Biologia

Fungos do Brasil: a lista de 2015 tinha 5.719 espécies, e seus autores dizem que não reflete o que existe

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

A versão de 2015 da lista oficial (hoje Flora e Funga do Brasil) registrava 5.719 espécies de fungos no país, contra 3.608 em 2010. Os autores avaliam que o número não reflete o que existe aqui, porque faltam coletas, especialistas e registros ainda não incorporados. As fontes lidas não trazem uma estimativa do total brasileiro, então não há como dizer que fatia do país já foi catalogada.

Fungos formam um reino à parte, que reúne cogumelos, bolores, leveduras e os fungos dos líquens. A lista brasileira é montada por taxonomistas, especialistas que descrevem e nomeiam espécies, em uma plataforma online mantida pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro; a versão de 2015 foi publicada na revista Rodriguésia por 50 autores. Conta nomes de espécies aceitos, não indivíduos nem populações, e inclui organismos que a micologia estuda por tradição mas que hoje ficam fora do reino, como oomicetos e mixomicetos. Por isso o número de espécies registradas mede o quanto já foi coletado, identificado e lançado na base, e não o quanto existe. A estimativa mundial, que fica no post ligado abaixo, é outra pergunta.

75 espécies novas em um só estado

Em Rondônia, uma equipe que estudou fungos liquenizados acrescentou 104 registros ao estado, e 75 eram espécies novas para a ciência. Os autores da lista usam o caso para mostrar quanto trabalho de campo e de laboratório ainda falta.

O que a lista conta, e o que deixa de fora

A contagem de 2015 foi feita por especialistas de cada grupo, que incluíram registros e corrigiram dados antigos em uma base online; só entraram nomes conferidos e aceitos, com o autor da espécie. Predominam os Basidiomycota (2.741 espécies) e os Ascomycota (1.881). Os autores dizem que a revisão não foi completa: cerca de 7 mil nomes de listas anteriores ficaram de fora, por falta de pessoal e de tempo, e muitos registros de herbários e coleções de culturas ainda não foram lançados.

Como sabemos o que falta: o mapa mostra onde se coletou

Por bioma, a Mata Atlântica tinha 3.017 espécies registradas, a Amazônia 1.050, a Caatinga 999, o Cerrado 638, o Pampa 84 e o Pantanal 35. Os autores avisam que isso reflete onde há mais grupos de micologistas ativos, e não necessariamente onde há mais fungos. Para o Tocantins, os dados são praticamente inexistentes, e o Distrito Federal tem cerca de 160 registros, apesar de a universidade local pesquisar fungos há décadas, o que indica material estudado e não lançado na base.

O que ainda aparece de novo, e onde falta gente

Uma caverna tropical brasileira estudada em 2022 rendeu 41 espécies identificadas, das quais seis eram novas, mais um gênero novo. Em 2015, a lista cobria cerca de 66% das 250 espécies conhecidas de Glomeromycota no mundo (157 delas citadas para o Brasil), mas só uns 10% das de Chytridiomycota e menos de 5% das de Zygomycota. Os autores ligam essa diferença à falta de especialistas: poucos se dedicam aos Ascomycota, o maior grupo, e quase nenhum aos grupos menores.

Dá para dizer que fração do Brasil já foi catalogada?

Não com as fontes lidas, porque ninguém publicou um total esperado para o país. Só há comparação com o mundo: a revisão de 2017 aponta cerca de 120 mil espécies aceitas e uma faixa estimada de 2,2 a 3,8 milhões. Nossa conta: 5.719 equivalem a cerca de 4,8% das espécies aceitas no mundo e a 0,15–0,26% da faixa estimada. Isso não é a fração do Brasil, pois não se sabe que parte dos fungos do mundo vive aqui. Em 2015, os autores já escreviam que o conhecimento global chegava a perto de 2% da diversidade estimada, usando uma estimativa maior, de 5,1 milhões.

Depois de 2015: a lista cresceu, mas ainda é preliminar

Em 2021 o projeto passou a se chamar Flora e Funga do Brasil, com ênfase em melhorar a representação de algas e fungos. Uma consulta nossa, em 14/10/2026, à cópia da lista no GBIF (atualizada em 1º/10/2026) contou 8.529 espécies aceitas sob o reino Fungi, cerca de 49% a mais que em 2015; 512 delas são de grupos hoje fora do reino, como mixomicetos e oomicetos. É contagem nossa, não número do site oficial, e os critérios de 2015 e de hoje podem diferir. A própria descrição da lista diz que as monografias de fungos não abrangeram a real diversidade do grupo.

Como sabemos

A contagem de 2015 e as lacunas vêm de artigo lido por inteiro; a contagem atual é consulta nossa à cópia do GBIF, porque o site oficial exige verificação anti-robô e não foi lido.

Fontes

  1. Rodriguésia (Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro), via SciELO — Diversity of Brazilian Fungi
    Maia, L. C.; Carvalho Júnior, A. A. et al. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/2175-7860201566407
  2. GBIF, publicado pelo Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro — Flora e Funga do Brasil - Lista Oficial (conjunto de dados no GBIF)
    Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro · 2026 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.15468/1mtkaw
  3. Microbiology Spectrum (ASM) — Fungal Diversity Revisited: 2.2 to 3.8 Million Species
    Hawksworth, D. L.; Lücking, R. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1128/microbiolspec.funk-0052-2016
  4. Fungal Systematics and Evolution — Unravelling the fungal darkness in a tropical cave: richness and the description of one new genus and six new species
    Alves, V. C. S. et al. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3114/fuse.2022.10.06
  5. Applications in Plant Sciences — florabr: An R package to explore and spatialize species distribution using Flora e Funga do Brasil
    Trindade, W. C. F. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1002/aps3.11616
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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