Paleontologia
Os fósseis de Ediacara: organismos grandes e de corpo mole, de antes dos esqueletos
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Entre cerca de 574 e 538 milhões de anos atrás, os mares abrigaram organismos de corpo mole que chegavam a 2 metros, como Charnia e Dickinsonia. Quase todos viveram antes de os animais com esqueleto se espalharem. Muitos têm formas sem equivalente atual, e a ciência discute até hoje o parentesco de vários deles.
A biota de Ediacara recebe o nome das colinas de Ediacara, no sul da Austrália, mas foi achada em vários continentes: Newfoundland, Inglaterra, mar Branco (Rússia), Austrália e Namíbia. Os pesquisadores a dividem em três grupos sucessivos: Avalon (cerca de 575 a 565 milhões de anos), Mar Branco (cerca de 558 a 555) e Nama (cerca de 549 a 539). A maioria dos organismos não tinha esqueleto mineralizado e foi preservada como impressão em arenito ou em camadas de cinza vulcânica. Perto do fim do período surgem as primeiras conchas de carbonato de cálcio, como as de Cloudina. A maior parte dessa fauna desapareceu perto do limite com o Cambriano, e só um punhado de formas segue em rochas mais jovens.
Gordura de 558 milhões de anos
Em 2018, uma equipe achou colesterol fossilizado em Dickinsonia, num afloramento do mar Branco, na Rússia. O colesterol é marca de animais, e o achado a colocou entre os animais mais antigos conhecidos. Ela chegava a 1,4 metro.
Três grupos no tempo
A biota não é um bloco único. O grupo Avalon, de cerca de 575 a 565 milhões de anos, vem de Newfoundland e da Inglaterra e é dominado por formas em fronde. O grupo Mar Branco, de cerca de 558 a 555 milhões, é o mais diverso, com cerca de 70 gêneros descritos na Rússia e na Austrália. O grupo Nama, de cerca de 549 a 539 milhões, vem da Namíbia e mistura formas tubulares com as primeiras conchas.
Dickinsonia e o colesterol
Durante décadas, Dickinsonia foi tratada como alga, líquen, colônia de micróbios ou animal. Em 2018, pesquisadores analisaram amostras de um afloramento do mar Branco, na Rússia, a cerca de 558 milhões de anos, e encontraram esteroides típicos de animais. A preservação ali foi excepcional: rochas da Austrália passaram por calor e pressão que destroem esse tipo de molécula.
Charnia, um parente distante
Em 2021, um estudo mediu exemplares de Charnia de 2,7 cm a mais de 45 cm, com os maiores descritos passando de 65 cm, e analisou seu crescimento. A análise filogenética a posicionou como eumetazoário do grupo-tronco, isto é, fora dos grupos de animais atuais, mas dentro da linhagem que os originou. É a primeira vez que um membro dessa biota recebe uma posição assim por homologia.
Namíbia, onde o esqueleto aparece
O Grupo Nama, depositado entre cerca de 550 e 538 milhões de anos, guarda lado a lado fósseis de corpo mole, como Pteridinium e Rangea, e organismos com esqueleto de carbonato, como Cloudina e Namacalathus. Também traz rastros de sedimento revolvido e os primeiros treptichnídeos. É um registro da transição para o mundo em que os esqueletos passam a dominar.
Como sabemos
Datas, localidades e achados centrais confirmados em fontes primárias e institucionais; o debate de parentesco está declarado no texto.
Em debate: Quais organismos de Ediacara eram animais e quais pertencem a outros ramos da vida, ou a ramos extintos, segue em discussão; Dickinsonia e Charnia têm evidências a favor de serem animais, mas muitas outras formas não têm posição definida.
Em debate: As causas do declínio da biota perto do limite com o Cambriano seguem em debate.
- Consenso científico: A biota macroscópica de Ediacara existiu entre cerca de 574 e 538 milhões de anos atrás. [2] [1]
- Fato estabelecido: Os organismos eram em sua maioria de corpo mole e alguns chegavam a 2 metros. [1]
- Consenso científico: A biota se divide em três grupos: Avalon, Mar Branco e Nama. [1] [2]
- Fato estabelecido: Dickinsonia viveu cerca de 558 milhões de anos atrás, chegava a 1,4 m e tinha formato oval com segmentos. [4]
- Evidência forte: Colesterol fossilizado em Dickinsonia, no mar Branco, indica que ela era um animal. [4] [5]
- Fato estabelecido: Charnia foi achada em Charnwood Forest (Inglaterra) e na região do mar Branco (Rússia); exemplares passam de 65 cm. [2]
- Evidência forte: Uma análise filogenética de 2021 resolveu Charnia como eumetazoário do grupo-tronco, fora dos grupos de animais atuais. [2]
- Fato estabelecido: O Grupo Nama, na Namíbia, foi depositado entre cerca de 550 e 538 milhões de anos atrás. [3]
- Fato estabelecido: No Nama ocorrem fósseis de corpo mole (Pteridinium, Rangea, Ernietta) e esqueléticos (Cloudina, Namacalathus, Namapoikia). [3]
- Fato estabelecido: O Nama traz os primeiros representantes de rastros de treptichnídeos. [3]
- Consenso científico: A maior parte da biota desapareceu perto do limite com o Cambriano e só poucos sobreviventes são conhecidos. [1]
- Em debate: As causas do desaparecimento (predadores, perda de condições de fossilização, competição) seguem em debate. [1]
Hipóteses propostas, sem consenso.
Fontes
- Palaeontology Online (Palaeontological Association) — Fossil Focus: The Ediacaran Biota
consultada em 05/10/2026 - PubMed Central (Science Advances) — The developmental biology of Charnia and the eumetazoan affinity of the Ediacaran rangeomorphs
consultada em 05/10/2026 - PubMed Central (Scientific Reports) — Regional nutrient decrease drove redox stabilisation and metazoan diversification in the late Ediacaran Nama Group, Namibia
consultada em 05/10/2026 - Australian National University — Fat from 558 million years ago reveals earliest known animal
consultada em 05/10/2026 - MARUM, Universidade de Bremen — 558 million-year-old fat reveals earliest known animal
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão