Ciências da Terra

Geoneutrinos: como antineutrinos vindos do interior da Terra ajudam a medir o calor da radioatividade

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Urânio e tório no interior da Terra emitem antineutrinos ao decair, e detectores subterrâneos como o KamLAND (Japão) e o Borexino (Itália) captam alguns deles. A contagem indica quanto desses elementos existe sob nossos pés e, portanto, quanto calor eles geram. Os resultados atuais ainda divergem: cerca de 15 TW no KamLAND e cerca de 38 TW no Borexino, de um fluxo de calor de superfície de cerca de 47 TW, ambos com incerteza grande.

Antineutrinos são partículas sem carga elétrica que quase não interagem com a matéria: atravessam a Terra inteira sem desvio apreciável. Urânio-238, tório-232 e potássio-40 são isótopos radioativos presentes nas rochas; ao decair, liberam calor e, por decaimento beta, emitem antineutrinos. O calor que sai pela superfície do planeta soma cerca de 47 TW (terawatts, 10^12 watts). Parte vem do decaimento radioativo (calor radiogênico) e parte é calor guardado desde a formação da Terra (primordial). Como os antineutrinos escapam do interior, contá-los é uma medida direta da quantidade de urânio e tório lá dentro, enquanto as estimativas da geofísica e da geoquímica são indiretas e têm incertezas grandes.

Um acidente que ajudou a medida

O KamLAND foi feito para estudar antineutrinos de reatores, que também são o maior ruído para os geoneutrinos. Depois do acidente de Fukushima-I, em 2011, os reatores japoneses ficaram parados por longo tempo e o fundo de ruído caiu.

De onde vem um geoneutrino

Urânio-238, urânio-235, tório-232 e potássio-40 decaem em cadeias de passos, e muitos passos são decaimentos beta, que emitem um antineutrino de elétron. Esse antineutrino deixa a rocha sem interagir e escapa do planeta, levando parte da energia. O restante vira calor nas rochas. Os modelos de composição da Terra estimam cerca de 8 TW do urânio-238 e 8 TW do tório-232, além de 4 TW do potássio-40, perto de metade do fluxo de superfície de 47 TW.

Contar eventos raros num tanque no subsolo

Um antineutrino quase nunca reage, então os detectores usam centenas de toneladas de líquido e esperam anos. O KamLAND tem 1 quilotonelada de líquido sob cerca de 2.700 m de água equivalente; o Borexino, 280 toneladas, no Gran Sasso. A reação com o hidrogênio dá dois sinais ligados no tempo, e essa coincidência separa os candidatos do ruído. Mesmo assim, o resultado é uma contagem de dezenas a poucas centenas de eventos em cerca de uma década ou mais.

Da contagem ao calor: o passo que depende de modelo

O detector soma geoneutrinos de toda a Terra, e os da crosta próxima pesam muito. Para chegar ao manto, é preciso subtrair a crosta, estimada por geologia e geoquímica. Depois, converte-se o sinal em calor supondo uma distribuição de urânio e tório: uniforme ou concentrada acima do núcleo. Os dois extremos mudam a conversão. Por isso a incerteza do calor radiogênico é bem maior que a da contagem de eventos.

O que já se sabe e o que falta

O KamLAND estimou cerca de 14,6 TW e o Borexino, cerca de 38 TW de calor radiogênico total, com margens grandes. Os dois excluem os extremos: o KamLAND descarta a Terra totalmente radiogênica a 5,2 sigma, supondo manto homogêneo, e o Borexino limita um georreator. Falta convergir entre os experimentos. O KamLAND sugere detectores em locais oceânicos, onde a crosta é fina, e novas técnicas para enxergar o potássio-40.

Como sabemos

O método e os resultados dos dois experimentos estão em artigos de pesquisa lidos, mas o valor do calor radiogênico depende de modelos e ainda tem incerteza grande.

Em debate: Quanto do calor da Terra é radiogênico segue em debate: o KamLAND (2022) favorece valores baixos a médios e o Borexino (2020) favorece os mais altos, ambos com incertezas grandes. Os modelos de composição (Low-Q, Middle-Q, High-Q) também divergem entre si, e o resultado depende do modelo da crosta local.

Fontes

  1. Geophysical Research Letters (preprint arXiv 2205.14934) — Abundances of uranium and thorium elements in Earth estimated by geoneutrino spectroscopy
    Abe, S. et al. (KamLAND Collaboration) · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1029/2022GL099566
  2. Physical Review D 101, 012009 (preprint arXiv 1909.02257) — Comprehensive geoneutrino analysis with Borexino
    Agostini, M. et al. (Borexino Collaboration) · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevD.101.012009
  3. Reviews of Geophysics (preprint arXiv 1111.6099) — Geoneutrinos and the radioactive power of the Earth
    Dye, S. T. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1029/2012RG000400
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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