Ciências da Terra

Fumarolas negras: por que água a cerca de 350 °C não ferve no fundo do mar e vira "fumaça" preta

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Mar profundo

A água a cerca de 350 °C não ferve no fundo do mar porque a pressão da coluna de água a mantém líquida: a 2,5 km são cerca de 250 bar, bem acima dos cerca de 165 bar abaixo dos quais a água pura a 350 °C ferveria. O teto fica perto de 390 °C, no ponto crítico da água do mar a essa profundidade. A "fumaça" são grãos de sulfetos que se formam quando o fluido encontra a água fria.

Fumarola negra (em inglês, black smoker) é uma saída de água quente no fundo do mar, comum nas dorsais meso-oceânicas, as cordilheiras onde a crosta nova se forma. A água do mar entra na crosta, é aquecida por magma e volta pelo fundo como fluido hidrotermal; essa circulação responde por cerca de 10% da perda de calor da litosfera oceânica. Ferver exige que a pressão de vapor do líquido iguale a pressão ao redor; no fundo do mar, o peso da água em cima eleva muito esse ponto. A chaminé é a estrutura de minerais que se acumula em volta do jato.

Magma a 1.200 °C, fluido a cerca de 390 °C

Embaixo do campo do Pacífico Leste há magma a cerca de 1.200 °C, mas o fluido mais quente medido ao longo de décadas ficou perto de 390 °C. O teto vem da termodinâmica da água do mar, não do calor disponível.

A conta da pressão: 350 °C ainda é líquido a 2,5 km

Ferver é o que acontece quando a pressão de vapor do líquido iguala a pressão ao redor. Na tabela da água pura, 1 atm corresponde a 100 °C e 163,13 atm (16,529 MPa) a 350 °C. No Pacífico Leste, a 2,5 km de fundo, a pressão é de cerca de 250 bar. Como 163,13 atm equivalem a cerca de 165 bar (cálculo nosso, com 1 atm = 1,01325 bar), a água a 350 °C está sob mais pressão do que o limite abaixo do qual ferveria e continua líquida. A conta usa água pura; a do mar tem sal e curva própria.

O teto de temperatura e a fervura que existe, mas mais fundo

O fluido fica limitado a cerca de 400 a 450 °C, e no Pacífico Leste, a 9°50' N, a máxima em décadas foi de cerca de 390 °C, que os autores associam ao ponto crítico da água do mar a 2,5 km. Perto dessa fronteira há fervura: em Yokosuka (2.190 m) o fluido chegou a 364,1 °C, perto do ponto de ebulição local, e o cloreto baixo foi lido como separação de fases sob o fundo, isto é, fervura subterrânea. É interpretação dos autores, não observação direta.

Como a chaminé cresce: o anel de anidrita

O jato de fluido a cerca de 350 °C sai do fundo a 1 a 5 m/s e encontra a água fria. O primeiro sólido é um anel de anidrita (sulfato de cálcio), mineral que se dissolve mais no frio do que no quente. A razão entre isótopos de estrôncio mostrou que ele vem da mistura entre água do mar e fluido. Depois, a calcopirita forra a parede por dentro e sulfetos preenchem os poros, deixando a parede menos porosa e mais rica em metais. Chaminés cortadas foram medidas crescendo até 30 cm por dia.

De onde vem a cor preta

A 'fumaça' não é fumaça: é uma nuvem de grãos finos. Ao se misturar com a água fria, o fluido deposita sulfetos e óxidos de zinco, ferro, cobre e manganês. A pluma sobe cerca de 200 m, até um nível de flutuação neutra, onde a mistura tem a mesma densidade que a água ao redor. Grãos presos entre os cristais de anidrita, que é branca quando pura, deixam a parede cinza a preta. A cor negra vem, portanto, dos metais em grãos, não de queima.

Como sabemos o que acontece no fundo

Sondas de temperatura e garrafas de coleta no Alvin deram os cerca de 350 °C. Séries longas de termômetros em chaminés do Pacífico Leste mostram a máxima estacionada perto de 390 °C. Os isótopos de estrôncio (a razão entre o 87 e o 86 difere na água do mar e no fluido) revelaram a mistura que forma a anidrita. A química do fluido, como o cloreto baixo em Yokosuka, aponta fervura que ninguém vê. Limites: o modelo de crescimento descreve os estágios iniciais da parede, e a fervura subterrânea é inferência.

Como sabemos

Física da ebulição, teto de temperatura e crescimento da chaminé têm fonte aberta lida; a fervura subterrânea é interpretação, e o modelo de crescimento vem de texto de divulgação.

Fontes

  1. Woods Hole Oceanographic Institution (revista Oceanus) — How to Build a Black Smoker Chimney
    Tivey, M. K. · 1998 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Proceedings of the National Academy of Sciences — Hydrothermal vent temperatures track magmatic inflation and forecast eruptions at the East Pacific Rise, 9°50'N
    Barreyre, T. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2510245122
  3. Georgia State University, HyperPhysics — Vapor Pressure e Boiling Point (HyperPhysics)
    Nave, R. · s.d. · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Georgia State University, HyperPhysics — Water Vapor and Vapor Pressure (HyperPhysics)
    Nave, R. · s.d. · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. Royal Society Open Science — Deepest and hottest hydrothermal activity in the Okinawa Trough: the Yokosuka site at Yaeyama Knoll
    Miyazaki, J. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.171570
  6. Science Advances — Quantifying widespread hydrothermal chimneys on the East Pacific Rise flanks between 9°43' and 57'N
    Wu, J.-N. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.adv0788
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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