Genética

Fome Holandesa de 1944–45: metilação do IGF2 em expostos no útero não é prova de herança epigenética

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Adultos concebidos durante a fome de 1944–45 nos Países Baixos tinham, seis décadas depois, 5,2% menos metilação (em termos relativos) numa região do gene IGF2 do que irmãos do mesmo sexo não expostos (Heijmans, 2008). Mas essas pessoas foram expostas elas mesmas, no útero: o estudo não mediu filhos nem netos. Herança epigenética entre gerações em humanos segue em debate, sem prova conclusiva.

Metilação do DNA é a adição de grupos metil a certas citosinas, que ajuda a regular quanto um gene é lido sem mudar a sequência. O IGF2 é um gene de crescimento com "imprinting": só a cópia herdada do pai costuma ser lida, e uma região de controle (DMR, região diferencialmente metilada) mantém isso. Entre novembro de 1944 e o início de 1945, um embargo alimentar deixou o oeste dos Países Baixos com fome; os registros de saúde seguiram intactos, o que permitiu localizar décadas depois quem nasceu de gestações expostas. A distinção central é esta: efeito em quem foi exposto no útero é uma coisa; transmissão de marcas pela linhagem germinativa a gerações que não viveram a fome é outra, bem mais difícil de provar.

A marca apareceu em bebês de peso normal

As diferenças de metilação surgiram em quem foi exposto à fome nas primeiras semanas de gestação e nasceu com peso normal. O peso ao nascer, usado em muitos estudos como medida de privação, não revelou o que o DNA mostrou.

Como sabemos: irmãos como comparação

O Hunger Winter Families Study localizou pessoas nascidas em hospitais e escolas de parteiras de Amsterdã, Roterdã e Leiden entre 1945 e o início de 1946. Cada pessoa concebida durante a fome foi comparada com um irmão do mesmo sexo não exposto, o que iguala parte do fundo genético e familiar. Mediu-se a metilação de cinco CpGs do IGF2 por espectrometria de massa, e a diferença foi de 0,488 contra 0,515. Quem foi exposto só no fim da gestação não mostrou diferença.

Efeito pequeno, causa em aberto

A diferença corresponde a cerca de meio desvio padrão e é pequena em termos absolutos. Variantes genéticas ao redor do IGF2 e a fome mostraram efeitos de tamanho parecido e somados. Os autores veem a fome como explicação compatível com o que se vê em ratos, sem descartar outros estresses. Associação, aqui, não é causa demonstrada, e os efeitos dessas mudanças sobre a saúde não são tema deste artigo.

O que seria preciso para falar em herança

Exposição direta e herança não são a mesma coisa. Gestante, feto e as células germinativas do feto são todos expostos de uma vez. Em animais, só se fala em transmissão pela linhagem germinativa ao estudar a terceira geração, no caso de uma fêmea gestante exposta. Em humanos, ambiente e cultura compartilhados não podem ser excluídos, e os estudos de avós e netos aguardam replicação. O debate segue aberto.

Limites do desenho e de outras fomes

A revisão de 2026 lembra que controles concebidos depois da fome podem trazer marcas já presentes no óvulo e que o sangue nem sempre reflete o tecido relevante. Um estudo da fome chinesa achou aumento, não queda, da metilação numa posição do IGF2, com controles mais jovens que os expostos. As divergências não derrubam o achado de 2008, mas mostram que ele ainda não virou regra geral.

Como sabemos

O resultado de 2008 e a distinção entre exposição direta e herança estão bem sustentados; o debate sobre transmissão em humanos depende de comentário e revisão críticos, e a comparação com a fome chinesa vem de segunda mão.

Em debate: Em plantas, nematódeos e moscas está documentada; em mamíferos e humanos é debatida, porque herança genética, ecológica e cultural se confundem com ela. Estudos humanos de avós e netos aguardam replicação independente.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Persistent epigenetic differences associated with prenatal exposure to famine in humans
    Heijmans, B. T.; Tobi, E. W.; Stein, A. D.; Putter, H.; Blauw, G. J.; Susser, E. S.; Slagboom, P. E.; Lumey, L. H. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0806560105
  2. PLoS ONE — Prenatal famine and genetic variation are independently and additively associated with DNA methylation at regulatory loci within IGF2/H19
    Tobi, E. W.; Slagboom, P. E.; van Dongen, J.; Kremer, D.; Stein, A. D.; Putter, H.; Heijmans, B. T.; Lumey, L. H. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0037933
  3. Nature Communications — A critical view on transgenerational epigenetic inheritance in humans
    Horsthemke, B. · 2018 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-018-05445-5
  4. Frontiers in Genetics — Epigenetic legacy of early-life undernutrition: methodological lessons from Dutch and Chinese famine studies
    Khatib, H.; Ellsworth, E.; Badhwar, N. · 2026 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fgene.2026.1804465
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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