Zoologia
Por que há gambás e catitas no Brasil e cangurus na Austrália? Fósseis na Antártida ajudam a responder
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Gambás, cuícas e catitas do Brasil e os cangurus da Austrália são marsupiais, e a genética indica que todos os marsupiais australianos descendem de um grupo vindo da América do Sul. A rota mais provável passa pela Antártida: na Ilha Seymour há fósseis de marsupiais de cerca de 40 milhões de anos. A direção exata da viagem, porém, ainda é debatida.
A linhagem que leva aos marsupiais, os metatérios, aparece no Cretáceo Inferior da Ásia e era ampla na Laurásia (Ásia, Europa e América do Norte). Os marsupiais atuais, porém, formam um grupo menor e mais recente, e hoje se discute se sua origem foi no sul. Retroposons (trechos de DNA que se inserem no genoma) indicam que os australianos têm um único ancestral sul-americano. América do Sul, Antártida e Austrália estiveram unidas por terra até o Eoceno. Fósseis na Antártida e na Austrália mostram marsupiais nessa rota, mas a ordem das chegadas ainda gera discussão. O Brasil tem hoje cerca de 69 espécies, entre gambás, cuícas e catitas.
Um parente dos cangurus no Chile e na Argentina
O monito-del-monte (Dromiciops gliroides) vive nas florestas frias do sul do Chile e da Argentina. Pesa de 16 a 42 g e é o único membro vivo de sua ordem. Estudos moleculares o colocam mais perto dos marsupiais australianos do que dos gambás.
O que veio do norte e o que não veio
Os metatérios, a linhagem que leva aos marsupiais, aparecem no Cretáceo Inferior da Ásia e se espalharam pela Laurásia. Isso não significa que os marsupiais atuais tenham nascido lá. O grupo-coroa, que inclui gambás e cangurus, é mais jovem e, para alguns autores, pode ter surgido no sul de Gondwana. A ideia de que os marsupiais surgiram no norte vale para a linhagem, não necessariamente para os atuais.
A ponte de Gondwana
Até o Eoceno, América do Sul, Antártida e Austrália estavam ligadas por terra ou por águas rasas. A abertura profunda da Passagem da Tasmânia, entre a Austrália e a Antártida, é datada em cerca de 33,5 milhões de anos. Os marsupiais mais antigos da Austrália têm ao menos 54,6 milhões, ou seja, a travessia ocorreu quando a ligação ainda existia. Na Antártida, o fóssil de 1982 mostrou que esse corredor realmente abrigou marsupiais.
O vizinho no Brasil: gambás, cuícas e catitas
O Brasil tem cerca de 69 espécies de marsupiais, todas da família Didelphidae, que reúne gambás (Didelphis), cuícas e catitas. Os nomes populares se sobrepõem e variam por região, então o nome científico é o guia mais seguro. Em Itaboraí (RJ), há uma fauna de 53 a 50 milhões de anos com marsupialiformes extintos. Eles mostram que a América do Sul já abrigava esses parentes dos marsupiais na época em que a Austrália recebeu os seus.
Uma conta ainda aberta
O estudo genético de 2010 conclui por uma única migração da América do Sul para a Austrália. Já o fóssil Djarthia levou parte dos pesquisadores a considerar que o grupo australidelfio pode ter surgido no leste de Gondwana, e que o monito-del-monte teria voltado para a América do Sul. Falta registro fóssil sul-americano do início do Paleógeno para decidir.
Como sabemos
O quadro geral (metatérios no norte, marsupiais atuais ligados a Gondwana, fósseis na Antártida) é bem apoiado, mas a direção e o número das dispersões seguem debatidos.
Em debate: A visão clássica diz que os marsupiais australianos descendem de ancestrais sul-americanos que cruzaram a Antártida, e a genética sustenta uma única migração nesse sentido. O fóssil Djarthia, de pelo menos 54,6 milhões de anos, leva Beck e colegas a considerar que o grupo australidelfio pode ter surgido no leste de Gondwana e que os microbiotérios sul-americanos seriam uma dispersão de volta. O registro fóssil do início do Paleógeno na América do Sul é pouco amostrado, e a questão segue aberta.
