Zoologia
Por que o gato quase sempre cai de pé? Em 1894, fotos de Marey mostraram que ele gira no ar sem apoio
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Em 1894, o fisiologista francês Étienne-Jules Marey fotografou um gato em queda a 12 quadros por segundo. As imagens mostraram que o animal não girava no início da queda e que não usava a mão de quem o soltava como apoio: ele se virava sozinho, no ar. Só em 1969 Thomas Kane e M. Scher descreveram o movimento com um modelo mecânico de dois corpos que se dobram para a frente e para trás.
O enigma parecia contradizer a física: sem nada em que se apoiar, como um corpo sem rotação inicial vira de costas para de frente? Marey mostrou, com cronofotografia, que o gato não girava ao ser solto e, portanto, adquiria a rotação durante a queda. Segundo o resumo publicado na Nature em 1894, o gato usa a inércia da própria massa: a parte da frente, com as patas dianteiras recolhidas, vira com facilidade, e a de trás, com as patas estendidas, resiste e gira pouco; depois as fases se invertem. O corpo não é rígido, e é isso que torna a manobra possível. Em 1969, Kane e Scher, de Stanford, apresentaram um sistema mecânico de dois corpos que simula os movimentos de flexão para trás e para a frente do gato. Em 2026, um estudo da Universidade de Yamaguchi, no Japão, mediu a coluna de gatos e achou a região torácica mais flexível à torção que a lombar.
Gato lançado por um físico
James Clerk Maxwell contou à esposa que havia uma tradição no Trinity College de que ele descobrira um modo de jogar um gato para que não caísse de pé. George Stokes também se interessava por esse "virar de gato".
O que Marey viu
Marey usou uma câmera cronofotográfica que registrava 12 quadros por segundo. A sequência mostrou que o gato, solto de costas, não tinha rotação no início e se endireitou durante a queda. Isso eliminou a hipótese de que ele empurrasse a mão de quem o soltava. O Science Museum Group guarda um filme dessa série, "Chat chute", com 36 quadros em filme de 85 mm.
Por que parecia impossível
Sem apoio externo, o momento angular total de um corpo não muda. Se o gato não gira ao ser solto, ele continua com momento angular total nulo e, mesmo assim, vira. A saída está em o corpo não ser rígido: partes dele giram em sentidos opostos, de modo que a soma é zero, e o resultado é um corpo reorientado. Marey explicou o movimento pela inércia da própria massa do gato.
O modelo de Kane e Scher
Em 1969, T. R. Kane e M. P. Scher publicaram um sistema mecânico de dois corpos que obedece às leis da dinâmica e simula os movimentos de flexão do gato para trás e para a frente. É assim que o registro da NASA o descreve. O modelo mostra que a reorientação não exige nenhuma força externa, só a forma como as duas metades se movem.
A coluna em 2026
Higurashi e colegas, da Universidade de Yamaguchi, torceram colunas de cinco gatos doados e filmaram quedas. A região torácica mostrou mais flexibilidade à torção que a lombar, mais rígida. Os autores a relacionam ao giro em sequência: primeiro a frente, depois a parte de trás. O estudo ajuda a ajustar modelos, mas não encerra o problema.
Como sabemos
Os fatos históricos de Marey e Kane e Scher estão em fontes abertas; o artigo de 1969, o de 2026 e o debate na Academia não foram lidos na íntegra.
- Fato estabelecido: Marey fotografou a queda de um gato por cronofotografia, a 12 quadros por segundo, em 1894. [1]
- Fato estabelecido: As fotos mostraram que o gato não tinha rotação no início da queda e, portanto, adquiria momento angular durante a queda livre; isso descartou a ideia de que ele se apoiasse na mão de quem o soltava. [1]
- Fato estabelecido: O resumo publicado na Nature em 1894 atribuiu a manobra à inércia da própria massa do gato: patas dianteiras recolhidas (pouco momento de inércia) e patas traseiras estendidas, em fases opostas. [1]
É a interpretação de Marey, não o modelo moderno. - Consenso científico: Como o gato não girava ao ser solto, o momento angular total do corpo era nulo durante a queda, e a rotação resulta de partes do corpo girando em sentidos opostos. [1] [2]
Inferência a partir da ausência de rotação inicial (f1) e do modelo de dois corpos (f2); o enunciado formal não foi lido no artigo original. - Fato estabelecido: Kane e Scher publicaram em 1969 o artigo "A dynamical explanation of the falling cat phenomenon", que descreve um sistema mecânico de dois corpos obedecendo às leis da dinâmica e simulando movimentos de flexão para trás e para a frente do gato. [2]
- Consenso científico: O artigo de Kane e Scher é apontado como a solução do enigma, mais de 70 anos depois de Marey. [1]
- Fato estabelecido: Maxwell escreveu à esposa sobre uma tradição no Trinity College de que ele teria descoberto um modo de jogar um gato para que não caísse de pé; Stokes também se interessou pelo "cat-turning". [1]
- Fato estabelecido: Um filme cronofotográfico "Chat chute" de Marey, com 36 quadros em filme de 85 mm, datado de 1890 a 1894, está no acervo do Science Museum Group. [5]
- Evidência forte: Estudo de Higurashi e colegas (Universidade de Yamaguchi), publicado na The Anatomical Record em 24/02/2026, concluiu que a coluna torácica do gato tem torção mais flexível que a lombar. [3] [4]
Baseado em torção de colunas de cinco gatos doados e filmagem de quedas; li o comunicado da universidade e uma reportagem, não o artigo. - Interpretação: Segundo a reportagem sobre o estudo de 2026, a metade da frente gira primeiro e a de trás depois, com a lombar mais rígida servindo de ancoragem. [4]
Interpretação dos autores, descrita por reportagem; não é solução definitiva do problema.
Fontes
- The Public Domain Review — Photographs of a Falling Cat (1894)
consultada em 11/10/2026 - NASA Technical Reports Server — A dynamical explanation of the falling cat phenomenon (Kane e Scher, 1969)
consultada em 11/10/2026 - Universidade de Yamaguchi — Torsional flexibility of the thoracic spine is superior to that of the lumbar spine in cats (comunicado)
consultada em 11/10/2026 - Futura Sciences — Pourquoi les chats retombent sur leurs pattes : une étude éclaire enfin ce mécanisme
consultada em 11/10/2026 - Science Museum Group — Chronophotographic Films made by Étienne Jules Marey
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão