Antropologia

Genomas de Lagoa Santa: ancestrais nativo-americanos, substituição posterior e sinal australasiano em debate

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Genética

Genomas de Lapa do Santo, em Lagoa Santa (MG), de cerca de 9.600 anos, têm a mesma origem ampla dos demais nativo-americanos, mesmo com crânio “paleoamericano”. Grupos como esse foram depois em grande parte substituídos. Um sinal australasiano, ligado à “população Y”, aparece em povos amazônicos atuais, mas não foi detectado em genomas antigos sul-americanos.

Lagoa Santa, em Minas Gerais, tem esqueletos do Holoceno inicial datados diretamente, por isso é referência na discussão sobre os primeiros americanos. Alguns têm morfologia de crânio chamada “paleoamericana”, lida por alguns autores como sinal de uma população fundadora distinta, aparentada de australianos e melanésios (australasianos). A genômica testa isso comparando alelos, as variantes de um mesmo ponto do DNA: as estatísticas f medem quanto dois grupos compartilham alelos, e o qpWave estima quantas fontes de ancestralidade explicam um conjunto de grupos. Raghavan (2015), Moreno-Mayar (2018) e Posth (2018) usam essas ferramentas. Este texto não repete a cronologia do povoamento, tratada em outro post.

Crânio diferente, genoma da mesma raiz

Em Lapa do Santo, indivíduos de cerca de 9.600 anos com crânio de morfologia “paleoamericana” têm genoma compatível com a mesma população ancestral dos demais nativo-americanos. A forma do crânio, sozinha, não revelou uma origem à parte.

O que Lapa do Santo mostra

O estudo de Posth et al. (2018) incluiu indivíduos de Lapa do Santo, de cerca de 9.600 anos, e de Laranjal, de cerca de 6.700. Nenhum dos dois grupos mostra ancestralidade compartilhada distintiva com brasileiros atuais; a continuidade com povos indígenas de hoje, no Brasil, só aparece a partir de um indivíduo de Moraes, de cerca de 5.800 anos. Os indivíduos de Lapa do Santo, com crânio “paleoamericano”, são compatíveis com a mesma população ancestral dos outros nativo-americanos.

Como sabemos: dos ossos às estatísticas

O sítio tem cronologia de 21 datações por luminescência e 73 por radiocarbono. O DNA foi aceito só com sinais de autenticidade, como trocas de citosina por timina nas pontas dos fragmentos e contaminação mitocondrial abaixo de 5%. Depois, estatísticas f medem o compartilhamento de alelos e o qpWave conta fontes de ancestralidade. O limite: o poder de apontar uma terceira fonte depende de Anzick-1 e das ilhas da Califórnia como grupos de referência.

Clovis, Anzick-1 e a substituição

Os mais antigos genomas de Chile, Brasil e Belize têm afinidade especial com Anzick-1, de Montana, associado à cultura Clovis. Mas a maior parte da ancestralidade sul-americana posterior vem de linhagens sem essa afinidade, o que levou os autores a propor uma substituição de população iniciada há pelo menos 9.000 anos. É interpretação dos autores, baseada em modelos; ela correlaciona com estudos de morfologia que também indicam uma troca de população no Brasil.

O sinal australasiano e a população Y

Raghavan (2015) viu afinidade com australo-melanésios em alguns nativo-americanos, mais forte nos Suruí, e a tratou como fluxo gênico posterior ao povoamento inicial, com ressalvas. Moreno-Mayar (2018) relata indícios de um sinal australasiano em uma das migrações. Posth (2018) replicou o sinal em Karitiana e Suruí atuais, mas não nos sul-americanos antigos, e pede mais genomas antigos. A questão segue aberta.

Como sabemos

Posth (2018) e Raghavan (2015) foram lidos no texto, mas Moreno-Mayar (2018) só no resumo, e o debate sobre a população Y segue aberto.

Em debate: Raghavan (2015) e Skoglund (2015, citado por Posth) o encontraram em povos amazônicos atuais; Moreno-Mayar (2018) relata indícios de um sinal australasiano em uma das migrações; Posth (2018) não o detectou em nenhum sul-americano antigo analisado e aponta que isso aumenta a chance de falso positivo, sem a descartar.

Fontes

  1. Cell — Reconstructing the Deep Population History of Central and South America
    Posth, C.; Nakatsuka, N.; Lazaridis, I.; Skoglund, P.; Mallick, S.; Lamnidis, T. C.; Rohland, N.; et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cell.2018.10.027
  2. Science — Genomic evidence for the Pleistocene and recent population history of Native Americans
    Raghavan, M.; Steinrücken, M.; Harris, K.; Schiffels, S.; Rasmussen, S.; et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.aab3884
  3. Science — Early human dispersals within the Americas
    Moreno-Mayar, J. V.; Vinner, L.; de Barros Damgaard, P.; et al. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.aav2621
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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