Zoologia

Como o golfinho "vê" com som: cliques no nariz, ecos pela mandíbula e testes com animais treinados

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

Golfinhos produzem cliques ultrassônicos ao passar ar pressurizado pelos lábios fônicos, nas vias nasais; o som sai em feixe pelo melão, uma massa de gordura na testa. Os ecos entram pelos tecidos gordurosos da mandíbula, pois não há orelha externa. Em testes com animais treinados, esse sonar permitiu detectar uma esfera de aço de 7,62 cm a mais de 100 m e distinguir objetos pelo material.

Biosonar é o sonar biológico: o animal emite pulsos curtos de som, os cliques, e analisa os ecos que voltam dos objetos. Os cliques de golfinhos são ultrassom, acima do que o ouvido humano capta (cerca de 20 kHz), e muito intensos, porque os ecos de peixes e lulas devolvem só uma fração minúscula da energia emitida. Tudo acontece na cabeça: o som nasce nas vias nasais, é moldado pelo crânio, pelos espaços de ar e pelo melão, e sai como um feixe estreito. O retorno é ouvido sem pavilhão auricular, por tecidos gordurosos da mandíbula inferior. Morcegos fazem algo parecido no ar, com sons emitidos pela boca ou pelo nariz e ecos recebidos pelas orelhas.

O golfinho ouve o próprio clique mais baixo

Numa golfinha treinada, a resposta cerebral aos próprios cliques equivaleu à de sons externos 16 a 36 dB mais fracos que o clique emitido. Os autores sugerem um mecanismo de proteção da audição; foi um só animal.

Onde o clique nasce e o que ainda não se sabe

O clique é produzido quando ar pressurizado passa pelos lábios fônicos, nas vias nasais. Há dois pares, e os pulsos parecem sair em geral do par direito, o maior. O som se acopla ao melão e sai em feixe. Mas as estruturas exatas que vibram não foram identificadas, e não está claro se cada clique tem um comando muscular próprio ou se trens de cliques surgem quando o ar escapa. Em 2018, um estudo com golfinhos treinados registrou um potencial elétrico antes de cada clique, de origem desconhecida.

Como o eco chega ao ouvido sem orelha

Baleias dentadas não têm pavilhão auricular. Segundo uma revisão de 2023, o som entra pelos tecidos gordurosos da mandíbula inferior e de outras regiões da face, e os ouvidos internos são destacados do crânio, o que parece ajudar a localizar a direção. Essa precisão é comparável à dos morcegos. Em uma golfinha treinada, a resposta cerebral ao próprio clique correspondeu à de um som externo bem mais fraco, indício (de um único animal) de que o sistema se protege do feixe que ele mesmo emite.

Como sabemos: animais treinados e alvos escondidos

A base são golfinhos treinados, em piscinas ou áreas cercadas, que recebem peixe por indicar alvos. Para isolar o sonar, bloqueia-se a visão: num experimento de 2021, uma placa de acrílico preta, opaca à luz e transparente ao som, escondia objetos de PVC; hidrofones registravam os cliques. Eletrodos de ventosa na cabeça medem a resposta do cérebro aos cliques. Limites: poucos indivíduos em cativeiro, e os números clássicos de alcance aqui vêm de segunda mão, citados por Wei e colaboradores.

Comparação com morcegos e o caso do boto

Morcegos recebem ecos pelas orelhas, e seu feixe é muito mais aberto que o das baleias dentadas. Como no morcego, o golfinho ajusta o ritmo: o intervalo entre cliques fica maior que o tempo de ida e volta do eco, e perto da presa vêm centenas de cliques por segundo. Insetos escutam morcegos, mas a maioria dos peixes e lulas não responde ao sonar das baleias dentadas. No Brasil, cliques gravados em rios mostram diferenças entre espécies e subespécies de botos, ligadas, segundo os autores, à anatomia da cabeça.

Como sabemos

Mecanismo geral bem estabelecido em fontes abertas lidas na íntegra, mas os números dos testes clássicos vêm de segunda mão e dois resultados vêm de um único animal.

Fontes

  1. Journal of Comparative Physiology A (Programa de Mamíferos Marinhos da Marinha dos EUA e National Marine Mammal Foundation) — Non-auditory, electrophysiological potentials preceding dolphin biosonar click production
    Finneran, J. J.; Mulsow, J.; Jones, R.; Houser, D. S.; Accomando, A. W.; Ridgway, S. H. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1007/s00359-017-1234-0
  2. Journal of Experimental Biology (Universidade Johns Hopkins) — Adaptive echolocation behavior of bats and toothed whales in dynamic soundscapes
    Moss, C. F. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.245450
  3. Scientific Reports (Universidade Curtin, Universidade Nacional de Singapura, Universidade do Havaí) — Possible limitations of dolphin echolocation: a simulation study based on a cross-modal matching experiment
    Wei, C.; Hoffmann-Kuhnt, M.; Au, W. W. L.; Ho, A. Z. H. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-85063-2
  4. PLoS ONE (Instituto de Biologia Marinha do Havaí, Universidade do Havaí) — Hearing sensation levels of emitted biosonar clicks in an echolocating Atlantic bottlenose dolphin
    Li, S.; Nachtigall, P. E.; Breese, M. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0029793
  5. PeerJ (Universidade Federal de Juiz de Fora e Instituto Mamirauá) — The biosonar of the boto: evidence of differences among species of river dolphins (Inia spp.) from the Amazon
    Melo, J. F.; Amorim, T. O. S.; Paschoalini, M. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7717/peerj.11105
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 7; conferência de trechos automatizada)

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