Ciências da Terra
Como se montou o Gondwana Ocidental: colisões de blocos de Rodínia entre 630 e 500 milhões de anos atrás
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
O Gondwana Ocidental, hoje América do Sul e África, foi montado por colisões entre blocos continentais derivados do supercontinente Rodínia, sobretudo entre 630 e 500 milhões de anos atrás (ciclo Brasiliano–Pan-Africano). Os oceanos entre os blocos se fecharam em etapas, uma região de cada vez. O que mais se discute é o papel de oceanos em forma de V, hipótese de 2023 em que pedaços esticados de um continente antigo foram empurrados de volta.
Rodínia é o supercontinente que existiu há cerca de 1 bilhão de anos e se fragmentou no Neoproterozoico (1.000 a 541 milhões de anos atrás, Ma). Os pedaços, cráton (bloco antigo e estável) e blocos menores, circularam e voltaram a se juntar. Quando duas margens continentais colidem, forma-se um cinturão de montanhas, ou orógeno; o do lado sul-americano chama-se Brasiliano, o do lado africano, Pan-Africano. É um ciclo de Wilson completo: oceano que abre, se alarga e se fecha. A montagem não foi simultânea: cada oceano fechou em uma época. Em vez de uma única colisão, foi uma colagem de blocos, cada qual com seu ritmo local. Este artigo trata da junção; a abertura posterior do Atlântico Sul está em outro.
Oceanos que viveram mais de 200 milhões de anos
Pela estimativa de Brito Neves e colegas, o oceano Adamastor durou cerca de 220 milhões de anos (de 750 a 530 Ma). Só a faixa Pampeana–Paraguai teria sido muito mais breve, com cerca de 13 milhões de anos.
Como sabemos: idades, arcos vulcânicos e restos de crosta oceânica
Os oceanos que sumiram deixaram sinais. Fatias de crosta oceânica (ofiolitos) e de arcos de ilhas aparecem espremidas entre os blocos, e a idade dos granitos formados nas colisões indica quando cada uma ocorreu, como os granitos de cerca de 610 Ma em Riacho do Pontal e de 580 Ma em Sergipano, no Nordeste. Os autores de 1999 notam que parte da reelaboração do embasamento só aparece com métodos isotópicos e geoquímicos. Isso cria incerteza: uma idade vale para um lugar, não para toda a cadeia de montanhas.
Duas formas de fechar um oceano
No modelo de 2023, o oceano Goiás–Pharusiano se fechou por acreção de arcos e foi 'extrovertido': ligou blocos que nunca tinham sido vizinhos, como o Amazônico e o São Francisco–Congo. Os oceanos Adamastor e do Nordeste, em V, teriam sido 'introvertidos': margens que já tinham sido vizinhas voltaram a se encontrar, como num ciclo de Wilson clássico. A ponta fechada do V ficaria no interior do continente e teria deformação sem oceano.
Depois da colisão: continentes que escorregam de lado
Quando a compressão não bastou para absorver o choque, a crosta se deslocou para os lados. Esse escape lateral é a origem proposta para as redes de zonas de cisalhamento do Nordeste e do sudeste do Brasil e do noroeste e sudoeste da África, entre elas as que atravessam o Atlântico (veja o artigo sobre o corredor Transbrasiliano–Kandi). Parte do que hoje parece cinturão é cráton antigo retrabalhado (veja o artigo sobre os crátons do Brasil).
O que ainda se discute
Não há um relato único. A síntese de 1999 usa cinco placas continentais e dá o fechamento de cada oceano em épocas próprias; o modelo de 2023 põe um continente africano central, o Bloco Africano Central, que se desmembra e é reunido. Se o São Francisco–Congo esteve isolado ou na borda de Rodínia também é debatido, e há poucos dados paleomagnéticos para decidir. O que se mantém é o resultado: um ciclo longo e diácrono, com pico entre 630 e 500 Ma.
Como sabemos
O intervalo de 630 a 500 Ma e a sequência geral de fechamentos estão bem sustentados; os detalhes, como a participação de oceanos em V, são de modelos recentes e em debate.
Em debate: Oceanos em V e continentes em fita
- Consenso científico: Os sistemas de orógenos Brasiliano e Pan-Africano formaram-se entre os crátons sul-americanos e africanos principalmente entre 630 e 500 milhões de anos atrás. [2] Introdução [3] Resumo
Contexto: Intervalos de duas sínteses; o início e o fim variam conforme a região (a segunda trata do Nordeste e do noroeste da África). · Limitações: Os intervalos de 630–500 e 625–510 Ma são de estudos diferentes; a duração depende de qual evento se conta como início e como fim. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O Gondwana Ocidental, representado hoje pela América do Sul e pela África, é um mosaico de crátons arqueanos e paleoproterozoicos unidos por sistemas orogênicos do Neoproterozoico ao Cambriano. [2] Introdução
Contexto: Descrição geral da região estudada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A história começou com a fragmentação de Rodínia, que ocorreu em intervalos diferentes (cerca de 1000–950, 750 e 600 Ma) conforme a região, e terminou com a junção de um novo supercontinente, o Gondwana Ocidental. [1] Resumo
Contexto: Síntese de Brito Neves, Campos Neto e Fuck (1999), feita principalmente com dados da América do Sul. · Limitações: Os intervalos exatos de ruptura (cerca de 1000–950, 750 e 600 Ma) saem do resumo do mesmo artigo e são de uma síntese de 1999; trabalhos posteriores revisaram idades. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A montagem foi diácrona: rifteamento, subducção e colisão ocorreram em épocas diferentes de uma região para outra, às vezes dentro da mesma província. [1] Resumo
Contexto: Termo "diácrono": acontece em tempos diferentes em lugares diferentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Um oceano chamado Goiás–Pharusiano separava o bloco Amazônico do bloco São Francisco–Congo no Neoproterozoico; as sequências de arcos magmáticos e a colisão final do bloco Amazônico, por volta de 540–520 Ma, completaram a montagem. [2] Closure of the Goiás-Pharusian ocean
Contexto: Modelo de Caxito e Alkmim (2023); o oceano Goiás–Pharusiano é documentado por restos de ofiolitos (fatias de crosta oceânica) no Tocantins e no Nordeste. · Limitações: A data final é de um modelo; sínteses anteriores, como a de 1999, descrevem outra sequência de blocos e idades. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O fechamento dos oceanos Goianides, Pharusiano e, em parte, o do Nordeste ocorreu por volta de 630–600 Ma, por colisões frontais entre os blocos Rio de la Plata e São Francisco e entre a África Ocidental e Hoggar–Potiguar. [1] Geodynamic evolution
Contexto: Síntese de 1999, no padrão de cinco placas continentais. · Limitações: As idades vêm de métodos disponíveis até 1999 (U-Pb, Sm-Nd e outros) e foram refinadas depois. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Segundo a síntese de 1999, o oceano Adamastor teve duração estimada de cerca de 220 milhões de anos (750 a 530 Ma). [1] Geodynamic evolution
Contexto: Oceano a leste do Brasil e a oeste da África; o fim, por volta de 530 Ma, é marcado no lado africano. · Limitações: Estimativa de 1999. · Duração é estimativa de um único estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A faixa Pampeana–Paraguai, no sudoeste da América do Sul, está entre os segmentos mais jovens da colagem Brasiliana. [1] Tocantins orogenic system
Contexto: Segmento do sistema do Tocantins. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Entre o São Francisco e o bloco Pernambuco–Alagoas, a bacia oceânica do Nordeste foi invertida por volta de 0,60 Ga, e a orogenia transpressional (com deslocamento lateral) começou por volta de 0,59 Ga. [4] Resumo
