Zoologia
Formigas do Saara parecem contar passos para voltar para casa
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
A formiga Cataglyphis fortis sai do ninho, anda por terreno sem pontos de referência e volta em linha reta. Para medir a distância, ela usa um integrador de passos. Num experimento, formigas com pernas alongadas por cerdas coladas passaram do ninho; as de pernas encurtadas pararam antes. O erro acompanhou a mudança no tamanho do passo.
No deserto não há trilha nem cheiro que dure sob o sol. A Cataglyphis fortis faz saídas de busca de comida de até 1.200 m e, achado o alimento, volta por um caminho direto, não pelo que percorreu. Isso exige dois dados: a direção, dada por uma bússola celeste baseada na luz do céu, e a distância, dada por um integrador de passos, uma espécie de pedômetro. Em 2007, Wittlinger, Wehner e Wolf testaram a ideia na Tunísia: treinaram formigas a ir de um ninho a um comedouro a 10 m e alteraram o comprimento das pernas delas apenas na volta. Se a formiga mede a distância contando passos, o erro deveria seguir o tamanho do passo.
Não é só contar passos
Estudos posteriores indicam que as formigas também usam o fluxo visual, o movimento da paisagem sobre os olhos, para estimar distância. O contador de passos é um dos sistemas, não o único.
Dois dados bastam
A integração de caminho soma continuamente direção e distância. O resultado é um vetor que aponta para o ninho, atualizado a cada passo. A formiga não precisa lembrar o trajeto: só o balanço acumulado de tudo o que andou e para onde. Por isso, um desvio qualquer no caminho de ida não impede a volta em linha reta.
A bússola vem do céu
A direção é dada pela luz polarizada do céu. Trechos do trajeto feitos sem essa referência são ignorados pelo integrador, segundo experimentos com a mesma espécie, o que mostra que a distância só vale se tiver direção associada. Sem céu legível, a conta do vetor de casa deixa de fechar para aquele trecho.
O terreno inclinado
Em morros, a formiga registra a distância horizontal, a projeção no chão, e não a distância efetivamente caminhada. Isso sugere que o odômetro não é um simples contador de passos, mas um sistema que combina passos com informação sobre inclinação, ainda em estudo quanto aos sensores envolvidos.
Limites do experimento
O contador de passos explica bem o erro das pernas alteradas, mas não é o único sistema: o fluxo visual também ajuda. A conclusão segura é que passos entram na conta, e que o cérebro da formiga os combina com outras fontes de informação, em vez de depender de um único contador.
Como sabemos
Resultados numéricos vêm do artigo do Journal of Experimental Biology; o mecanismo é consenso na literatura.
- Fato estabelecido: Cataglyphis fortis faz saídas de forrageio de até 1.200 m e volta ao ninho por rota direta. [2]
- Consenso científico: A direção do retorno é dada por uma bússola celeste, baseada na luz polarizada do céu. [2] [4]
- Consenso científico: A distância percorrida é medida por um integrador de passos, ou pedômetro. [1] [4]
- Fato estabelecido: No experimento, formigas foram treinadas a andar 10 m entre o ninho e um comedouro, na Tunísia. [1]
- Fato estabelecido: As pernas foram alongadas com cerdas de porco coladas (pernas de pau) ou encurtadas por amputação (tocos). [1]
- Fato estabelecido: Com a manipulação só na volta, formigas de pernas de pau buscaram o ninho a cerca de 15,3 m, contra 10,2 m do controle: superestimativa de 50%. [1]
- Fato estabelecido: Formigas de pernas encurtadas (corte no meio da tíbia) buscaram o ninho a cerca de 5,75 m. [1]
- Fato estabelecido: Quando as pernas foram manipuladas igualmente na ida e na volta, as formigas procuraram o ninho perto dos 10 m corretos. [1]
- Evidência forte: A magnitude do erro corresponde à mudança no comprimento do passo, o que sustenta a hipótese do integrador de passos. [1]
- Evidência forte: Trechos do trajeto sem pista da bússola celeste são ignorados pelo integrador de caminho. [2]
- Evidência forte: Em morros, a formiga registra a distância horizontal, não a distância caminhada. [2]
- Consenso científico: Pesquisas posteriores indicam que fluxo visual também contribui para a medida de distância. [3]
Resumo de revisão de 2024; o estudo original sobre fluxo óptico não foi aberto.
Fontes
- Journal of Experimental Biology — The desert ant odometer: a stride integrator that accounts for stride length and walking speed
consultada em 06/10/2026 - Journal of Comparative Physiology A, via PubMed Central — Path integration in a three-dimensional world: the case of desert ants
consultada em 06/10/2026 - Journal of Comparative Physiology A, via PubMed Central — Vector-based navigation in desert ants: the significance of path-integration vectors
consultada em 06/10/2026 - PubMed Central — Neural population coding of movement direction for path integration
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão