Zoologia

Em Laguna (SC), golfinhos e pescadores de tarrafa caçam tainha juntos há mais de um século

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Na região de Laguna, no sul de Santa Catarina, golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus gephyreus) conduzem cardumes de tainha em direção a pescadores que esperam na água rasa. Com um mergulho em que arqueiam o dorso, avisam quando lançar a tarrafa. Num estudo publicado em 2023, pescadores tiveram 17 vezes mais chance de pegar tainha com golfinhos por perto, e os golfinhos cooperativos tiveram cerca de 13% mais sobrevivência que os não cooperativos.

A parceria acontece em águas turvas, onde o pescador não enxerga o cardume. Os golfinhos empurram as tainhas (Mugil liza) para a margem e dão o sinal. A tarrafa, ao cair, desorganiza o cardume, e os golfinhos selecionam os peixes presos na rede. O estudo de 2023, de Mauricio Cantor, Damien Farine e Fábio Daura-Jorge, reuniu 12 anos de levantamentos e 44 dias de observação intensiva em 2018 e 2019, com cerca de 65 golfinhos e entrevistas com 177 pescadores. A prática persiste há mais de um século e passa de geração em geração, nos dois lados: entre golfinhos e entre pescadores.

Nem todo golfinho coopera

No grupo estudado há golfinhos cooperativos, ocasionais e os que nunca participam. A pesca em sincronia (45,8% dos 2.805 eventos analisados) rendeu 74% das capturas bem-sucedidas e 86% de todas as tainhas.

O sinal e a rede

Os pescadores ficam na água rasa, em fila, com a tarrafa pronta. Quando o cardume chega conduzido pelos golfinhos, um deles arqueia o dorso num mergulho súbito, o chamado sinal de apresentação do dorso. É a deixa para lançar a rede. Também foram descritas batidas de cauda e de cabeça na superfície como sinais. A água turva impede que o pescador veja o cardume, então o aviso dos golfinhos é a informação que falta.

Quem ganha o quê

Para os pescadores, a presença dos golfinhos multiplicou por 17 a chance de pegar tainha. Para os golfinhos, a rede em queda deixa peixes presos, e eles selecionam as tainhas diretamente da rede. Os cooperativos tiveram cerca de 13% mais sobrevivência do que os não cooperativos. Cada lado depende do outro para um resultado que sozinho não alcançaria, e é isso que torna a relação um mutualismo.

A importância do sincronismo

Nem toda tentativa dá certo. Os eventos em que golfinhos e pescadores agiram em sincronia foram 45,8% do total analisado e produziram 74% das capturas bem-sucedidas. Em outro estudo, com grupos de 2 a 6 golfinhos, o sucesso foi maior quando eles chegavam por trajetórias diferentes e mergulhavam juntos. O ritmo do conjunto pesa mais do que a ação isolada de um animal.

Uma tradição que precisa de duas espécies

A tática é aprendida socialmente e persiste por gerações. Entre os pescadores, quem aprendeu com parentes identifica melhor cada golfinho, e os autores apontam a transmissão de pai para filho como importante para manter a prática. Como depende de pessoas dispostas, golfinhos dispostos, presa em comum e um ambiente adequado, a tradição pode se perder se qualquer um desses elementos faltar.

Como sabemos

Os números centrais vêm do estudo da PNAS (2023) via PMC, coerente com outras três publicações revisadas por pares do mesmo grupo.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), via PubMed Central — Foraging synchrony drives resilience in human-dolphin mutualism
    consultada em 05/10/2026
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B, via PubMed Central — Ecology and conservation of socially learned foraging tactics in odontocetes
    consultada em 05/10/2026
  3. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, via PubMed Central — The ability of artisanal fishers to recognize the dolphins they cooperate with
    consultada em 05/10/2026
  4. Current Zoology, via PubMed Central — The influence of dolphin group coordination on cooperative foraging with humans
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Capa trocada na conferência: imagem de abertura ligada ao assunto do título
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos