Fenômenos naturais

Geada: por que o gelo se forma mesmo com o termômetro do abrigo acima de zero

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Geada é gelo depositado em superfícies expostas ao ar livre, e quem precisa chegar a 0 °C é a superfície, não o ar medido no abrigo meteorológico, a cerca de 1,6 m do solo. Em noites de céu limpo e vento fraco, a relva perde calor por radiação e fica mais fria que o ar acima. Em estações do Paraná, a diferença média em noites de geada foi de 5 °C.

O abrigo meteorológico é a caixa ventilada onde fica o termômetro oficial, a cerca de 1,5 a 1,6 m do solo, protegida do sol e da chuva. A relva, as folhas e os telhados, porém, trocam calor por radiação diretamente com o céu, e o céu é muito mais frio que o chão. Sem nuvens, essa perda não é compensada, e a superfície esfria mais depressa que o ar. Daí a inversão térmica: o ar mais frio fica rente ao solo, e o abrigo mede uma camada ainda menos fria. A umidade decide se o gelo aparece: o ponto de orvalho é a temperatura em que o ar, ao esfriar, atinge 100% de umidade relativa.

A queda mais forte vem logo depois do pôr do sol

Num pomar de nogueiras da Califórnia descrito num livro da FAO, a temperatura caiu cerca de 10 °C na primeira hora depois que o saldo de radiação ficou negativo. Foi um caso ilustrativo, não uma média.

Duas temperaturas na mesma noite

O termômetro oficial mede o ar no abrigo; a geada depende da superfície. Num estudo com 19 estações do Instituto Agronômico do Paraná, o abrigo ficava a 1,60 m e o sensor de relva a 0,05 m. Nas noites com a relva abaixo de 0 °C, a diferença média entre os dois foi de 5 °C no estado, com médias regionais de 4,2 a 6,3 °C. Os autores alertam que o resultado é empírico: as equações valem para as regiões em que foram ajustadas.

Geada branca e geada negra

O livro da FAO separa a geada de radiação em duas. Na branca, o vapor de água se deposita na superfície e forma a camada de gelo que se vê. Na negra, a temperatura cai abaixo de 0 °C e não se forma gelo visível. Com ar seco, a superfície pode não chegar ao ponto em que o gelo se deposita. Como o depósito libera calor, a geada branca costuma causar menos dano que a negra. Os nomes em português são a tradução usual dos termos em inglês.

Como sabemos: medir a altura do frio

Para ver até onde o frio chega, a Embrapa Trigo instalou numa lavoura de 43 ha uma torre com sensores a 50, 100, 200 e 400 cm. Em três noites seguidas de setembro de 2015, o ar ficou abaixo de zero só a 50 cm; na altura das espigas, as mínimas foram positivas. Limite do método: é um local, uma sequência de noites, e em alguns momentos de 13/09 o ar também ficou negativo a 100 cm. Não dá para estender o resultado a toda lavoura.

O que o gelo faz com a planta

Segundo a FAO, o que lesa a planta não é o frio em si, mas o gelo que se forma dentro dos tecidos e machuca as células. Por isso, uma noite com a relva a 0 °C pode ferir folhas rentes ao chão mesmo com o abrigo marcando valor positivo. Para o trigo, pesquisadores da Embrapa relatam que os danos começam com o ar do abrigo abaixo de 3 °C, regra prática que depende da espécie e da fase da planta.

Como sabemos

Mecanismo e números vêm de um livro da FAO, de um artigo do IAPAR e de um estudo da Embrapa, todos lidos; a regra de 3 a 6 °C chega por segunda mão.

Fontes

  1. FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) — Frost protection: fundamentals, practice, and economics, Volume 1 (Chapter 1: Introduction)
    Snyder, R. L.; de Melo-Abreu, J. P. · 2005 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Semina: Ciências Agrárias (Universidade Estadual de Londrina) — Minimum temperature differences between the meteorological screen and grass in radiative frost nights
    Vieira Junior, N. A.; Caramori, P. H.; Silva, M. A. A.; Nitsche, P. R. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5433/1679-0359.2018v39n6p2337
  3. Embrapa Trigo (Congresso Brasileiro de Agrometeorologia) — Temperatura mínima do ar em trigo – estudo de caso em noites de geada
    Dalmago, G. A.; Cunha, G. R.; Fernandes, J. M. C.; Vargas, P. R.; Santi, A. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) — Frost protection: fundamentals, practice, and economics, Volume 1 (Chapter 4: Frost damage: physiology and critical temperatures)
    Snyder, R. L.; de Melo-Abreu, J. P. · 2005 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

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