Astronomia
Giordano Bruno: universo infinito, outros mundos e a fogueira de 1600, cujo motivo ainda se discute
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Giordano Bruno, frade dominicano nascido em Nola em 1548, defendeu em livros publicados em Londres, em 1584, que o universo é infinito, que as estrelas são sóis e que existem inúmeros outros mundos. Em 17 de fevereiro de 1600 foi queimado vivo em Roma, no Campo de' Fiori, depois de quase oito anos nas mãos da Inquisição. Por que morreu é assunto controverso: as acusações eram sobretudo teológicas, e os historiadores divergem sobre quanto pesou a cosmologia.
Filippo Bruno nasceu em Nola, perto de Nápoles, em 1548, entrou aos 17 anos no convento dominicano de San Domenico Maggiore, tomou o nome Giordano e foi ordenado padre em 1572. Fugiu do convento em 1576, por conflitos sobre suas ideias, e passou cerca de 14 anos como fugitivo excomungado por Itália, França, Suíça, Inglaterra, Alemanha e Boêmia. Em Londres publicou, em 1584, a Cena de le Ceneri e o De l'infinito, universo e mondi, em diálogos. Para ele, o copernicanismo derrubava o cosmos finito de Aristóteles: não haveria centro, e o espaço seria ocupado por inúmeros sistemas solares como o nosso. De volta a Veneza, foi denunciado em maio de 1592 pelo anfitrião, Giovanni Mocenigo. Roma pediu sua extradição, Veneza aceitou em janeiro de 1593, e o processo se arrastou até 1600.
A lista de oito proposições que se perdeu
Em 14 de janeiro de 1599, a Congregação do Santo Ofício aprovou oito proposições heréticas tiradas dos autos e das obras de Bruno. A lista original está perdida, e as versões que circulam são reconstruções. Dá para saber o que o tribunal examinou, mas não o texto exato do que condenou.
Um cosmos sem centro, por argumento
Bruno partiu de Copérnico, mas foi além: se a Terra gira e se move, a rotação diária das estrelas é aparência, e o cosmos finito de Aristóteles perde a razão de existir. Em seu lugar pôs um universo infinito e homogêneo, com inúmeros sistemas solares como o nosso. A base do raciocínio era filosófica e teológica: segundo Martínez, ele inferia os muitos mundos da onipotência de Deus. Não era astronomia observacional, e o texto aqui não afirma que ele tenha medido ou testado coisa alguma.
O processo: de Veneza a Roma
A denúncia de Mocenigo, em 1592, reunia acusações que hoje soam sobretudo teológicas: negar a Trindade, duvidar da transubstanciação e da virgindade de Maria, defender a eternidade do mundo e a metempsicose. Também aparecia a crença em infinitos mundos. Em Roma o caso durou anos. Em 1597 examinaram-se proposições como o movimento da Terra e a alma da Terra, e em 1599 chegaram as oito proposições. Bruno recusou a retratação e foi sentenciado em janeiro de 1600.
Mártir da ciência? Um mito parcial
A imagem do mártir da ciência é antiga e popular. Frances Yates e Michael Crowe a contestaram: para eles, a ideia de que Bruno foi queimado por defender mundos inúmeros é lenda, e as acusações documentadas eram em grande parte de heresia teológica. Alberto Martínez responde que a pluralidade dos mundos foi a acusação mais repetida. O que as fontes sustentam é que cosmologia e teologia estavam entrelaçadas no tribunal, e que a história não cabe numa só frase.
A estátua no lugar da fogueira
No Campo de' Fiori, onde Bruno morreu, ergue-se uma estátua de bronze de Ettore Ferrari, inaugurada em 1889, no clima político de uma Itália recém-unificada e dividida sobre o papel da Igreja. Segundo o Dizionario Biografico, a obra foi muito combatida por seu significado político. A estátua diz mais sobre quem a ergueu do que sobre Bruno: é um monumento do século XIX a um frade do século XVI.
Como sabemos
Datas e o roteiro do processo confirmam em duas fontes abertas; o peso da cosmologia na condenação é debate real entre historiadores, apresentado como tal.
Em debate: Bruno foi um mártir da ciência? A versão popular, ligada a obras do século XIX, diz que sim. Frances Yates (1964) e Michael Crowe rejeitam a ideia de que ele tenha sido queimado por defender mundos inúmeros e o movimento da Terra, e as acusações documentadas são em grande parte teológicas. Alberto Martínez sustenta o oposto: que a pluralidade dos mundos foi a acusação mais frequente e que o caso é cosmológico. Há pontos firmes dos dois lados: em 1597 a Terra em movimento foi censurada, e os mundos inúmeros eram tratados como heresia por razões teológicas, não astronômicas.
Em debate: Transubstanciação: o Dizionario Biografico a inclui entre as imputações dadas como provadas, enquanto Martínez diz que três testemunhas o acusaram e que Bruno afirmou crer nela. A lista exata das oito proposições de 1599 não sobreviveu.
- Fato estabelecido: Giordano Bruno nasceu em Nola, perto de Nápoles, em janeiro ou fevereiro de 1548, entrou aos cerca de 17 anos no convento dominicano de San Domenico Maggiore, em Nápoles, e tomou o nome Giordano; foi ordenado padre em 1572. [1]
- Fato estabelecido: Bruno fugiu do convento no início de 1576 após conflitos por opiniões heréticas e viveu cerca de 14 anos como fugitivo excomungado por Itália, França, Suíça, Inglaterra, Alemanha e Boêmia, voltando a Veneza em 1591. [1]
- Fato estabelecido: Em 1584, em Londres, Bruno publicou a Cena de le Ceneri, em que argumentou que o copernicanismo refutava o cosmos finito aristotélico e descreveu um universo infinito e homogêneo com inúmeros sistemas solares como o nosso. [1]
- Fato estabelecido: O De l'infinito, universo et mondi, em cinco diálogos e dedicado ao embaixador francês Castelnau, publicado em 1584, defende a infinitude do universo e a pluralidade dos mundos e critica a física aristotélica. [2]
- Fato estabelecido: Bruno sustentava que as estrelas são corpos animados que abrigam vida de vários tipos, inclusive seres racionais. [1]
É a posição de Bruno segundo a Stanford Encyclopedia, não uma conclusão astronômica verificada. - Fato estabelecido: Giovanni Mocenigo denunciou Bruno à Inquisição de Veneza em maio de 1592 (22 de maio, segundo a Stanford Encyclopedia; a terceira denúncia, de 29 de maio, reunia as principais acusações segundo o Dizionario Biografico). Roma pediu a extradição em setembro de 1592, e Veneza aceitou em janeiro de 1593. [1] [2]
- Fato estabelecido: As denúncias contra Bruno incluíam negar a Trindade, ter opiniões blasfemas sobre Cristo, negar a transubstanciação, sustentar a eternidade do mundo e a existência de infinitos mundos, acreditar na metempsicose e negar a virgindade de Maria. [2]
São acusações feitas por denunciantes, não condenações; o próprio Bruno disse acreditar na transubstanciação segundo Martínez (f3). - Fato estabelecido: Em 1597 a Congregação passou a examinar proposições de Bruno como o movimento da Terra, a alma universal e a alma da Terra. [2] [3]
- Fato estabelecido: Em 14 de janeiro de 1599 a Congregação do Santo Ofício aprovou uma lista de oito proposições heréticas; a lista está perdida. Em 21 de dezembro de 1599 Bruno disse que não precisava nem queria se retratar. [1]
- Fato estabelecido: Em 20 de janeiro de 1600 Bruno foi declarado herege impenitente e pertinaz, suas obras foram postas no Índice e ele foi entregue ao braço secular; a sentença foi lida em 8 de fevereiro. [1] [2]
- Fato estabelecido: Em 17 de fevereiro de 1600, ao amanhecer, Bruno foi levado ao Campo de' Fiori, em Roma, com uma peça de metal presa sobre a língua, e queimado vivo. [1]
- Evidência forte: Entre as imputações dadas como provadas na sentença estavam a pluralidade dos mundos, a eternidade do mundo, a metempsicose, a transubstanciação e a virgindade de Maria. [2]
Resumo do Dizionario Biografico degli Italiani; o texto integral da sentença não foi consultado. - Em debate: Segundo Alberto Martínez, a crença em muitos mundos foi a acusação mais recorrente: seis testemunhas a mencionaram 13 vezes em 10 depoimentos, e o Corpus do direito canônico de 1582 e 1591 listava a opinião sobre inúmeros mundos como heresia. [3]
Tese de um historiador, contestada por Frances Yates e Michael Crowe, que chamaram de lenda ou mito a ideia de que Bruno morreu por defender mundos inúmeros. - Em debate: Martínez argumenta que cosmologia, e não teologia, levou Bruno à morte, e liga o caso aos processos de Galileu em 1616 e 1633, com alguns inquisidores em comum. [4]
Posição do autor, descrita pela editora; não é consenso. - Fato estabelecido: O monumento a Bruno no Campo de' Fiori é obra de Ettore Ferrari, escultor ligado a posições laicas, e foi muito combatido por seu significado político. [5]
Fontes
- Stanford Encyclopedia of Philosophy — Giordano Bruno
consultada em 11/10/2026 - Istituto della Enciclopedia Italiana (Treccani) — Bruno, Giordano (Dizionario Biografico degli Italiani)
consultada em 11/10/2026 - Scientific American (blog Observations), por Alberto A. Martínez — Was Giordano Bruno Burned at the Stake for Believing in Exoplanets?
consultada em 11/10/2026 - University of Chicago Press (Alberto A. Martínez) — Burned Alive: Bruno, Galileo and the Inquisition
consultada em 11/10/2026 - Istituto della Enciclopedia Italiana (Treccani) — Ferrari, Ettore (Dizionario Biografico degli Italiani)
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão