Fenômenos naturais
Como uma pedra de granizo cresce até 20 cm: o recorde dos EUA caiu em Vivian, em 2010
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 23 de julho de 2010, uma pedra de gelo de 20,3 cm de diâmetro e cerca de 880 g caiu em Vivian, Dakota do Sul: o maior granizo já documentado nos Estados Unidos. Ele cresce dentro da tempestade. Um núcleo de gelo é erguido por uma corrente ascendente e vai juntando água super-resfriada, líquida mesmo abaixo de zero, que congela na superfície. Cai quando o ar que sobe já não aguenta o peso.
Todo granizo começa pequeno, como um grânulo de gelo ou de neve que serve de embrião. Dentro da nuvem há gotículas super-resfriadas, e cada uma que bate na pedra congela sobre ela e a engorda. Só tempestades com corrente ascendente forte e duradoura deixam a pedra crescer tanto: o NSSL associa granizo de 5 cm ou mais às supercélulas. A de Vivian tinha ar quente e úmido perto do chão e uma instabilidade extrema. Foi medida de manhã, depois de horas de degelo; os pesquisadores do governo dos EUA concluem que a pedra era maior ao cair do que ao ser medida.
O mais pesado do mundo é de Bangladesh
O recorde mundial de peso não é de Vivian. A Organização Meteorológica Mundial registra como a mais pesada uma pedra de 1,02 kg, caída no distrito de Gopalganj, em Bangladesh, em 14 de abril de 1986. A tempestade teria matado 92 pessoas.
O embrião e a água que não congela
Toda pedra de granizo nasce de um embrião: um grânulo de gelo mole (graupel) ou uma pelota de gelo, e para contar como granizo precisa chegar a pelo menos 5 mm. Dentro da nuvem existe água líquida abaixo de 0 °C, as gotículas super-resfriadas, que ficam líquidas por falta de um núcleo em que congelar. Quando uma delas encosta na pedra, congela sobre ela. Para os meteorologistas, bastam três coisas: uma corrente ascendente que segure a pedra no alto, água super-resfriada em volta dela e um pedaço de gelo, neve ou poeira para começar.
Camadas claras e opacas
Cortada ao meio, uma pedra mostra camadas de gelo claro e opaco. O gelo opaco vem de água que congela de imediato e prende bolhas de ar; o claro, de água que congela devagar. As camadas registram as condições de temperatura e de água líquida que a pedra encontrou, e não simples subidas e descidas dentro da nuvem. Também não é verdade que o granizo cresce até o topo: lá em cima o ar passa de -40 °C, toda a água virou gelo e não há mais o que juntar.
Por que só a supercélula faz pedras enormes
Numa tempestade comum, a fase madura dura pouco e as pedras não têm tempo de crescer muito. Nas supercélulas, a corrente ascendente se sustenta por bastante tempo. Granizo de 5 cm ou mais costuma vir delas. A de Vivian reunia o que há de mais extremo: ar muito quente e úmido perto do chão, energia de convecção estimada em cerca de 4.500 J/kg (a regra prática para tempo severo é 1.000 a 1.500), forte rotação e refletividade de radar acima de 70 dBZ. Além das pedras, trouxe ventos de até 129 km/h e um tornado breve.
Medir uma pedra que derrete
Quem achou a pedra foi o morador Les Scott, que a guardou no congelador. A queda de energia causada pela própria tempestade a derreteu em parte. Uma equipe do Serviço Nacional de Meteorologia chegou na manhã seguinte e confirmou que era granizo. Dias depois, a pedra foi pesada numa balança do correio local, previamente calibrada. O comitê de extremos climáticos checou se era mesmo granizo, as medidas, e se a tempestade podia produzir aquilo. Aprovou por 3 a 0, e conta o que foi medido, ainda que a pedra fosse maior ao cair.
Por que a primavera e o início do verão
O granizo nos Estados Unidos é mais comum do fim da primavera ao início do verão nas Grandes Planícies e perde força em setembro. Uma razão é a altitude: nas Planícies, o nível de congelamento fica mais perto do chão, e a pedra tem menos ar quente para atravessar. Quanto mais quente a estação, mais alto sobe esse nível e mais granizo derrete antes de cair. Por isso as pedras gigantes pedem uma combinação rara: ar muito frio no alto, quente e úmido embaixo e vento que gira. Vivian, em julho, mostra que o verão também pode produzi-las.
Como sabemos
Medidas e verificação do recorde conferidas no memorando oficial do NCEI/NCEC e na página do NWS Aberdeen; mecanismo de crescimento, no NSSL (NOAA) e na UCAR/NCAR; recorde mundial de peso, na tabela da OMM.
Em debate: As dimensões oficiais de Vivian foram tomadas depois de horas de derretimento; a pedra era maior ao cair, mas a medida original não existe. O morador citou cerca de 11 polegadas (28 cm) ao pegá-la, mas o recorde vale pelo que foi medido (20,3 cm).
Em debate: Registros de granizo fora dos EUA têm documentação desigual, por isso comparações de 'maior do mundo' em diâmetro dependem de quem mediu e de como; o post trata do recorde dos EUA e do recorde mundial de peso listado pela OMM.
- Fato estabelecido: Em 23 de julho de 2010, por volta das 18h (horário local), caiu em Vivian, Dakota do Sul, uma pedra de granizo de 8,0 polegadas (20,3 cm) de diâmetro, medido no maior eixo e incluindo as protuberâncias em forma de espinho, e 1,9375 libra (cerca de 0,88 kg). [1] [2]
Conversão de polegadas e libras para o sistema métrico feita a partir dos valores oficiais. O texto arredonda 0,879 kg para 'cerca de 880 g'. - Fato estabelecido: O Comitê Nacional de Extremos Climáticos dos EUA (NCEC) confirmou por unanimidade (3 a 0) que a pedra de Vivian bateu os recordes nacionais de diâmetro (anterior: 7,0 polegadas, Aurora, Nebraska, 22/06/2003) e de peso (anterior: 1,67 libra, Coffeyville, Kansas, 03/09/1970). Já o recorde de circunferência continua com Aurora (18,75 polegadas). [1] [2]
- Fato estabelecido: A pedra de Vivian é o maior granizo documentado nos Estados Unidos; o título vale para o país, não para o mundo. [1] [3]
A tabela da OMM lista apenas o granizo mais pesado do mundo (Bangladesh, 1986) e não traz item de diâmetro; por isso o texto não afirma que Vivian seja o maior do mundo. - Consenso científico: A pedra encolheu por derretimento e sublimação entre a queda e a medição (a pedra ficou ao ar livre, foi manuseada e houve queda de energia na casa onde estava guardada); é quase certo que era maior ao cair. As dimensões oficiais são as registradas na medição. [1] [2]
O morador Les Scott disse ter visto a pedra com cerca de 11 polegadas ao pegá-la; é relato dele, não medida, e não entra no texto como número. - Consenso científico: O granizo se forma quando gotas de chuva são carregadas por correntes ascendentes de tempestades até regiões muito frias e congelam; a pedra cresce ao colidir com gotas de água líquida que congelam na sua superfície. [3] [5]
- Fato estabelecido: As gotículas que alimentam o granizo são super-resfriadas, isto é, continuam líquidas abaixo de 0 °C (32 °F) por falta de um núcleo em que congelar. [5] [7]
- Fato estabelecido: O granizo começa como um embrião (grânulo de gelo mole, o graupel, ou pelota de gelo) e, para ser classificado como granizo, precisa ter pelo menos 0,2 polegada (cerca de 5 mm). [7]
Conversão de 0,2 polegada para 5 mm. - Consenso científico: Os ingredientes do granizo são uma corrente ascendente capaz de mantê-lo no alto pelo tempo necessário, água super-resfriada em volta dele e um pedaço de gelo, neve ou poeira para crescer sobre; quanto mais forte a corrente, maior a pedra possível. [4]
- Consenso científico: A pedra cai quando a corrente ascendente já não consegue sustentar seu peso, o que acontece se a pedra fica grande demais ou se a corrente enfraquece. [3] [4]
- Consenso científico: O gelo do granizo pode ter camadas claras e opacas: gelo opaco se forma quando a água congela de imediato e prende bolhas de ar; gelo claro, quando congela devagar. As camadas refletem mudanças de temperatura e de água líquida ao longo do caminho da pedra e não vêm simplesmente de ciclos de sobe e desce. [3]
- Fato estabelecido: O granizo não cresce até o topo da nuvem: em altitudes muito elevadas o ar está abaixo de -40 °C e toda a água líquida já virou gelo, e a pedra precisa de água líquida para crescer. [3]
O NSSL dá -40 °F; coincide com -40 °C. - Interpretação: Pedras com protuberâncias irregulares, como a de Vivian, sugerem muita água super-resfriada na nuvem: segundo o pesquisador Charles Knight (NCAR), a pedra coleta mais água do que consegue congelar de imediato, e o excesso escorre pela superfície, de modo parecido com a formação de um pingente de gelo. [5]
