Zoologia
Golfinhos selvagens copiam o assobio-assinatura de outro, quase só entre mãe e filhote ou machos aliados
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Comunicação animal
Em 85 capturas temporárias de golfinhos-nariz-de-garrafa na baía de Sarasota (EUA), só em 10 um animal copiou o assobio-assinatura de outro: 8 de 31 pares de mãe e filhote e 2 de 11 pares de machos. Os pares que copiaram eram mais associados (índice médio de 0,8 contra 0,4), a cópia vinha cerca de 1 s após o original e não houve agressão. A cópia saía alterada em alguns parâmetros e era reconhecível como cópia.
Cada golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) desenvolve um assobio-assinatura próprio, que se forma com ajuda de aprendizado vocal e é usado quase só por seu dono. Como o assobio tem um só dono, quando outro animal o reproduz o som remete àquele indivíduo; por isso se discute se a cópia equivale a chamá-lo. Três hipóteses foram postas à prova em Sarasota Bay: função afiliativa, que prevê cópia entre parceiros próximos; agressiva, que prevê cópia entre animais menos associados; e enganosa, com cópias indistinguíveis do original. O teste de reconhecimento pelo contorno do assobio é tratado em outro texto; aqui o foco é quem copia quem e como a cópia difere do original.
Uma troca de cópias que durou 30 segundos
No aquário, dois machos trocaram cópias do assobio de um deles por cerca de 30 s: 13 e 11 repetições, respectivamente. Não houve agressão. Foi uma das trocas em que os autores viram a cópia usada em resposta direta ao dono do assobio.
Como sabemos que é uma cópia
A equipe usou gravações feitas com hidrofones de ventosa em animais capturados e soltos em Sarasota Bay, 205 h ao todo. Um observador comparou espectrogramas (gráficos de frequência por tempo) para achar um mesmo contorno emitido por dois animais. Depois, cinco avaliadores, sem saber contexto nem identidade, deram notas de 1 a 5 de semelhança; só valia como cópia o que passava de 3 frente ao original e ficava abaixo de 3 frente ao assobio do copiador. A associação entre pares veio de décadas de fotoidentificação.
Quem copia, e quão raro é
Dos 179 pares gravados em 85 eventos, 10 tiveram cópia: 8 de 31 de mãe e filhote e 2 de 11 de machos. A taxa nesses eventos foi de 0,18 cópia por minuto por animal, ante 5,3 assobios por minuto, quase todos assinaturas. Em aquário, só um de seis pares de machos copiou, embora outro, também sincronizado, não. Há ainda três casos, entre duas fêmeas adultas pouco associadas, de cópia de assobios que não eram assinaturas, e o artigo não os explica.
Copiar sem repetir exatamente
As cópias mantinham o contorno geral, mas mudavam parâmetros como frequência inicial, final ou máxima, e em alguns casos o número de alças. As mudanças tanto aumentavam quanto reduziam a frequência. Os autores argumentam, com base em estudos com golfinhos treinados que imitam sons quase perfeitamente, que isso não parece falha de imitação; assim, quem conhece o dono do assobio reconheceria a cópia como cópia. Não houve teste direto dessa percepção.
O que a cópia pode querer dizer
Os dados favorecem a hipótese afiliativa: cópia entre próximos, cerca de 1 s após o original, sem agressão nem sinal de engano. Isso é compatível com chamar o outro, mas não prova intenção. Num experimento posterior na Escócia (King e Janik, 2013), golfinhos que ouviram uma cópia do próprio assobio responderam com o mesmo assobio, apoio à ideia de chamar. Em 2013 os autores diziam não saber se golfinhos usam sinais aprendidos como referência.
Como sabemos
Os números vêm do artigo de 2013 lido na íntegra; a função da cópia aparece como hipótese dos autores.
- Fato estabelecido: Em 85 eventos de captura e soltura de golfinhos selvagens em Sarasota Bay, só em 10 houve um animal copiando o assobio-assinatura de outro do mesmo grupo. [1] Results
Contexto: Golfinhos-nariz-de-garrafa residentes em Sarasota Bay (Flórida, EUA); gravações de 1988 a 2004 nos eventos analisados. · Limitações: Animais contidos por cerca de 108 min em média por evento; o comportamento em liberdade pode diferir. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A cópia ocorreu em 10 de 179 pares de animais gravados: 2 dos 11 pares de machos e 8 dos 31 pares de mãe e filhote. Ou seja, mesmo entre mãe e filhote a maioria dos pares não copiou. [1] Results
Contexto: Pares presentes nos mesmos eventos de captura; os demais eventos reuniam grupos de composição variada. · Limitações: A frase "a maioria dos pares de mãe e filhote não copiou" é conta nossa: 8 de 31 pares copiaram, logo 23 de 31 não. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os pares que copiaram eram mais associados: o coeficiente médio de associação (0 a 1, medido por avistagens conjuntas) foi 0,8 nos 10 pares que copiaram e 0,4 nos que não copiaram. [1] Results
Contexto: Coeficiente de associação do ano anterior à gravação, de fotoidentificação sistemática; 202 pares no total. · Limitações: Associação alta é condição frequente, não suficiente: um par de machos de alta sincronia no aquário não copiou. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Nesses eventos cada golfinho usava quase só o próprio assobio-assinatura e emitia em média 5,3 assobios por minuto; nos eventos com cópia, a taxa foi de 0,18 cópias por minuto por animal. [1] Results
Contexto: Eventos de captura e soltura em Sarasota Bay; a taxa de cópia é calculada só nos eventos em que houve cópia. · Limitações: Taxas medidas com animais contidos, em situação de separação do grupo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As cópias foram achadas comparando espectrogramas de mais de 200 horas de gravação; cinco avaliadores sem informação de contexto deram notas de 1 a 5 de semelhança, e só contou como cópia o assobio com média acima de 3 em relação ao original e abaixo de 3 em relação ao assobio do próprio copiador. [1] Material and methods
Contexto: Notas dadas sobre os contornos de frequência extraídos, não sobre o som bruto. · Limitações: A primeira identificação foi feita por um único observador; a concordância entre os cinco avaliadores é estatisticamente significativa, mas moderada (kappa 0,42). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As cópias reproduziam bem o contorno geral, mas os copiadores alteravam parâmetros isolados; em média 4,4 parâmetros (de 1 a 6) diferiam de forma significativa do original. Um macho, por exemplo, quase sempre fazia cópias de três alças do assobio de seu aliado, que variava de 3 a 6. [1] Results
Contexto: Parâmetros medidos: frequência inicial, final, mínima, máxima, faixa, duração, frequência média e número de alças. · Limitações: Medidas em 11 animais copiadores; dois foram excluídos por amostra pequena. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores concluem que as alterações provavelmente não são simples erros de imitação, e que por isso as cópias são reconhecíveis como cópias por quem conhece o assobio do dono. [1] Discussion
Contexto: Raciocínio dos autores a partir de três linhas de evidência, citadas de outros estudos com golfinhos treinados. · Limitações: Inferência, não teste direto de como o ouvinte reage à cópia. O artigo diz que só animais familiarizados com o dono do assobio reconheceriam a cópia. · Interpretação dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A cópia vinha em média 0,94 s depois do assobio original, contra 2,55 s para o assobio do próprio copiador depois do original; em machos de aquário, quase todas as cópias vieram em até 1 s. [1] Results
Contexto: Os 108 tempos de cópia foram comparados com 1.651 tempos de assobio próprio nos eventos de captura; no aquário, as taxas vocais eram menores. · Limitações: Nos eventos de captura as taxas de assobio eram altas e era difícil julgar quem respondia a quem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os autores não encontraram evidência de que a cópia sirva à agressão ou ao engano: a cópia não foi seguida de agressão e ocorreu quase só entre parceiros próximos. [1] Abstract
Contexto: Sarasota Bay e quatro machos de aquário na Flórida. · Limitações: Ausência de evidência numa amostra pequena de pares, em situação de contenção; houve também três casos de cópia de assobios que não eram assinaturas entre duas fêmeas adultas pouco associadas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num aquário, dois de quatro machos criados juntos trocaram cópias do assobio-assinatura de um deles, sem agressão; outro par também sincronizado (26% do tempo) não copiou. [1] Results
Contexto: The Seas, Epcot (Flórida): 16 h de gravação de quatro machos adultos. · Limitações: Quatro animais de um só local de cativeiro; 13 cópias no total. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Para os autores, a cópia funciona como sinal de afiliação, de manutenção de vínculo, e não de disputa; a ideia de que copiar equivale a se dirigir a outro indivíduo já havia sido proposta antes. [1] Introduction
Contexto: Conclusão do artigo de 2013 sobre golfinhos-nariz-de-garrafa de Sarasota Bay. · Limitações: O artigo mede quem copia quem e em que contexto; não mede o que o ouvinte entende nem se há intenção de chamar. · Interpretação dos autores; a função exata segue em estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores consideram possível que a cópia seja um raro caso de comunicação referencial com sinais aprendidos fora da linguagem humana, mas escrevem que ainda não se sabe se os golfinhos usam sinais aprendidos assim na própria comunicação. [1] Discussion
Contexto: Comunicação referencial: sinal que remete a algo (aqui, outro indivíduo). · Limitações: Hipótese do artigo, sem teste na natureza em 2013. · Hipótese dos autores, não conclusão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em experimento posterior com golfinhos selvagens da Escócia, animais que ouviram uma cópia do próprio assobio-assinatura responderam com o mesmo tipo de assobio, e os autores leram isso como apoio à hipótese de que cópias servem para chamar indivíduos específicos. [2] Results
Contexto: King e Janik (2013), Moray Firth e St. Andrews Bay; 12 playbacks do tratamento de cópia. · Limitações: Os autores não identificaram qual animal do grupo respondeu; amostra pequena de playbacks. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As evidências mais claras de aprendizado vocal em mamíferos vêm de cetáceos, pinípedes (focas e leões-marinhos), elefantes e morcegos, que copiam sons artificiais ou da fala humana ou imitam modelos acústicos. [3] Resumo
Contexto: Revisão de 25 anos de estudos sobre aprendizado vocal em mamíferos (artigo de 2021). · Limitações: A revisão trata de aprendizado vocal em geral; copiar o assobio de outro golfinho é um caso dentro dele. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores veem a raridade da cópia como coerente com o assobio-assinatura ser um sinal de identidade, porque um sistema assim não se sustentaria com taxas altas de cópia. [1] Discussion
Contexto: Raciocínio do artigo de 2013 sobre o sistema de identidade dos golfinhos. · Limitações: Argumento teórico dos autores; não é teste direto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Proceedings of the Royal Society B — Vocal copying of individually distinctive signature whistles in bottlenose dolphins
King, S. L.; Sayigh, L. S.; Wells, R. S.; Fellner, W.; Janik, V. M. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2013.0053 - Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Bottlenose dolphins can use learned vocal labels to address each other
King, S. L.; Janik, V. M. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1304459110 - Philosophical Transactions of the Royal Society B — Vocal production learning in mammals revisited
Janik, V. M.; Knörnschild, M. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2020.0244
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)