Contexto: Província Borborema, Nordeste do Brasil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Parte dos pesquisadores propõe que fragmentos esticados do continente São Francisco–Congo (continentes em fita) se afastaram por oceanos em forma de V, que depois se fecharam e empurraram esses fragmentos de volta contra o núcleo rígido. [2] Resumo
Contexto: Modelo de Caxito e Alkmim (2023) para os sistemas Borborema/noroeste da África e Mantiqueira/sudoeste da África. · Limitações: É um modelo, apoiado em dados de idade e na correlação entre unidades; os próprios autores reconhecem poucos dados paleomagnéticos. · Hipótese de um grupo, publicada em 2023; outras sínteses descrevem a montagem sem o bloco central africano. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: O Bloco Africano Central, junção de São Francisco–Congo e de parte do embasamento retrabalhado em volta, teria ficado unido de cerca de 2,0 a 0,9 bilhão de anos atrás. [2] Putative Ariadne's threads
Contexto: Proposta que usa semelhanças de idade e de rochas entre domínios hoje separados. · Limitações: Reconstruções de 1 bilhão de anos atrás mostram esse continente ou isolado ou na periferia de Rodínia; o consenso não está fechado. · Hipótese em debate; a abordagem exclui medidas paleomagnéticas robustas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os restos dos oceanos antigos estão preservados em mélanges de acreção, nos arcos magmáticos e em outros marcadores de tectônica de placas entre os grandes blocos retrabalhados. [2] Putative Ariadne's threads
Contexto: Descrição geral dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Os autores listam como questões recorrentes se os sistemas Brasiliano e Pan-Africano nasceram do consumo de litosfera oceânica e colisão, de processos sobretudo intracontinentais ou de uma combinação dos dois. [2] Introdução
Contexto: Debate sobre a natureza das faixas orogênicas. · Debate publicado; Caxito e Alkmim defendem oceanos fechados, outros autores, riftes intracontinentais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Depois do pico das colisões, as tensões restantes foram aliviadas por deslocamento lateral, criando redes de zonas de cisalhamento de milhares de quilômetros (queirógenos). [2] Resumo
Contexto: Interpretação do modelo de 2023; "queirógeno" é a tradução nossa de keirogen. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Pela estimativa da síntese de 1999, o oceano do sistema do Tocantins durou pelo menos 230 milhões de anos, e o da faixa Pampeana–Paraguai, cerca de 13 milhões de anos. [1] Conclusão
Contexto: Estimativas de duração dos oceanos que precederam cada sistema orogênico. · Limitações: Estimativas de 1999, com as idades disponíveis então. · Estimativa de um único estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Episodes (International Union of Geological Sciences) — From Rodinia to Western Gondwana: An approach to the Brasiliano-Pan African Cycle and orogenic collage
Brito Neves, B. B.; Campos Neto, M. C.; Fuck, R. A. · 1999 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.18814/epiiugs/1999/v22i3/002 - Scientific Reports (Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade Federal de Ouro Preto) — The role of V-shaped oceans and ribbon continents in the Brasiliano/PanAfrican assembly of western Gondwana
Caxito, F. A.; Alkmim, F. F. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-28717-7 - Brazilian Journal of Geology (Sociedade Brasileira de Geologia) — Toward an integrated model of geological evolution for NE Brazil-NW Africa: The Borborema Province and its connections to the Trans-Saharan and Central African orogens
Caxito, F. A.; Santos, L. C. M. L.; Ganade, C. E.; Bendaoud, A.; Fettous, E.-H.; Bouyo, M. H. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/2317-4889202020190122 - Scientific Reports — Decratonization by rifting enables orogenic reworking and transcurrent dispersal of old terranes in NE Brazil
Ganade, C. E.; Weinberg, R. F.; Caxito, F. A.; Lopes, L. B. L.; Tesser, L. R.; Costa, I. S. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-84703-x
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)