Zoologia

O gene do receptor de doce dos gatos, o Tas1r2, está desativado; outros carnívoros também o perderam

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Nos gatos, o gene Tas1r2, que forma metade do receptor de doce, está desativado por uma deleção de 247 pares de bases e por códons de parada. Sem ele, o receptor provavelmente não se forma, o que explica a indiferença ao açúcar. Tigre e guepardo analisados têm a mesma falha, e hiena, leão-marinho e outros carnívoros perderam o gene por mutações diferentes. A ligação com a dieta só de carne é a explicação proposta, não uma medição.

Sabores são detectados por receptores nas papilas gustativas. O de doce é uma dupla de proteínas, T1R2 e T1R3, codificadas pelos genes Tas1r2 e Tas1r3; o de umami (sabor de aminoácidos) usa T1R1 com a mesma T1R3. Um pseudogene é um gene que acumulou mutações e não produz a proteína. O gato doméstico é carnívoro obrigatório, e seu paladar é normal para salgado, azedo, amargo e aminoácidos, mas ele ignora soluções açucaradas. Em 2005, Li e colegas mostraram que o Tas1r2 do gato é um pseudogene. Em 2012, Jiang e colegas sequenciaram o gene em 12 espécies de Carnivora para ver se a perda se repete em quem só come carne.

Mais de 70 iniciadores, nenhum sinal

Para achar a mensagem do Tas1r2 na língua do gato, a equipe de 2005 usou mais de 70 iniciadores de PCR cobrindo os éxons 1 a 6 e não detectou nada, enquanto o gene vizinho Tas1r3 apareceu sem dificuldade.

Como sabemos: três tipos de evidência

Primeiro veio o comportamento: gatos ignoram soluções de açúcar e de adoçantes. Depois, registros dos nervos gustativos, sem resposta à sacarose. Em 2005, o DNA: o Tas1r2 do gato tem uma deleção de 247 pares de bases e paradas prematuras, não gera mRNA nem proteína nas papilas e aparece igual em seis outros gatos, num tigre e num guepardo. Cada método sozinho deixaria dúvida; juntos, apontam na mesma direção.

Uma perda repetida: convergência entre carnívoros

Em 2012, o grupo sequenciou o Tas1r2 de 12 carnívoros. Sete espécies não felinas, entre elas hiena-malhada, fossa, leão-marinho e lontra-de-garras-pequenas, têm o gene quebrado, cada uma por mutações próprias. A seleção que mantém o gene íntegro está relaxada nessas linhagens. O padrão é de perdas independentes, e o que as espécies têm em comum é comer só carne ou peixe.

O limite da explicação pela dieta

A ideia é que, sem açúcares na dieta, um receptor de doce deixou de ser útil e as mutações se acumularam. Mas é uma inferência por comparação entre espécies. Os autores não sabem se a perda veio antes ou depois da dieta carnívora, e a amostra por espécie é pequena. Há exceções: o cão, que come de tudo, mantém o gene íntegro e gosta de açúcar.

O que a perda não quer dizer

Perder o receptor de doce não deixa o gato sem paladar: os outros sabores seguem normais, e o umami parece pesar muito na escolha de alimento. O estudo trata de percepção de sabor, não de nutrição, e nada aqui orienta o que um gato deve comer. Também não se concluiu nada sobre como o gato digere ou usa açúcares.

Como sabemos

A base são dois artigos de acesso aberto de um mesmo grupo e uma revisão de 2025; o ponto firme é o pseudogene, e a ligação com a dieta é hipótese.

Fontes

  1. PLoS Genetics — Pseudogenization of a Sweet-Receptor Gene Accounts for Cats' Indifference toward Sugar
    Li, X. et al. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pgen.0010003
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Major taste loss in carnivorous mammals
    Jiang, P. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1118360109
  3. Chemical Senses (Monell Chemical Senses Center) — Taste receptors and their ecological niches: cats, dogs, and other vertebrates
    Jiang, P.; Beauchamp, G. K. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1093/chemse/bjaf052
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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