- Evidência forte: Os primeiros metatérios inequívocos (linhagem que leva aos marsupiais) vêm do Cretáceo Inferior da Ásia, e durante o Cretáceo eles eram amplamente distribuídos na Laurásia. [4]
- Estimativa: Os marsupiais atuais (grupo-coroa) teriam surgido no fim do Cretáceo, entre cerca de 64 e 84 milhões de anos atrás, segundo relógios moleculares. [4]
Estimativa de dos Reis et al. (2012) citada por Williamson et al.; outros estudos dão intervalos mais largos. - Evidência forte: Retroposons indicam que todos os marsupiais australianos descendem de um único grupo que migrou da América do Sul para a Austrália. [1]
- Consenso científico: O monito-del-monte, único representante vivo da ordem Microbiotheria, é o grupo-irmão dos marsupiais australianos nos estudos moleculares. [1] [6]
- Fato estabelecido: O monito-del-monte vive em florestas temperadas da Patagônia norte, no Chile e na Argentina, e pesa de 16 a 42 g. [6]
- Fato estabelecido: Em 1982, Woodburne e Zinsmeister descreveram um marsupial da família Polydolopidae em rochas de cerca de 40 milhões de anos na Ilha Seymour, o primeiro mamífero terrestre fóssil da Antártida. [3]
- Fato estabelecido: Na Ilha Seymour também há fósseis de microbiotérios, a ordem do monito-del-monte, e de outros marsupialiformes, na Formação La Meseta (Eoceno médio). [5]
- Estimativa: A abertura de uma passagem oceânica profunda entre a Austrália e a Antártida (Passagem da Tasmânia) ocorreu há cerca de 33,5 milhões de anos, com margem de 1,5 milhão de anos. [9]
Há ligação terrestre ou rasa anterior; datas de separação variam conforme o critério. - Fato estabelecido: Os marsupiais fósseis mais antigos da Austrália vêm da fauna Tingamarra (Queensland), com idade mínima de 54,6 milhões de anos, no início do Eoceno. [2]
- Hipótese: O fóssil Djarthia, de Tingamarra, é um australidelfio muito primitivo; como não se conhecem australidelfios tão antigos na América do Sul, os autores levantam que o grupo pode ter surgido no leste de Gondwana e os microbiotérios sul-americanos seriam uma dispersão de volta. [2]
Os próprios autores ressalvam que o registro sul-americano do início do Paleógeno é mal amostrado. - Hipótese: Para Beck (2017), a origem e a evolução inicial dos marsupiais podem ter ficado restritas ao 'Reino Austral': sul da América do Sul, Antártida e Austrália. [5]
É uma possibilidade levantada pelo autor, não consenso. - Fato estabelecido: A fauna de Itaboraí (Rio de Janeiro) tem 53 a 50 milhões de anos e preserva mamíferos do início do Eoceno, incluindo marsupialiformes como Epidolops, que não é um marsupial moderno. [5]
A idade de Itaboraí já foi discutida; o artigo segue 53–50 Ma. - Estimativa: O Brasil abriga cerca de 69 espécies vivas de marsupiais, todas da família Didelphidae, em 15 gêneros. [8]
A contagem muda com a taxonomia; outras listas dão números diferentes. - Fato estabelecido: A família Didelphidae tem cerca de 95 espécies em 19 gêneros nas Américas, e o gambá-da-virgínia é o único representante ao norte do México. [7]
- Fato estabelecido: O gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita) é noturno, onívoro e tem cauda que funciona como uma quinta mão; a fêmea carrega os filhotes numa bolsa e depois nas costas. [10]
Observação naturalista, não revisão científica.
Fontes
- PLoS Biology (Nilsson et al., 2010) — Tracking Marsupial Evolution Using Archaic Genomic Retroposon Insertions
consultada em 11/10/2026 - PLoS ONE (Beck et al., 2008) — Australia's Oldest Marsupial Fossils and their Biogeographical Implications
consultada em 11/10/2026 - Science (Woodburne e Zinsmeister, 1982) — Fossil land mammal from Antarctica
consultada em 11/10/2026 - ZooKeys (Williamson, Brusatte e Wilson, 2014) — The origin and early evolution of metatherian mammals: the Cretaceous record
consultada em 11/10/2026 - Journal of Mammalian Evolution (Beck, 2017) — The Skull of Epidolops ameghinoi from the Early Eocene Itaboraí Fauna, Southeastern Brazil, and the Affinities of the Extinct Marsupialiform Order Polydolopimorphia
consultada em 11/10/2026 - Animal Diversity Web, Universidade de Michigan — Dromiciops gliroides (monito del monte)
consultada em 11/10/2026 - Animal Diversity Web, Universidade de Michigan — Didelphidae (opossums)
consultada em 11/10/2026 - Mammal Diversity Database, American Society of Mammalogists — Brazil Mammal Diversity Statistics
consultada em 11/10/2026 - Nature (Scher et al., 2015) — Onset of Antarctic Circumpolar Current 30 million years ago as Tasmanian Gateway aligned with westerlies
consultada em 11/10/2026 - Entre o Mar e a Montanha (Gilmar R. Ferreira) — Gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita)
consultada em 11/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão