Ecologia
As formigas cortadeiras herdaram de ancestrais uma agricultura de fungos com mais de 55 milhões de anos
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
As formigas cortadeiras (Atta e Acromyrmex) cortam folhas frescas, mas usam os fragmentos para alimentar um fungo, o Leucoagaricus gongylophorus, que cultivam em ninhos. Estruturas desse fungo servem de alimento a elas. Essa agricultura vem de ancestrais da tribo Attini, que a iniciaram há cerca de 55 a 65 milhões de anos nas florestas da América do Sul. As cortadeiras propriamente ditas surgiram bem depois, há cerca de 18,5 milhões de anos.
As formigas atíneas começaram com colônias pequenas, de dezenas a centenas de operárias, que davam ao fungo restos de matéria morta, como fezes de insetos. Com o tempo, houve uma sequência de etapas: um fungo domesticado com pontas de hifas inchadas, os gongilídios, que alimentam as formigas, e por fim as cortadeiras, que passaram a usar vegetação fresca de centenas de espécies de plantas. Nas colônias de Acromyrmex há dezenas de milhares de formigas e nas de Atta, até milhões de indivíduos. O fungo cultivado pelas cortadeiras é poliploide e é cultivado de forma obrigatória pelas formigas e mostra assinaturas genômicas de propagação clonal vertical. Um estudo de 2017 sugeriu que a passagem para a agricultura mais avançada ocorreu provavelmente em ambiente seco, e não em floresta úmida.
A agricultura começou na floresta, o fungo domesticado talvez no seco
Um estudo filogenômico de 2017 confirmou que a agricultura das atíneas surgiu em florestas úmidas da América do Sul. Mas indicou que a passagem para a forma mais avançada, com fungo domesticado, provavelmente ocorreu em hábitats sazonalmente secos, onde o fungo ficaria isolado de populações livres.
Os primeiros agricultores
As formigas da tribo Attini formam o grupo dos primeiros agricultores conhecidos do planeta. A agricultura teria surgido em florestas úmidas da América do Sul há cerca de 55 a 65 milhões de anos. As atíneas ancestrais tinham colônias de dezenas a centenas de operárias e alimentavam fungos com detritos, como fezes de insetos. Os fungos desse estágio têm hifas comuns e baixa produtividade: é uma agricultura de pequena escala.
A domesticação do fungo
Entre 27 e 31 milhões de anos atrás surgiram as atíneas mais derivadas, que cultivam um único fungo totalmente domesticado, com gongilídios: pontas de hifas inchadas, agrupadas em estafilas, que servem de alimento às formigas. A radiação desse grupo coincidiu com a domesticação irreversível dessa linhagem de fungo. Um estudo de 2017 sugere que essa passagem ocorreu em hábitat sazonalmente seco.
O salto das cortadeiras
As cortadeiras surgiram há cerca de 18,5 milhões de anos e ampliaram muito a escala: colônias de Acromyrmex com dezenas de milhares de formigas e de Atta com até milhões. Passaram a usar vegetação fresca de centenas de espécies de plantas para alimentar o fungo, hoje poliploide, com assinaturas de propagação clonal vertical. O cultivar Leucoagaricus gongylophorus é fornecido por quase todas as cortadeiras, com poucas exceções.
O que ainda é incerto
As idades dependem de análises filogenéticas e de calibrações com fósseis, e variam entre estudos, de cerca de 55 a 65 milhões de anos para o início e de cerca de 66 milhões (faixa de 56 a 76) em uma análise de 2017. Os autores também notam que lacunas de dados genômicos limitaram, até 2024, a descobrir como a seleção contínua das formigas moldou o fungo. A comparação com a agricultura humana é uma analogia, que os próprios autores pedem para formular com cuidado.
Como sabemos
Os dados vêm de artigos revisados por pares de 2017, 2021 e 2024, com idades apresentadas como faixas.
Em debate: A idade do início da agricultura entre as formigas varia por estudo: 'cerca de 55 a 65 milhões de anos' é a faixa mais citada; uma análise de 2017 obteve 66 milhões (56 a 76); trabalhos de 2021 e 2024 falam em 'cerca de 60' e 'mais de 60 milhões'. A idade das cortadeiras (18,5 milhões) depende de calibrações com fósseis.
- Estimativa: A agricultura das formigas atíneas teria surgido nas florestas úmidas da América do Sul há cerca de 55 a 65 milhões de anos. [3]
Faixa de datas de estudos filogenéticos; o próprio estudo de 2017 recupera cerca de 66 milhões de anos para o grupo (56 a 76 milhões). - Estimativa: As formigas cortadeiras (Atta e Acromyrmex) apareceram há cerca de 18,5 milhões de anos. [2]
Idade estimada por análise filogenética calibrada, citada em estudo de 2021. - Evidência forte: As atíneas ancestrais tinham colônias pequenas, de dezenas a centenas de operárias, e davam ao fungo restos de matéria morta. [1] [2]
- Fato estabelecido: O fungo domesticado produz gongilídios, hifas inchadas que alimentam as formigas. [1] [2]
- Fato estabelecido: As cortadeiras usam vegetação fresca de centenas de espécies de plantas para alimentar o fungo. [2]
- Estimativa: Colônias de Acromyrmex têm dezenas de milhares de formigas e as de Atta, até milhões. [2]
Tamanhos máximos citados na literatura; variam por espécie e colônia. - Evidência forte: Quase todas as cortadeiras cultivam o fungo Leucoagaricus gongylophorus, que é poliploide e mostra assinaturas de propagação clonal vertical. [1] [2]
'Quase todas': há poucas exceções, segundo os autores. - Hipótese: A passagem da agricultura 'inferior' para a 'superior' ocorreu provavelmente em hábitat sazonalmente seco, segundo estudo de 2017. [3]
Resultado de análise filogenômica; os autores propõem que ambientes secos favoreceram o isolamento dos cultivares. - Evidência forte: A origem da agricultura em floresta úmida (hipótese 'out-of-the-rainforest') foi confirmada pelo estudo de 2017. [3]
- Interpretação: As atíneas são consideradas os primeiros agricultores conhecidos do planeta, há mais de 60 milhões de anos. [1]
Formulação de artigo de 2024; a data depende de calibrações filogenéticas.
Fontes
- Molecular Biology and Evolution — Genomic Signatures of Domestication in a Fungus Obligately Farmed by Leafcutter Ants
consultada em 04/10/2026 - Nature Ecology & Evolution — Nutritional niches reveal fundamental domestication trade-offs in fungus-farming ants
consultada em 04/10/2026 - Proceedings of the Royal Society B — Dry habitats were crucibles of domestication in the evolution of agriculture in ants
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 4 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 05/10/2026 — migração da versão 0.3 (lotes 001 a 003)