Ciências da Terra

Foraminíferos: o δ18O das conchas lê a temperatura do passado, mas misturada ao gelo e à salinidade

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Foraminíferos são organismos unicelulares com concha, em geral de calcita, que se acumulam no fundo do mar. A razão entre oxigênio-18 e oxigênio-16 (δ18O) da concha depende da temperatura e da composição da água, que varia com o volume global de gelo e com a salinidade. Por isso o δ18O sozinho não dá a temperatura: é preciso estimar ou medir à parte os outros fatores, por exemplo pela razão Mg/Ca da própria concha, e cada passo soma incerteza.

Isótopos são átomos do mesmo elemento com massas diferentes: o oxigênio-16 é o comum e o oxigênio-18, mais pesado, é raro. O δ18O expressa, em partes por mil (‰), quanto a razão 18O/16O de uma amostra se afasta de um padrão. A água do mar também muda: o gelo das calotas é pobre em oxigênio-18, então nas eras glaciais o oceano restante fica mais rico no isótopo pesado. Foraminíferos planctônicos vivem na superfície e registram a água de cima; os bentônicos vivem no fundo e registram a água profunda, mais uniforme. Os ciclos orbitais e as bolhas de ar do gelo têm artigos próprios; aqui o foco é a leitura do próprio δ18O e seus limites.

Riram dele, e as redes de coleta deram razão

Emiliani viu, pelo δ18O, que espécies diferentes de foraminíferos formavam a concha em profundidades diferentes. Segundo sua lembrança, um especialista riu da ideia. Cerca de 15 anos depois, redes que abrem e fecham em profundidades escolhidas mostraram que as espécies viviam em profundidades distintas.

O que a concha guarda

Quando um foraminífero constrói a concha de calcita, a proporção entre oxigênio-18 e oxigênio-16 que entra nela depende da temperatura: em equilíbrio com a água, a calcita fica enriquecida em oxigênio-18, e menos enriquecida quanto mais quente a água. Esse é o princípio do termômetro. Mas a proporção também depende da própria água, e aí está a dificuldade: para converter δ18O em temperatura é preciso conhecer o δ18O da água do mar, que em geral não se conhece e precisa ser estimado.

Emiliani, 1955: um método que acertou o ritmo e errou os números

Em 1955, Emiliani analisou o δ18O de foraminíferos de sondagens do Atlântico, do Caribe e do Pacífico e mostrou que as eras glaciais se repetem em ciclos. Ele usou um efeito do gelo de cerca de 0,4‰ e achou oscilações de cerca de 6 °C na água superficial. O valor hoje aceito para o efeito do gelo é cerca de 1,2‰, de modo que parte do que ele atribuiu ao frio era volume de gelo. Segundo Berger, a importância do artigo foi abrir um campo de pesquisa, não os números.

Mg/Ca: um segundo termômetro, na mesma concha

A razão Mg/Ca da calcita aumenta de forma exponencial com a temperatura, algo observado primeiro em cultivos e depois em coletas no mar. Medindo Mg/Ca e δ18O na mesma concha, estima-se em princípio a temperatura pelo primeiro e subtrai-se o efeito dela do segundo, sobrando o δ18O da água, que reflete gelo e salinidade. Para G. ruber albus do Mediterrâneo no inverno, a relação foi Mg/Ca = 0,37 × exp(0,14 × T), cerca de 15% por grau (cálculo nosso).

Onde a leitura ainda falha

Três incertezas seguem abertas. Uma: separar gelo, salinidade e temperatura; num estudo no Mediterrâneo, combinar δ18O, Mg/Ca e suposições sobre a relação com a salinidade não deu reconstruções úteis de salinidade. Outra: o Mg/Ca também responde à salinidade e à química do carbono em algumas espécies. Por fim, depois do soterramento a concha pode trocar oxigênio com a água dos poros sem mudança visível, o que enviesa as paleotemperaturas em até +0,86 a −0,46 °C.

Como sabemos

O mecanismo e a história vêm de fontes abertas lidas na íntegra (Berger 2002, Lisiecki e Raymo 2005, Dämmer et al. 2020); o artigo original de Emiliani (1955) e os de calibração de Mg/Ca não foram lidos.

Fontes

  1. Comptes Rendus Palevol (Académie des sciences; Muséum national d'Histoire naturelle) — Cesare Emiliani (1922–1995), pioneer of Ice Age studies and oxygen isotope stratigraphy
    Berger, W. H. · 2002 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/S1631-0683(02)00073-8
  2. Paleoceanography (American Geophysical Union) — A Pliocene-Pleistocene stack of 57 globally distributed benthic D18O records
    Lisiecki, L. E.; Raymo, M. E. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1029/2004PA001071
  3. Climate of the Past (European Geosciences Union) — Evaluation of oxygen isotopes and trace elements in planktonic foraminifera from the Mediterranean Sea as recorders of seawater oxygen isotopes and salinity
    Dämmer, L. K.; de Nooijer, L.; van Sebille, E.; Haak, J. G.; Reichart, G.-J. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/cp-16-2401-2020
  4. NASA Earth Observatory — Paleoclimatology: The Oxygen Balance
    NASA Earth Observatory · 2005 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  5. Communications Earth & Environment (Nature Portfolio) — Rapid grain boundary diffusion in foraminifera tests biases paleotemperature records
    Adams, A.; Daval, D.; Baumgartner, L. P.; Bernard, S.; Vennemann, T. et al. · 2023 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s43247-023-00798-2
  6. University of California Museum of Paleontology (UCMP) — Introduction to the Foraminifera
    University of California Museum of Paleontology · s.d. · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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