepardo para de correr porque superaquece vinha de relatos anteriores. Em 2013, uma equipe da Universidade de Witwatersrand mediu a temperatura de quatro animais livres: no fim da perseguição estavam a 38,4 °C, em média, e o calor armazenado não comprometeu as caças. O aquecimento maior veio depois de caças bem-sucedidas, que os autores atribuem ao estresse, e não ao esforço.

Cada vez menos guepardos

A UICN classifica o guepardo como Vulnerável e estima, de forma provisória, cerca de 6.500 adultos, em cerca de 9% da área histórica. O guepardo-asiático sobrevive apenas no Irã, Criticamente em Perigo, com menos de 50 adultos. As causas apontadas incluem perda de presas e de habitat e morte direta. Em Zimbábue, os dados indicam queda de 85% em 15 anos, em paisagens dentro e fora de áreas protegidas.

Como sabemos

Velocidade, aceleração e temperatura vêm de estudos revisados por pares com medições em animais livres; população e status vêm da avaliação da UICN, com ressalvas de estimativa.

Em debate: O recorde de velocidade do guepardo depende de como se mede: o valor publicado de cerca de 104 km/h vem de medições anteriores, e o maior valor em caça na natureza foi 93 km/h; o próprio estudo ressalva que animais caçando gazelas em savana aberta podem atingir velocidades maiores.

Em debate: A classificação das garras (retráteis, semirretráteis ou não retráteis) varia entre as fontes, por diferença de definição.

Em debate: O tamanho da população é incerto: a UICN considera sua estimativa de 6.500 adultos provisória, e o número de guepardos-asiáticos no Irã é pouco preciso.

Fontes

  1. Nature, vol. 498, p. 185-189 (2013); Royal Veterinary College (Universidade de Londres) — Locomotion dynamics of hunting in wild cheetahs
    consultada em 05/10/2026
  2. Biology Letters, vol. 9 (2013); Universidade de Witwatersrand — Cheetah do not abandon hunts because they overheat
    consultada em 05/10/2026
  3. Journal of Anatomy, vol. 218 (2011); Royal Veterinary College — Functional anatomy of the cheetah (Acinonyx jubatus) hindlimb
    consultada em 05/10/2026
  4. Smithsonian's National Zoo and Conservation Biology Institute — Cheetah
    consultada em 05/10/2026
  5. Lista Vermelha da UICN, avaliação de 2022 (T219A124366642) — Acinonyx jubatus (Cheetah)
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 3 · 06/10/2026 — Capa trocada na conferência: imagem de abertura ligada ao assunto do título
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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