Explicação atribuída a Knight, que a descreve como complexa ('it's quite complicated'); não é medida na pedra de Vivian, e sim hipótese de trabalho de especialista. - Consenso científico: Tempestades multicelulares produzem muitas pedras, em geral não muito grandes, porque a fase madura é curta; as supercélulas têm correntes ascendentes sustentadas, que erguem as pedras repetidamente ao ar muito frio no topo da nuvem; granizo de 5 cm (2 polegadas) ou mais costuma estar associado a supercélulas. [4]
- Fato estabelecido: A tempestade de Vivian era uma supercélula de alto nível: ar muito quente e úmido na superfície, energia potencial de convecção (CAPE) estimada perto de 4.500 J/kg (a regra prática para tempo severo é 1.000 a 1.500 J/kg), forte cisalhamento do vento, refletividade de radar acima de 70 dBZ e rotação marcada. [1]
Valores da análise do NCEC/NOAA; o CAPE é estimativa regional, não medida no ponto. - Fato estabelecido: Na mesma tempestade foram relatados ventos destrutivos de até 80 mph (cerca de 129 km/h), um tornado breve e cinco feridos pelo granizo; a pesquisa de campo achou muitas outras pedras com mais de 6 polegadas (15 cm). [1]
Conversão de 80 mph e de 6 polegadas para o sistema métrico. - Estimativa: Pedras com mais de 4 polegadas (10 cm) de diâmetro podem cair a mais de 100 mph (cerca de 160 km/h); as estimativas de velocidade de queda são incertas por causa da forma, do derretimento e da orientação da pedra. [3]
O NSSL diz que 'é possível' passar de 100 mph e ressalta a grande incerteza dessas estimativas. - Consenso científico: Nos Estados Unidos o granizo é mais frequente do fim da primavera ao início do verão nas Grandes Planícies; no fim de setembro a probabilidade já diminuiu bastante. No verão, o nível de congelamento sobe e o granizo tende a derreter mais antes de chegar ao chão. [6] [8]
- Consenso científico: A elevação das Grandes Planícies deixa o nível de congelamento mais perto do chão, o que permite granizo em tempestades menos intensas do que em outras partes do país. [6]
- Interpretação: Segundo Harold Brooks (NSSL), uma cordilheira alta cria turbulência a sotavento e favorece correntes ascendentes fortes; as Planícies altas dos EUA reúnem as Rochosas a oeste, altitude de 3.000 a 5.000 pés (cerca de 900 a 1.500 m) e o Golfo do México por perto, o que gera forte contraste entre ar frio no alto e ar quente e úmido embaixo. [5]
Explicação de um especialista do NSSL citada pela UCAR, não resultado de um estudo específico; conversão de pés para metros feita por nós. - Fato estabelecido: O granizo mais pesado do mundo registrado pela OMM pesava 1,02 kg e caiu em Gopalganj, Bangladesh, em 14 de abril de 1986; a tempestade é associada a 92 mortes. [5] [9]
A OMM lista peso, data e local; o número de 92 mortes consta na UCAR e é relato reportado.
Fontes
- NOAA National Climatic Data Center (National Climate Extremes Committee) — Memorandum for the Record: Official Documentation of the Verification of the Vivian, SD record setting hailstone of 2010
consultada em 05/10/2026 - NOAA National Weather Service, Aberdeen (SD) — Vivian, South Dakota Hailstone Record
consultada em 05/10/2026 - NOAA National Severe Storms Laboratory — Severe Weather 101: Hail Basics
consultada em 05/10/2026 - NOAA National Severe Storms Laboratory — Severe Weather 101: Hail Forecasting
consultada em 05/10/2026 - UCAR/NCAR (University Corporation for Atmospheric Research) — All hail (AtmosNews)
consultada em 05/10/2026 - Midwestern Regional Climate Center, Purdue University — Hail (Living with Weather)
consultada em 05/10/2026 - NOAA National Severe Storms Laboratory — Severe Weather 101: Hail Types
consultada em 05/10/2026 - State Climate Office of North Carolina, NC State University — Hail Hath No Fury Like a Springtime Storm
consultada em 05/10/2026 - Organização Meteorológica Mundial (OMM) — Records of Weather and Climate Extremes (tabela)
consultada em 05/10/2026
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