Química
Fontes hidrotermais: no fundo do mar, a química, e não o Sol, sustenta ecossistemas inteiros
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 1977, cientistas que exploravam o fundo do Pacífico, a cerca de 2.500 metros de profundidade, perto das ilhas Galápagos, encontraram água quente brotando da rocha e, em volta dela, mariscos, caranguejos e vermes tubulares. Na escuridão total, esses animais não dependem da luz solar: bactérias usam o sulfeto de hidrogênio da água das fontes como fonte de energia e produzem matéria orgânica que alimenta toda a comunidade.
Fontes hidrotermais ocorrem onde a água do mar entra em contato com rocha aquecida por magma, em dorsais oceânicas e zonas de subducção. A água que circula pela crosta sai enriquecida em sulfeto de hidrogênio, o gás de cheiro de ovo podre. Bactérias quimiossintetizantes oxidam esse composto e obtêm energia para fixar carbono, o que na superfície a fotossíntese faz com a luz. Parte dos animais vive em simbiose com essas bactérias, como o verme Riftia pachyptila, que não tem boca nem estômago. Nos locais descobertos em 1977, a água das fontes estava entre 8 e 17 °C, contra 2 °C do mar ao redor. Em outras fontes, o fluido passa de 370 °C sem ferver, por causa da pressão.
Um verme sem boca
O Riftia pachyptila não tem boca, olhos nem estômago. O corpo guarda um órgão, o trofossomo, cheio de bactérias que o alimentam. A cor do trofossomo muda conforme o enxofre armazenado: amarelo-claro quando há muito, escuro quando falta.
A descoberta de 1977
A expedição saiu em 8 de fevereiro de 1977 e chegou ao Galápagos Rift em 12 de fevereiro, a cerca de 640 km a oeste do Equador. Os cientistas, entre eles Jack Corliss, Robert Ballard e John Edmond, encontraram mariscos de até 30 cm, caranguejos brancos, polvos e vermes tubulares de pontas vermelhas. O cheiro de sulfeto nas amostras de água levou o grupo a festejar no convés.
De onde vem a energia
A água do mar desce pela crosta, esquenta junto ao magma e reage com a rocha. Quando sobe, traz sulfeto de hidrogênio. Na superfície, o Sol dá a energia que a fotossíntese converte em açúcar. Nas fontes, essa energia vem da oxidação do sulfeto por bactérias, num processo chamado quimiossíntese.
O verme que é um hospedeiro
O Riftia não digere nada. A bactéria Candidatus Endoriftia persephone vive nos bacteriócitos do trofossomo e fornece os nutrientes de que o verme precisa. O resultado é um crescimento de mais de 85 cm de tubo por ano, ritmo que os autores do estudo de 2019 classificam como extraordinariamente rápido.
Chaminés de minerais
Quando o fluido quente encontra o mar quase congelante, minerais se precipitam e formam chaminés. As fumarolas negras são ricas em sulfeto de ferro. As brancas se formam de bário, cálcio e silício. Essas estruturas são o cenário onde muitas dessas comunidades se instalam.
Como sabemos
Fatos centrais confirmados em páginas de NOAA, WHOI, Animal Diversity Web e artigo revisado por pares (mBio, PMC).
- Fato estabelecido: A expedição de 1977 encontrou fontes hidrotermais a cerca de 2.500 metros de profundidade no Galápagos Rift. [3]
- Fato estabelecido: Nos locais de 1977, a água das fontes ficava entre 8 e 17 °C, enquanto o mar ao redor estava a 2 °C. [3]
- Fato estabelecido: Em fontes hidrotermais, a água pode passar de 700 °F (cerca de 370 °C) sem ferver, por causa da pressão. [1]
- Fato estabelecido: As fontes ocorrem onde a água do mar encontra rocha aquecida por magma, em dorsais oceânicas e zonas de subducção. [1]
- Fato estabelecido: As amostras de água de 1977 continham sulfeto de hidrogênio, reconhecido pelo cheiro de ovo podre. [3]
- Consenso científico: O sulfato da água do mar é convertido em sulfeto de hidrogênio ao circular pela crosta, e bactérias usam esse composto para sustentar organismos maiores numa cadeia independente do Sol. [3]
- Fato estabelecido: O Riftia pachyptila não tem boca, olhos nem estômago e depende de bactérias quimiossintetizantes para se alimentar. [2] [4]
- Fato estabelecido: O verme abriga as bactérias em células especializadas (bacteriócitos) do trofossomo; um único filótipo, Candidatus Endoriftia persephone, domina. [4]
- Fato estabelecido: A bactéria simbionte oxida compostos inorgânicos como o sulfeto de hidrogênio para obter energia para fixar carbono pelo ciclo de Calvin. [4]
- Fato estabelecido: O Riftia cresce extraordinariamente rápido, mais de 85 cm de tubo por ano, e chega a 1,5 metro. [4]
- Fato estabelecido: A cor do trofossomo reflete o enxofre disponível: amarelo-claro com muito enxofre armazenado, escuro quando há falta. [4]
- Fato estabelecido: As chaminés formadas nas fontes são de dois tipos: fumarolas negras, de sulfeto de ferro, e fumarolas brancas, de bário, cálcio e silício. [1]
Fontes
- NOAA National Ocean Service — What is a hydrothermal vent?
consultada em 06/10/2026 - Animal Diversity Web, Universidade de Michigan — Riftia pachyptila
consultada em 06/10/2026 - Woods Hole Oceanographic Institution — 1977: Astounding Discoveries
consultada em 06/10/2026 - mBio, PubMed Central — Host-microbe interactions in Riftia pachyptila symbiosis (metaproteomics)
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria ampliada: +1 imagem(ns)
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão