Evolução

Em Kauai, mais de 90% dos grilos machos perderam o canto em menos de 20 gerações por causa de uma mosca

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Comunicação animal

Um sinal de acasalamento pode sumir quando o custo de emiti-lo passa a superar o benefício. Em Kauai (Havaí), a mosca Ormia ochracea localiza grilos Teleogryllus oceanicus pelo canto e suas larvas os matam. Do fim dos anos 1990 a 2003, uma mutação de asa que impede o som, o flatwing, passou a mais de 90% dos machos, em menos de 20 gerações.

O grilo Teleogryllus oceanicus é uma espécie da Austrália e de ilhas do Pacífico, introduzida em três ilhas havaianas. A mosca Ormia ochracea, de origem norte-americana, é um parasitoide: suas larvas se desenvolvem dentro do hospedeiro e o matam. Ela se orienta pelo canto do macho, o mesmo sinal que atrai fêmeas. Seleção natural, aqui, é simples: machos que cantam morrem mais e deixam menos descendentes. Em Kauai, antes da mudança, quase 30% dos machos cantores abrigavam a mosca. O flatwing deixa a asa do macho parecida com a da fêmea, sem a estrutura que produz som.

Silêncio com movimento

Machos flatwing ainda mexem as asas no gesto do canto, mas a estrutura da asa não deixa o som sair. O comportamento permanece; o que desapareceu foi o ruído.

Como sabemos que o silêncio protege

A prova vem de duas medidas. Em campo, os pesquisadores acompanharam Kauai desde 1991: em 2001 ouviram um único macho cantando; em 2003, nenhum, mas os grilos estavam bem mais numerosos. Em 2004, de 133 machos amostrados, 12 tinham asa normal. Depois, dissecaram 121 flatwings: só um tinha larvas. As taxas anteriores, acima de 30%, são de outros anos, o que limita a comparação.

O que é estimativa e o que foi observado

O número de gerações não foi contado uma a uma. Os autores partiram de uma mudança entre o fim dos anos 1990 e 2003 e de quatro gerações por ano para chegar a 12 a 20. Cruzamentos de laboratório e depois o genoma mostraram uma variante ligada ao cromossomo X, numa região grande, cerca de um terço dele. Com tantos genes ali, a mutação exata ainda não foi apontada.

O custo do silêncio e os feromônios feminizados

Sem canto, o macho perde também o meio de atrair fêmeas à distância. Experimentos de campo sugerem que flatwings se aproximam do som dos poucos cantores restantes, como 'satélites'; é hipótese. No genoma, nove de 26 compostos cuticulares ficaram no mesmo trecho do cromossomo X, e o perfil químico dos flatwings ficou mais feminino. Se é efeito do próprio gene ou de genes vizinhos, ainda não se sabe.

Oahu e Hilo: o mesmo desfecho por caminhos próprios

O silêncio surgiu em ilhas diferentes, com asas e loci distintos, e o mesmo gene doublesex aparece nos pontos quentes de adaptação. Isso ocorreu mesmo com fluxo gênico entre as ilhas. Em populações onde o flatwing convive com outro fenótipo silencioso, o curly-wing, nenhum dos dois se fixa, o que mostra que a história de Kauai não é a regra em todo o Havaí.

Como sabemos

Os fatos centrais vêm de artigos revisados abertos lidos integralmente; o tempo em gerações é estimativa e a vantagem dos 'satélites' é hipótese.

Fontes

  1. Evolution Letters — Field cricket genome reveals the footprint of recent, abrupt adaptation in the wild
    Pascoal, S. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/evl3.148
  2. Biology Letters — Silent night: adaptive disappearance of a sexual signal in a parasitized population of field crickets
    Zuk, M.; Rotenberry, J. T.; Tinghitella, R. M. · 2006 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2006.0539
  3. Nature Communications — Rapid parallel adaptation despite gene flow in silent crickets
    Zhang, X.; Rayner, J. G.; Blaxter, M.; Bailey, N. W. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-020-20263-4
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Competing adaptations maintain nonadaptive variation in a wild cricket population
    Rayner, J. G. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2317879121
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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