Biologia

Fotossíntese com oxigênio antes da Grande Oxidação: o que o relógio molecular de 2021 mostra e não mostra

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Origem da vida

Um estudo de 2021 que combinou relógio molecular e transferências horizontais de genes estimou o ancestral comum das cianobactérias atuais em cerca de 2,9 bilhões de anos. Isso põe a fotossíntese com liberação de oxigênio pelo menos 360 milhões de anos antes da Grande Oxidação (cerca de 2,45 bilhões de anos). O ar demorou a acumular O₂ por motivos ainda debatidos, e a datação tem margem larga.

Fotossíntese oxigênica é a que usa luz e água e libera O₂; entre os seres vivos atuais, só as cianobactérias (e os cloroplastos, que descendem delas) a realizam. Um relógio molecular estima quando dois grupos se separaram a partir de quantas mutações os seus genes acumularam, e precisa de calibrações, como fósseis, e de um modelo da velocidade das mutações. Já a Grande Oxidação (GOE) é o intervalo em que o oxigênio se acumulou na atmosfera, por volta de 2,45 bilhões de anos atrás. O estudo de Fournier e colegas pergunta quando as cianobactérias surgiram, o que dá um limite máximo para a origem do metabolismo, e compara esse resultado com o momento em que o ar mudou.

As cianobactérias marinhas mais comuns são relativamente novas

Pelo mesmo relógio, o ancestral comum dos Synechococcus e Prochlorococcus marinhos, os fotossintetizadores que dominam boa parte do plâncton atual, teria vivido há cerca de 424 milhões de anos, muito depois da Grande Oxidação.

Como sabemos: um relógio com duas fontes de calibração

O relógio molecular mede o acúmulo de mudanças nos genes de bactérias atuais e as converte em tempo com fósseis de idade conhecida, como Obruchevella (cerca de 1,5 bilhão de anos) e Eoentophysalis (cerca de 2 bilhões). Esses fósseis só dão idade mínima. O estudo acrescentou 34 transferências horizontais de genes, que dão a ordem relativa entre linhagens, e as usou para escolher o modelo e filtrar as árvores. Assim, a conclusão não depende de hipóteses sobre o oxigênio nas rochas.

O que a margem de erro permite dizer

Mesmo com as restrições, o resultado é uma média com intervalo: o grupo-coroa em 2,90 bilhões de anos, entre 2,96 e 2,77. Sem elas, a faixa passa de um bilhão de anos. Além disso, o relógio dá a idade de um ancestral comum, não do dia em que a fotossíntese oxigênica surgiu: se ela apareceu na linhagem anterior, o limite superior seria cerca de 3,4 bilhões de anos, e se for mais ancestral, como propõe uma hipótese alternativa, o quadro muda.

O que as rochas do Arqueano dizem, e o que não decidem

O relógio é uma linha de evidência; as rochas são outra, e as duas não dependem uma da outra. Razões de iodo/cálcio e anomalias de cério em carbonatos marinhos rasos indicam ambientes localmente oxidados por volta de 2,9 bilhões de anos. Mas esses sinais seguem em exame, e o oxigênio livre também pode surgir sem fotossíntese oxigênica. Por isso a data de origem do metabolismo é inferida por métodos distintos que ainda não convergem totalmente.

Por que o ar não ganhou oxigênio logo

Se a produção de O₂ começou muito antes da Grande Oxidação, algo impediu que ele se acumulasse. A revisão de 2026 lista hipóteses sem consenso: pouco fósforo para sustentar a produtividade, gases redutores vindos de um manto mais redutor e competição com outros fotossintetizadores. Simulações em laboratório indicam que o ferro dissolvido pode ter sido tóxico em cultivo fechado. Nenhuma explicação está estabelecida, e podem ter atuado juntas.

Como sabemos

Os números do estudo de 2021 vêm do texto integral aberto, mas são estimativas dependentes de modelo, e as causas do atraso são hipóteses em disputa.

Em debate: As idades do grupo-coroa das cianobactérias variam muito entre estudos de relógio molecular (de bem antes da Grande Oxidação a depois dela), e o próprio estudo de 2021 mostra intervalos largos antes de aplicar as restrições de transferência de genes. Quanto ao oxigênio no Arqueano, os sinais geoquímicos continuam em exame e podem ter origem abiótica. Por isso a data de origem da fotossíntese oxigênica e o motivo do atraso seguem em disputa.

Fontes

  1. Proceedings of the Royal Society B — The Archean origin of oxygenic photosynthesis and extant cyanobacterial lineages
    Fournier, G. P.; Moore, K. R.; Rangel, L. T.; Payette, J. G.; Momper, L.; Bosak, T. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2021.0675
  2. Massachusetts Institute of Technology (MIT News) — Zeroing in on the origins of Earth’s “single most important evolutionary innovation”
    Chu, J. (MIT News Office) · 2021-09-28 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Communications Earth & Environment — Revisiting the greatness of Earth’s great oxidation
    Crockford, P. W.; Sugiyama, I.; Kipp, M. A.; Hao, J. et al. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s43247-026-03518-8
  4. Nature Communications — Diurnal Fe(II)/Fe(III) cycling and enhanced O2 production in a simulated Archean marine oxygen oasis
    Herrmann, A. J. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-021-22258-1
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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