Biologia
O fungo que manipula formigas: o que se sabe e o que ainda é hipótese
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Fungos do gênero Ophiocordyceps fazem formigas-carpinteiras subirem em plantas e travarem as mandíbulas numa folha ou galho antes de morrer. Nas formigas estudadas, o fungo invade os músculos, ocupando cerca de 40% da biomassa, mas o sistema nervoso central parece intacto. Quais moléculas guiam o comportamento ainda é pergunta aberta: há candidatas, nenhuma confirmada.
O nome Ophiocordyceps unilateralis hoje cobre um complexo de espécies, cada uma ligada a um hospedeiro. O padrão é parecido: a formiga infectada deixa a trilha, anda de forma errática, sobe em vegetação baixa e morre mordendo o substrato. Dali brota do corpo o estroma do fungo, que libera esporos. Na Tailândia, em Camponotus leonardi, a mordida final ocorre perto do meio-dia solar, em folhas a 20–30 cm do solo. Em estudos de laboratório com Camponotus floridanus, a subida ocorreu pouco antes do amanhecer, de 21 a 33 dias após a infecção. A manipulação é específica: o fungo mata outras espécies de formiga em laboratório, mas só manipula o comportamento do hospedeiro natural.
Um parasita do parasita
Em cemitérios de formigas mortas no Brasil, mais da metade dos estromas do fungo estava atacada por outro fungo, que impede a maturação. Nenhum dos 15 corpos frutíferos maduros liberou esporos em campo.
O que está firme
Em várias espécies de Ophiocordyceps e de Camponotus, a formiga infectada sobe, morde e morre presa ao substrato. Os músculos das mandíbulas estão tomados pelo fungo e hipercontraídos, e o sistema nervoso central não é invadido de forma evidente. Isso foi visto por imagem e microscopia, em estudos independentes.
O que é hipótese
Como o fungo faz os músculos se contraírem continua em aberto. Os autores consideram toxinas secretadas, vesículas extracelulares e dano à membrana do músculo, sem terem confirmado nenhuma. As moléculas apontadas em análises químicas são candidatas: foram achadas em tecido infectado, não testadas uma a uma.
Horário e lugar mudam
A mordida perto do meio-dia solar vem de observações na Tailândia, em C. leonardi. Em laboratório, com C. floridanus e outro fungo, a subida ocorreu perto do amanhecer. Cada par fungo-formiga tem seu padrão. Por isso não se deve falar de um horário e uma altura únicos para o chamado fungo zumbi.
O fungo também é parasitado
Em cemitérios de formigas no Brasil, cerca de 55% dos estromas estavam atacados por hiperparasitas, e nenhum corpo frutífero maduro liberou esporos em campo. Os autores estimaram que a população do fungo se mantém com crescimento baixo, ao redor de 1,07 por ciclo.
Como sabemos
Os fatos sobre músculo, cérebro e comportamento têm boa base; os mecanismos moleculares seguem hipóteses declaradas como tal.
Em debate:
- Fato estabelecido: Formigas infectadas por Ophiocordyceps sobem em vegetação e morrem com as mandíbulas travadas no substrato. [1] [2]
- Evidência forte: O fungo ocupa cerca de 40% da biomassa da formiga e coloniza extensamente os músculos das mandíbulas. [1]
Medido em Camponotus com O. kimflemingiae, com amostras pequenas (3 a 6 por grupo). - Evidência forte: O sistema nervoso central das formigas manipuladas parece fisicamente intacto. [1] [2]
Os autores dizem que parece intacto e que o fungo não costuma residir de forma invasiva no cérebro. - Evidência forte: Os músculos das mandíbulas ficam hipercontraídos, e não atrofiados. [1]
- Hipótese: Como o fungo provoca a hipercontração segue incerto: hipóteses incluem toxinas secretadas e vesículas extracelulares. [1]
Os autores não confirmaram a função das toxinas nem a origem das vesículas. - Hipótese: Duas moléculas, ácido guanidinobutírico e esfingosina, foram apontadas como candidatas a agir na manipulação. [5]
São candidatas por análise de tecido infectado, sem teste de causa direta. - Evidência forte: O fungo mata espécies de formiga que não são seu hospedeiro natural, mas só manipula o comportamento do hospedeiro natural. [5]
- Evidência forte: Em Camponotus leonardi, na Tailândia, a mordida final ocorre perto do meio-dia solar, a 20–30 cm do solo. [4]
A fonte aberta é um resumo do estudo de 2011; números exatos vêm do artigo original, não lido na íntegra. - Evidência forte: Em Camponotus floridanus em laboratório, a subida ocorreu perto do amanhecer, de 21 a 33 dias após a infecção. [2]
Condições de laboratório com ciclo de luz controlado; só 23 das 41 formigas infectadas (59%) foram manipuladas. - Interpretação: Os horários diferem entre espécies de fungo e hospedeiro, então não há um único horário típico. [2] [4]
Comparação entre estudos com espécies e condições distintas. - Fato estabelecido: Em cinco cemitérios no Brasil, 432 formigas mortas foram examinadas, e cerca de 55% dos estromas estavam hiperparasitados. [3]
- Fato estabelecido: Nenhum dos 15 corpos frutíferos maduros testados em campo liberou esporos; em laboratório úmido, 42% liberaram. [3]
- Estimativa: A taxa de crescimento estimada dos cemitérios foi 1,07, ou seja, positiva, mas baixa. [3]
Resultado de modelo baseado em dados de campo e em tempos de desenvolvimento estimados. - Incerto: Parte da mudança nos neurotransmissores das formigas pode ser resposta geral à infecção, e não manipulação específica. [2]
Os próprios autores dizem que é difícil separar as duas.
Fontes
- Journal of Experimental Biology (PMC) — Zombie ant death grip due to hypercontracted mandibular muscles
consultada em 06/10/2026 - PubMed Central — Multiomic interpretation of fungus-infected ant metabolomes during manipulated summit disease
consultada em 06/10/2026 - PLoS ONE — Disease Dynamics in a Specialized Parasite of Ant Societies
consultada em 06/10/2026 - Ecological Society of America — Fungus makes zombie ants administer death bite at noon
consultada em 06/10/2026 - BMC Evolutionary Biology (PMC) — Species-specific ant brain manipulation by a specialized fungal parasite
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão