História da África

Como sabemos que o Grande Zimbábue foi erguido por ancestrais dos povos de língua shona

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

O Grande Zimbábue, no sudeste do atual Zimbábue, é um conjunto de muralhas de granito, assentadas sem argamassa, espalhado por cerca de 720 hectares. Nos séculos XIV e XV foi o centro de um Estado que dominava a região entre os rios Zambeze e Limpopo. Exploradores e colonos europeus do século XIX atribuíram as ruínas a fenícios ou à rainha de Sabá. Escavações feitas a partir de 1905 mostraram que a cidade é obra de ancestrais dos povos de língua shona.

O mito tinha origem antiga e uso político. Cronistas portugueses do século XVI, que nunca viram o lugar, ligaram os rumores de uma fortaleza de pedra no interior à Ofir bíblica, de onde viria o ouro de Salomão. Em 1871, o alemão Karl Mauch chegou às ruínas guiado por moradores karangas e concluiu que não podiam ser obra de africanos. A Companhia Britânica da África do Sul, de Cecil Rhodes, ocupou a região em 1890 e patrocinou pesquisadores que defendiam uma origem estrangeira; suas escavações destruíram camadas arqueológicas e jogaram fora cerâmica e contas. Mesmo depois que arqueólogos profissionais provaram a origem local, o governo branco da Rodésia censurou publicações e exposições sobre o sítio entre 1965 e 1980, e o arqueólogo Peter Garlake foi forçado a deixar o país. Na independência, em 1980, o país adotou o nome das ruínas.

Os pássaros de pedra-sabão

Entre os achados mais conhecidos estão aves esculpidas em pedra-sabão, com cerca de 35 cm, no alto de colunas de quase um metro. Cada uma tem marcas próprias, e nenhuma corresponde claramente a uma espécie local; arqueólogos sugerem que representassem ancestrais. Willi Posselt, um dos primeiros visitantes europeus, levou uma delas.

O sítio

O Grande Zimbábue tem três conjuntos principais: o Complexo da Colina, no alto de um morro rochoso; o Grande Recinto, no vale abaixo; e os recintos menores do vale. A muralha do Grande Recinto tem altura média de 7,3 m, 5,5 m de espessura na base e mais de 240 m de comprimento. Dentro dela há recintos menores, fundações de casas de pau a pique e uma torre cônica maciça, cuja função ninguém sabe. O Grande Recinto é provavelmente a residência dos governantes. O sítio é o maior de cerca de 150 conjuntos com muralhas do mesmo estilo no planalto entre o Zambeze e o Limpopo.

Quem viveu ali

Há sinais de ocupação da Idade do Ferro antiga antes do século IV, mas o povoamento importante começa por volta dos séculos X ou XI. A partir do século XII a cerâmica melhora, aparecem ornamentos de cobre, bronze e ouro, contas importadas e muralhas de pedra. Por volta de 1300, o lugar era o centro de um Estado poderoso, cuja cultura tinha raízes na tradição local e provavelmente falava shona. Peter Garlake datou o florescimento entre 1200 e 1450. Pesquisas mais recentes mostram que partes da cidade continuaram ocupadas até o século XVII e que o poder pode ter circulado entre diferentes conjuntos dentro do sítio.

O mito

No século XVI, cronistas portugueses que nunca viram o lugar ligaram os rumores de uma fortaleza de pedra no interior à Ofir bíblica e à rainha de Sabá. Em 1871, Karl Mauch chegou às ruínas e concluiu que eram obra de uma nação 'civilizada' estrangeira. A Companhia Britânica da África do Sul, de Cecil Rhodes, ocupou a região em 1890 e contratou J. Theodore Bent, que cavou ao redor da torre cônica em 1891, destruiu a estratigrafia e atribuiu a obra a um povo vindo da Arábia. A Ancient Ruins Company, autorizada por Rhodes em 1895, saqueou ouro e jogou fora cerâmica. Richard N. Hall destruiu quase todos os depósitos dentro das muralhas.

A arqueologia

Em 1905, a própria companhia contratou David Randall-MacIver, egiptólogo formado por Flinders Petrie. Ele encontrou casas e objetos africanos, comparou o material com o dos karangas da vizinhança e mostrou que as contas importadas eram dos séculos XIV ou XV. Concluiu que o sítio era africano e medieval. Em 1929, Gertrude Caton-Thompson escavou a Ruína Maund, que estava intacta, e chegou à mesma conclusão com estratigrafia cuidadosa, publicada em 1931. Nos anos 1960 e 1970, Roger Summers e Peter Garlake consolidaram a sequência de ocupação. Desde então, a origem local é consenso entre arqueólogos.

Censura na Rodésia

A prova arqueológica não encerrou a disputa política. Entre 1965 e 1980, o governo de minoria branca da Rodésia censurou livros, exposições e materiais sobre o Grande Zimbábue que afirmassem sua origem africana, enquanto o sítio virava símbolo do movimento nacionalista. Peter Garlake, o principal especialista no sítio, foi forçado a deixar o país, e africanos que defendiam a mesma posição perderam empregos. Na independência, em 1980, o país passou a se chamar Zimbábue. Shadreck Chirikure observa que mesmo os arqueólogos que confirmaram a origem local eram estrangeiros e deixaram os moradores fora da pesquisa.

O que ainda se discute

Quem construiu o Grande Zimbábue não está mais em debate. Discute-se quantas pessoas viviam ali, com estimativas de 2 mil a 17 mil no auge; como a economia funcionava; e por que a cidade perdeu importância. Modelos antigos davam peso central à troca de ouro por bens do Índico, como porcelana chinesa e contas de vidro. Chirikure argumenta que esses bens são raros nas escavações e que a base era a produção de agricultores, criadores e artesãos, dentro e fora do controle do Estado. Para o declínio, as hipóteses incluem a mudança das rotas do ouro para o norte e o esgotamento de recursos locais.

Como sabemos

A origem local é consenso arqueológico desde 1905 e está documentada na síntese da UNESCO e em artigo de revisão de 2019; números de área e população estão marcados como estimativa.

Em debate: Cronologia: Garlake (1973) datou o auge e o abandono em 1200–1450; novas datações de radiocarbono (Chirikure e colegas) indicam ocupação de partes do sítio até o século XVII e capitais que se alternavam dentro dos 720 hectares.

Em debate: População: as estimativas vão de no máximo 2 mil a 10–17 mil habitantes no auge.

Em debate: Papel do comércio do Índico: modelos antigos explicavam o Estado pela troca de ouro por bens importados; Chirikure (2019) defende que a base era a produção doméstica e regional, com os bens importados em quantidade pequena.

Em debate: Declínio: mudança das rotas do ouro, esgotamento do solo e da lenha, falta de sal e disputas políticas são hipóteses discutidas, sem consenso.

Em debate: Origem local: não há debate acadêmico atual sobre quem construiu o sítio. As teorias de origem fenícia, árabe ou israelita são consideradas refutadas desde o início do século XX.

Fontes

  1. UNESCO — General History of Africa, IV (introdução de D. T. Niane; cap. 21, B. M. Fagan, 'The Zambezi and Limpopo basins: 1100-1500')
    consultada em 03/10/2026
  2. University of Cape Town / Springer (acesso aberto, cópia da Deutsche Nationalbibliothek) — New Perspectives on the Political Economy of Great Zimbabwe (Journal of Archaeological Research, 2019, doi:10.1007/s10814-019-09133-w)
    consultada em 03/10/2026
  3. Scientific American — Great Zimbabwe
    consultada em 03/10/2026
  4. NOVA, PBS — Mysteries of Great Zimbabwe
    consultada em 03/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — migração da versão 0.3 (lotes 001 a 003)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos