Ecologia

Gralha-azul e araucária: a ave leva o pinhão a até 800 m da árvore, mas poucas sementes chegam a germinar

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Na Floresta com Araucária, a gralha-azul está entre as aves que carregam o pinhão para longe da árvore-mãe: em observações de campo, 26 transportes dela foram medidos, de 12 a 800 m. Mas a semente é alimento disputado por aves e mamíferos. Em um experimento com sementes simuladas, só 1,1% germinou, e apenas as enterradas sobreviveram até o fim.

A araucária (Araucaria angustifolia), também chamada pinheiro-do-paraná, é uma conífera ameaçada que dá o pinhão, semente grande (cerca de 7 g) e rica em energia, que amadurece de março a junho, época de pouco alimento na floresta. Pesada demais para o vento, depende da gravidade e de animais. Alguns animais comem a semente na hora; outros, como certas aves e roedores, guardam sementes em esconderijos (dispersão por armazenamento, ou "scatter-hoarding"), e as não recuperadas podem germinar. Por isso o mesmo animal pode ser predador e dispersor: importa onde e em que estado a semente fica.

O pinhão mordido que germina

Entre 125 sementes de araucária encontradas germinando, 67,2% tinham sido parcialmente comidas por consumidores: a semente é grande o bastante para sobreviver a uma dentada na ponta.

O que a gralha-azul faz com o pinhão, em números

Em quatro regiões do Sudeste e do Sul, pesquisadores seguiram aves em maio de 2015 e mediram a distância até onde levavam a semente: 26 casos da gralha-azul, de 12 a 800 m. A estimativa para o conjunto das gralhas foi de 163 m em média e 100 m de mediana, valores parecidos com os dos papagaios. Quando a ave saía de vista, a distância registrada era um mínimo. Esse é o dado de dispersão mais direto sobre a espécie nas fontes lidas.

Como sabemos: sementes enterradas, sementes no chão e fio de carretel

Em Cascavel (PR), uma equipe colocou 900 sementes em floresta e campo aberto: algumas enterradas a 5 cm, outras inteiras sobre o solo, outras já roídas. Em parte delas, prendeu um carretel de linha para seguir o destino. Só as enterradas chegaram ao fim; das marcadas, 81,5% foram comidas após a remoção; só 1,1% das sementes germinou. O limite é grande: o enterramento foi feito por humanos, o trabalho é pré-publicação, e o maior consumidor foi a gralha-picaça, não a azul.

Roedores: quem tira a semente, e o que fazem com ela

No Itatiaia, 77% de 1.440 sementes foram retiradas, com participação semelhante de pequenos, médios e grandes mamíferos. Pequenos roedores levam uma ou duas sementes por dia; mamíferos grandes retiram de uma vez. Retirada não prova predação nem dispersão: o destino final não foi seguido. Na pré-publicação de Cascavel, pequenos roedores responderam por 22,67% da predação e a cutia, que estoca sementes, por 16%.

O que muda sem o dispersor

As fontes lidas não medem o que acontece com a araucária quando a gralha-azul desaparece de uma floresta. O que há é indireto: as gralhas são tidas como o principal dispersor aviário, são bem menos abundantes que os papagaios nas estradas pesquisadas, e a regeneração em fragmentos é baixa. Isso sugere uma interação frágil, mas a relação de causa e efeito continua por demonstrar.

Como sabemos

Distâncias e papel dos papagaios vêm de artigo revisado; enterramento e sobrevivência vêm de pré-publicação, e a gralha-azul tem dados de transporte, não de enterramento.

Fontes

  1. Scientific Reports (Nature Portfolio) — Endangered plant-parrot mutualisms: seed tolerance to predation makes parrots pervasive dispersers of the Parana pine
    Tella, J. L. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/srep31709
  2. Research Square (pré-publicação; autores de instituições brasileiras) — Does the seed disperser matter? The influence of dispersal type on survival of Araucaria angustifolia seeds (pré-publicação)
    Squinzani, L. I.; Piana, P. A.; Brocardo, C. R. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.21203/rs.3.rs-1114990/v1
  3. Biota Neotropica (SciELO) — Seed removal of Araucaria angustifolia by native and invasive mammals in protected areas of Atlantic Forest
    Rosa, C.; Hegel, C. G. Z.; Passamani, M. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/1676-0611-BN-2020-1111
  4. Cornell Lab of Ornithology, Neotropical Birds — Azure Jay (Cyanocorax caeruleus), Neotropical Birds
    Cornell Lab of Ornithology · s.d. · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
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