Física

Por que o gelo é escorregadio: a pressão sozinha não explica, e a origem da camada de água ainda é debatida

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

O gelo escorrega porque sua superfície tem uma camada fina de moléculas com mobilidade de líquido, que lubrifica o contato. A explicação escolar, a pressão do patim derretendo o gelo, não funciona bem abaixo de −3,5 °C, embora se patine a −30 °C. Hoje se discute quanto vem do pré-derretimento descrito por Faraday em 1850, quanto do calor do atrito e se a desordem do cristal pelo deslizamento também conta.

Pré-derretimento é a formação, abaixo de 0 °C, de uma camada de moléculas desordenadas na superfície do gelo, às vezes chamada de camada quase líquida. A superfície é instável porque suas moléculas têm menos vizinhas para se ligar. Líquidos escorregam porque suas moléculas se movem; por isso a pergunta sobre o gelo se reduz a como surge essa camada e quão espessa ela é em cada temperatura. Pressão e atrito são as duas outras causas propostas: a pressão baixa o ponto de fusão, e o atrito gera calor. Cada uma pesa de modo diferente conforme a temperatura, a velocidade e o material que desliza sobre o gelo.

Faraday ficou de lado por quase um século

Faraday descreveu em 1850 a camada de água sobre o gelo, mas o argumento de James Thomson, que atribuía tudo à pressão, prevaleceu. Só em 1949 um cientista moderno, C. Gurney, voltou a propor que um filme líquido da própria superfície ajuda a explicar a escorregadia.

A pressão: a explicação que ficou famosa e falha no frio

Em 1886 Joly calculou que a lâmina concentra cerca de 466 atmosferas e derrete o gelo a −3,5 °C. Mas se patina e esquia bem abaixo disso, até −30 °C, e cálculos de Bowden e Hughes mostram que o peso de um esquiador é pequeno demais para mudar o ponto de fusão de modo relevante. A pressão pode contar perto de 0 °C; como explicação única, não se sustenta.

O atrito: o experimento de 1939 e a objeção

Bowden e Hughes mediram atrito numa caverna de gelo em Jungfraujoch (Suíça). O metal, que conduz melhor o calor, deslizou com mais atrito que a madeira, o que indicava derretimento por calor do atrito. A objeção é que o gelo já escorrega parado e que o calor derrete o gelo atrás do patim, não à frente. Um experimento do grupo de Bonn não achou dependência da velocidade.

Como sabemos que a superfície do gelo é diferente por dentro

Faraday mostrou que dois blocos de gelo se soldam ao se tocar. Depois vieram medições: microscopia de força atômica indicou camada de até 12 nm a −24 °C e 70 nm a −0,7 °C; espectroscopia e simulação, desordem na primeira camada a cerca de −90 °C. Os métodos divergem, porque impurezas e condições mudam o resultado, e comparar os valores exige cuidado.

O que ainda se discute

Simulações de 2022 sugerem que pré-derretimento, pressão e atrito atuam juntos. Em 2025, um grupo alemão propôs que o deslizamento desorganiza o cristal sem derreter; outro físico acha que isso vale só para velocidades altas. Uma pré-publicação de 2026 volta a dar peso ao atrito, sem fusão. Parte do desacordo é de vocabulário, e os experimentos de laboratório ainda não separam as hipóteses.

Como sabemos

A história e as medições estão em fontes lidas, mas o mecanismo dominante segue em debate e parte do estado atual vem de simulações e de uma pré-publicação lida só no resumo.

Em debate: Pressão, atrito, pré-derretimento e amorfização mecânica são propostos; simulações indicam combinação, e há desacordo sobre o peso de cada um e sobre a própria necessidade de água.

Fontes

  1. Physics Today (AIP Publishing) — Why Is Ice Slippery?
    Rosenberg, R. · 2005-12-01 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1063/1.2169444
  2. Quanta Magazine (Simons Foundation) — Why Is Ice Slippery? A New Hypothesis Slides Into the Chat.
    Rowińska, P. · 2025-12-08 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Ice friction at the nanoscale
    Baran, Ł.; Llombart, P.; Rżysko, W.; MacDowell, L. G. · 2022-11-28 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2209545119
  4. Saarland University / Physical Review Letters 135, 066204 (versão no arXiv 2402.10843) — Cold self-lubrication of sliding ice
    Atila, A.; Sukhomlinov, S. V.; Müser, M. H. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1103/1plj-7p4z
  5. Accounts of Chemical Research — The Surface of Ice under Equilibrium and Nonequilibrium Conditions
    Nagata, Y.; Hama, T.; Backus, E. H. G.; Mezger, M.; Bonn, D.; Bonn, M.; Sazaki, G. · 2019-03-29 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1021/acs.accounts.8b00615
  6. arXiv (cond-mat.mtrl-sci), pré-publicação, v4 de 7 out 2026 — Why ice is so slippery
    Bore, S. L.; Persson, B. N. J.; Sveinsson, H. A. · 2026-03-12 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.48550/arXiv.2603.11539
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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