Zoologia

Guácharos e salanganas ecolocalizam com cliques audíveis, sem ultrassom: o que se sabe e o que falta saber

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Só dois grupos de aves são conhecidos por ecolocalizar: o guácharo (Steatornis caripensis), do noroeste da América do Sul, e as salanganas (Aerodramus), andorinhões de caverna do Indo-Pacífico. Seus cliques ficam na faixa que o ouvido humano capta, com energia sobretudo entre 1 e 10 kHz, e não no ultrassom. Servem para se orientar no escuro das cavernas; que ajudem a achar comida ainda é questão aberta.

Ecolocalizar é perceber o ambiente pelo eco de sons emitidos pelo próprio animal. O exemplo clássico é o ultrassom de morcegos e golfinhos (veja os posts relacionados), mas o ultrassom não é exigência. Guácharos e salanganas produzem cliques curtos e de banda larga na siringe, o órgão vocal das aves, situado onde a traqueia se bifurca. O guácharo é uma ave grande (cerca de 400 g), noturna e comedora de frutos, que dorme em cavernas. As salanganas, de uns 10 g, caçam insetos em voo durante o dia e fazem ninho em paredes de cavernas e túneis. Nos dois grupos, os cliques aparecem no escuro; com luz suficiente, as aves parecem se orientar pela visão. Salanganas (swiftlets) são andorinhões da família Apodidae, não andorinhas verdadeiras.

Com luz, o guácharo clica menos

Observações indicam que a emissão de cliques cai em noites de lua clara e perto de luz artificial: a ecolocalização parece um recurso para o escuro, não o único sentido. Falta medir a luz junto com as gravações para saber em que nível a ave troca de sentido.

O que foi medido nos cliques do guácharo

A primeira descrição veio de gravações de campo em Caripe, na Venezuela: rajadas de 2 a mais de 6 cliques, com intervalo quase constante de 2,6 ms. Medições posteriores em aves cativas deram outra faixa de frequência, e os estudos nem concordam sobre o que chamar de um clique. Por isso, o que se pode dizer com segurança é que os sons são audíveis; a frequência dominante continua em disputa.

Como sabemos: obstáculos, luz e neurônios

A evidência vem de testes com obstáculos, de gravações em diferentes condições de luz e de registros de neurônios. Guácharos evitaram discos de 20 cm ou mais e detectaram obstáculos de 3,2 cm; salanganas detectaram barras de 6,3 mm. O limite: o desenho de um teste pode ter atrapalhado o voo, e o registro neural de uma salangana anestesiada não explica essa sensibilidade. Cada número vem de estudos antigos, relatados em uma revisão.

Orientar-se não é o mesmo que caçar

Cliques de baixa frequência têm comprimento de onda grande, e por isso, pela regra prática citada na revisão, não devolvem eco útil de insetos menores que 2 a 3 cm. As aves, porém, se orientam bem no escuro e aumentam o ritmo dos cliques perto do ninho. Duas salanganas clicam fora das cavernas à noite, mas se isso ajuda a caçar ainda é especulação. Para o guácharo, os relatos de cliques perto de palmeiras são contraditórios.

Convergência, com poucas marcas no corpo

O cenário mais simples tem três origens independentes da ecolocalização nas aves, mas é uma hipótese: faltam dados genéticos de muitas salanganas. Também não se achou, até 2013, especialização anatômica ou auditiva que distinga essas aves das demais. Um estudo genômico de 2023 achou menos sinais de seleção do que em morcegos e golfinhos e uma mudança de aminoácido no TMC1 do guácharo, coincidente com a de morcegos. Se essa mudança tem função, ninguém testou.

Como sabemos

Os pontos centrais (dois grupos, cliques audíveis, uso em cavernas) são sólidos; os números dos testes vêm de uma revisão e há discrepâncias abertas.

Em debate:

Fontes

  1. Frontiers in Physiology — Echolocation in Oilbirds and swiftlets
    Brinkløv, S.; Fenton, M. B.; Ratcliffe, J. M. · 2013 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fphys.2013.00123
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America — Convergence in hearing-related genes between echolocating birds and mammals
    Sadanandan, K. R. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2307340120
  3. PLoS ONE — The Secret Life of Oilbirds: New Insights into the Movement Ecology of a Unique Avian Frugivore
    Holland, R. A.; Wikelski, M.; Kümmeth, F.; Bosque, C. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0008264
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 8; conferência de trechos automatizada)

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