Fenômenos naturais

Friagem: a massa de ar polar que derruba a temperatura até na Amazônia

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Tempo e clima

Friagem é o nome dado, na Amazônia, à chegada de uma massa de ar polar, fria e seca, que avança do sul do continente pelo lado leste dos Andes. Em um episódio de julho de 2014, a temperatura máxima do dia ficou 7 °C abaixo da média do mês em Porto Velho e cerca de 4 °C abaixo em Manaus. A maior parte dos casos ocorre de junho a setembro, na estação menos chuvosa.

No inverno, massas de ar polares entram na América do Sul trazendo subida rápida da pressão e queda da temperatura. Quase sempre o efeito se limita ao Sul e Sudeste do Brasil: um estudo em Rondônia lembra que nem toda incursão que atinge o Rio Grande do Sul e Santa Catarina resulta em friagem lá. Quando o ar frio chega à bacia amazônica, o fenômeno ganha esse nome local, usado também na literatura científica. A classificação de surtos frios mais citada aqui descreve um anticiclone (centro de alta pressão) que se forma a leste dos Andes, enquanto a cordilheira represa o ar frio e o desvia para o norte. Na Amazônia, esse ar seco encontra o ar úmido que os ventos de leste trazem do Atlântico, e o contato pode gerar nuvens e chuva.

Nem todo frio vem só do ar frio

Em Manaus, segundo Marengo e colegas (1997), citados por um estudo de 2021, a principal causa da queda de temperatura numa friagem foi a menor chegada de luz solar, por causa do aumento das nuvens, e não só a entrada de ar polar.

Como o frio chega aos trópicos

Uma análise de reanálises de 1992 a 1996 separou os surtos frios sul-americanos em três tipos. O de maior alcance é o forte e persistente: tem um anticiclone intenso de superfície a leste dos Andes, ligado a um padrão de crista e cavado na altitude que mantém uma camada profunda de vento do sul. Nesse caso, a cordilheira represa o ar frio e o transporta para o oeste da Amazônia. Dos 256 surtos da amostra, 74% ocorreram entre junho e novembro. É uma classificação baseada em um período curto.

O que a friagem faz ao tempo

O sinal mais claro é a mudança do vento para sul e uma queda marcada na temperatura, maior no sul da Amazônia do que no centro. Em julho de 2014, a máxima ficou 7 °C abaixo da média do horário em Porto Velho e cerca de 4 °C abaixo em Manaus, quase um dia depois. O ar frio e seco do sul também encontrou o ar úmido de leste e produziu uma banda de chuva, com 21 mm no sítio ATTO. Em Rondônia, em 2017, a velocidade do vento chegou a dobrar.

Efeitos no ar e na floresta

No sítio ATTO, a friagem de 2014 reduziu a radiação solar que chegou ao chão, por causa das nuvens, e mudou o ozônio e o CO2 medidos acima do dossel. Os autores propõem que o ar frio, restrito aos 500 m inferiores, formou uma poça que travou a mistura vertical. É uma explicação provável, ainda baseada em um evento. Em Rondônia, as áreas urbanas e de pasto tiveram impactos maiores que a floresta, mas os autores pedem mais estudos.

Como sabemos

O quadro vem de medições e modelos combinados. No evento de 2014, os autores usaram estações de aeroportos em Porto Velho e Manaus, a torre de 81 m do ATTO, imagens de satélite, a reanálise ERA-Interim (grade de cerca de 79 km) e simulações do modelo BRAMS com grade de 1,5 km. O limite é que cada estudo costuma tratar um único evento, então números como 7 °C e 4 °C são exemplos, não valores típicos. Já o percentual de 31% de Rondônia foi calculado sobre graus Celsius.

Como sabemos

Números e mecanismos vêm de estudos abertos de poucos eventos; as obras clássicas (Garreaud 2000, Marengo 1997) estavam bloqueadas e entram só de segunda mão.

Fontes

  1. Atmospheric Chemistry and Physics (Copernicus) — The friagem event in the central Amazon and its influence on micrometeorological variables and atmospheric chemistry
    Camarinha-Neto, G. F.; Cohen, J. C. P.; Dias-Júnior, C. Q. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.5194/acp-21-339-2021
  2. Revista Brasileira de Climatologia (UFGD) — Efeito de um evento de friagem no cenário de mudança no uso e cobertura da terra no sudoeste da Amazônia
    Antonucci, B.; Barbino, G. C.; Andrade, N. L. R.; Webler, A. D. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. University of Missouri (MOspace) — South American Cold Surges: Types, Composites, and Case Studies
    Knight, D. J.; Lupo, A. R.; Bosart, L. F.; Hoffman, E. G.; Nocera, J. J. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  4. Universidade Federal de Pelotas (SIIEPE) — Impacto de uma friagem no fluxo de energia em uma floresta no sudoeste da Amazônia
    Galetti, G. D.; Nunes, A. B.; Aguiar, L. J. G.; Aguiar, R. G.; Fischer, G. R. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  5. University of Missouri (MOspace) — South American Cold Surges: Types, Composites, and Case Studies (registro de metadados com o resumo, repositório MOspace)
    Knight, D. J.; Lupo, A. R.; Bosart, L. F.; Hoffman, E. G.; Nocera, J. J. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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