Química

O problema do fósforo: como a schreibersite de meteoritos pode ter dado fósforo reativo à química da vida

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O fósforo está no DNA, no RNA e no ATP, mas na natureza fica sobretudo como fosfato preso em minerais como a apatita, quase insolúvel. Em laboratório, a schreibersite, fosfeto de ferro e níquel presente em meteoritos, libera fósforo reativo ao corroer e fosforilou nucleosídeos em água básica, com rendimento baixo. Que ela tenha sido a fonte na Terra jovem é hipótese; raios e lagos de carbonato são alternativas.

O fosfato, que liga os nucleotídeos do RNA e do DNA, é a forma oxidada do fósforo. Na natureza ele fica preso em minerais como a apatita, que quase não se dissolve, e se combina com o cálcio mesmo em concentrações muito baixas. Já os experimentos de química prebiótica costumam usar fosfato bem concentrado, porque ligá-lo a moléculas orgânicas em água é termodinamicamente desfavorável. Esse descompasso é chamado de problema do fosfato. A schreibersite, (Fe,Ni)3P, é um fosfeto: o fósforo está reduzido e reage com a água, liberando espécies como fosfito e fosfato. Este texto trata só do fósforo; o que os meteoritos trouxeram de moléculas orgânicas está em outro texto do acervo.

Oito anos num frasco lacrado

Num estudo publicado em 2022, cerca de 5 g de lascas do meteorito Seymchan ficaram uns 8 anos em 15 mL de água ultrapura, num frasco fechado. No fim ainda havia fosfito, espécie reativa que deveria ter oxidado, ao lado de ortofosfato e pirofosfato.

Como sabemos: dois tipos de experimento

Em 2015, Gull e colegas misturaram adenosina ou uridina com análogos sintéticos de schreibersite (Fe3P e Fe2NiP) em água, aqueceram a 80 °C por 2 dias a 2 semanas e identificaram os produtos por espectrometria de massas e ressonância magnética de fósforo-31, comparando com padrões. Em 2022, um estudo com autores em comum deixou lascas do meteorito Seymchan, um pallasito, por cerca de 8 anos em água e mediu o fósforo dissolvido. O primeiro testa a química; o segundo, a estabilidade. A schreibersite sintética foi comparada à meteorítica por difração de raios X e outras técnicas.

O que o rendimento baixo e o pH dizem

Os nucleotídeos somaram de 1 a 6% do fósforo dissolvido onde foram detectados, e só apareceram em pH básico: em água a pH 6,5 não houve fosforilação detectável em 14 dias. O rendimento parece controlado pela lenta liberação do fósforo na corrosão. O estudo relata monofosfatos de nucleosídeos, não cadeias de RNA, e os autores dizem que o mecanismo é desconhecido e que não se sabe se as concentrações bastariam para formar biopolímeros. É uma prova de que a química funciona, não de que ocorreu.

Cenários concorrentes na Terra jovem

Hess e colegas (2021) acharam schreibersite num fulgurito de solo argiloso e estimaram, num modelo de ordem de grandeza, 10 a 1000 kg de fosfeto por ano formados por raios, superando o fluxo de meteoritos depois de cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. Toner e Catling (2020) propõem lagos ricos em carbonato, onde o cálcio fica preso e o fosfato pode passar de 1 molal. Um estudo de 2025 achou fosfito magmático de até 2,85 ppm em rochas de 3,22 bilhões de anos. São hipóteses que podem coexistir.

Onde a hipótese do meteorito encontra limites

A contribuição meteorítica é incerta: a faixa de 5 a 10% do fósforo crustal vem de estudos anteriores citados pelos autores. Nem todo fosfeto sobreviveria ao impacto, porque grandes impactores fundiam ou vaporizavam e o fósforo podia sair oxidado. O fosfito, abundante na corrosão, tende a render fosfonatos e pode atrapalhar reações orgânicas, e os testes foram feitos com água ultrapura ou básica, sem a complexidade de um oceano ou de uma poça primitiva.

Como sabemos

Cinco artigos científicos abertos lidos por inteiro, com trechos conferidos, mas as estimativas de fluxo são modelos e os experimentos de 2015 e 2022 vêm do mesmo grupo.

Em debate: A schreibersite de meteoritos libera fósforo reativo em experimentos, mas não se sabe quanto fosfeto sobreviveria aos impactos. Hess e colegas propõem raios como fonte independente do fluxo de meteoritos; Toner e Catling propõem lagos ricos em carbonato que concentram fosfato; um estudo de 2025 aponta fosfito magmático em rochas de 3,22 bilhões de anos. Os cenários não se excluem e nenhum foi demonstrado como o que ocorreu.

Fontes

  1. Scientific Reports (Nature Publishing Group) — Nucleoside phosphorylation by the mineral schreibersite
    Gull, M.; Mojica, M. A.; Fernández, F. M.; Gaul, D. A.; Orlando, T. M.; Liotta, C. L.; Pasek, M. A. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/srep17198
  2. Life (MDPI); University of South Florida — Results of an Eight-Year Extraction of Phosphorus Minerals within the Seymchan Meteorite
    Gull, M.; Feng, T.; Pasek, M. A. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/life12101591
  3. Nature Communications; Yale University; University of Leeds; Wheaton College — Lightning strikes as a major facilitator of prebiotic phosphorus reduction on early Earth
    Hess, B. L.; Piazolo, S.; Harvey, J. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-021-21849-2
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS); University of Washington — A carbonate-rich lake solution to the phosphate problem of the origin of life
    Toner, J. D.; Catling, D. C. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1916109117
  5. Communications Earth & Environment (Nature Portfolio); University of St Andrews — Magmatic and thermally produced reactive phosphorus 3.2 billion years ago and its implications for early life
    Baidya, A. S.; Gehringer, M. M.; Savaniu, C.; Heubeck, C.; Stüeken, E. E. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s43247-025-02824-x
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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