História da Ásia
A fome de Bengala de 1943 matou de 1,5 a 3 milhões sob domínio britânico; o peso de cada causa é debatido
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Em 1943, a fome em Bengala matou de 1,5 a 3 milhões de pessoas, conforme a estimativa, numa Índia ainda sob domínio britânico. Não foi só quebra de safra. A Birmânia caíra nas mãos do Japão, o governo colonial retirou arroz e destruiu barcos no litoral, e o gabinete de guerra em Londres decidiu não desviar navios para levar grãos antes da colheita seguinte. Os historiadores concordam que a guerra desviou comida do consumo civil. Quanto pesou cada decisão, inclusive a de Churchill, segue em disputa.
A Birmânia caiu em março de 1942, e o arroz birmanês, parte pequena do consumo de Bengala, deixou de chegar. Com o medo de uma invasão japonesa, as autoridades retiraram arroz dos distritos costeiros de Midnapur, Bakerganj e Khulna e requisitaram os barcos que levavam dez pessoas ou mais, de que viviam pescadores e barqueiros. Em 16 de outubro de 1942, um ciclone devastou Midnapur. Calcutá, onde se fazia mais da metade da produção de guerra da Índia, passou à frente do resto da província: em dezembro, arroz foi requisitado à força em moinhos e armazéns da cidade. Em janeiro de 1943, o vice-rei Linlithgow contou ter dito ao primeiro-ministro de Bengala que ele tinha de produzir mais arroz para o Ceilão, mesmo que Bengala passasse falta.
As fotos que correram o mundo
Em agosto de 1943, o jornal The Statesman, de Calcutá, publicou fotografias de mortos e moribundos nas ruas, que rodaram o mundo. Por meses o mesmo jornal repetira a versão oficial de que o problema era acúmulo de arroz por comerciantes, e a censura de guerra atrasou quase 15 dias a notícia do ciclone de Midnapur até um ministro bengali.
1942: negação de arroz e de barcos
Com a Birmânia perdida e a invasão japonesa como risco, as autoridades retiraram arroz e paddy de distritos costeiros como Midnapur, Bakerganj e Khulna, e requisitaram ou destruíram barcos que levassem dez pessoas ou mais. Em Bengala, barco era meio de pesca e de transporte de grãos: a medida atingiu pescadores e barqueiros e encareceu o frete. Um historiador da Universidade do Norte de Bengala fala em mais de 26 mil barcos destruídos e 20 mil removidos, cifra que varia entre os estudos. Calcutá, polo da produção de guerra, foi tratada como prioridade.
1943: o que o gabinete de guerra decidiu
Em julho de 1943, o vice-rei Linlithgow já pedia importações com urgência. Em 31 de julho, o gabinete de guerra, mesmo ouvindo Amery, avaliou que a escassez era de acúmulo e ofereceu 50 mil toneladas de trigo como remessa simbólica, além de cevada iraquiana. Em 8 de setembro, o general Auchinleck escreveu que importar comida importava tanto quanto munição. Em 24 de setembro, o gabinete decidiu que não era possível desviar navios para grãos antes da colheita seguinte. Os papéis mostram decisões, não o que Churchill pensava dos indianos, tema que os historiadores discutem.
Quantos morreram
A Comissão de Inquérito sobre a Fome contou 1,5 milhão de mortes. Amartya Sen escreveu que o método da própria Comissão leva a cerca de 3 milhões. Roy resume a faixa em 1,5 a 3 milhões, e há quem fale em mais. Segundo cálculos de Ó Gráda a partir de Maharatna, cerca de 65% do excesso de mortes entre meados de 1943 e meados de 1944 ocorreu no leste de Bengala, hoje Bangladesh. O Instituto Estatístico Indiano, com P. C. Mahalanobis, fez um levantamento dos subdistritos mais atingidos.
O debate entre historiadores
Para Sen, a fome foi fracasso de acesso à comida, num governo que errou ao tratar a guerra como assunto de mercado. Dyson e Ó Gráda mostram que houve também queda real na oferta. Mukerjee atribui intenção ao governo imperial. Roy responde que o desvio de comida para a guerra é incontroverso, mas que a negação do governo eleito de Bengala e a quebra do comércio entre províncias pesaram muito, e lembra que não houve fome em outras partes da Índia. Os ministros e o Statesman, por meses, falaram em 'suficiência' e 'acúmulo'; a Comissão repetiu a tese.
Como sabemos
Os fatos de 1942-43 estão em fontes acadêmicas abertas, mas a mortalidade e o peso de cada causa são debatidos, e o livro de Mukerjee só foi lido por meio de Roy.
Em debate: Quantos morreram: a Comissão de Inquérito de 1945 contou 1,5 milhão; Sen recalculou para cerca de 3 milhões; Roy resume a faixa em 1,5 a 3 milhões. Registros civis e censos da época são imperfeitos.
Em debate: Falta de comida ou falta de acesso: Sen argumentou que havia comida suficiente e que a causa foi o colapso do poder de compra (especulação, inflação, falhas do governo). Dyson (2021) e Ó Gráda (2008) sustentam que houve também queda real na oferta, de extensão incerta.
Em debate: Quem foi o responsável: Mukerjee imputa intenção ao governo imperial e a Churchill; Sen aponta a apatia e a inação do governo imperial; Roy diz que o desvio de comida para a guerra é incontroverso, mas que fatores locais pesaram mais, sobretudo a negação do governo eleito de Bengala de que havia fome.
- Fato estabelecido: Rangum caiu para as forças japonesas em março de 1942, e o fornecimento habitual de arroz birmanês a Bengala, uma pequena parte do consumo total, foi cortado. [1]
- Fato estabelecido: Por conselho militar, as autoridades removeram arroz e paddy considerados excedentes de distritos costeiros como Midnapur, Bakerganj e Khulna, e requisitaram e destruíram barcos capazes de levar dez ou mais passageiros, para impedir seu uso por soldados japoneses (a 'política de negação'). [1] [5]
- Estimativa: A política de negação de barcos atingiu pescadores e barqueiros e encareceu o transporte; um estudo indiano fala em mais de 26 mil barcos destruídos e 20 mil removidos. [1] [5]
O efeito sobre pescadores e barqueiros consta em Ó Gráda; as cifras de barcos são de Bhattacharya (Universidade do Norte de Bengala) e variam entre os estudos, de modo que o post dá só a ordem de grandeza (dezenas de milhares). - Fato estabelecido: Um ciclone atingiu Midnapur em 16 de outubro de 1942 e devastou a região e parte da colheita de arroz; a notícia levou quase 15 dias para chegar a um ministro do governo bengali, por causa da censura de guerra. [1] [4]
Ó Gráda descreve o evento como 'tsunami'; Dyson e a Comissão de Inquérito o chamam de ciclone. - Fato estabelecido: Calcutá, que produzia mais da metade da produção de guerra da Índia, foi priorizada em relação ao resto da província, e em dezembro de 1942 arroz foi requisitado à força em moinhos e armazéns da cidade e de seus arredores. [1]
- Fato estabelecido: Em carta a Leo Amery de 26 de janeiro de 1943, o vice-rei Linlithgow escreveu que dissera ao primeiro-ministro de Bengala, Fazlul Huq, que ele tinha de produzir mais arroz para o Ceilão mesmo que Bengala passasse falta. [1]
Carta citada por Ó Gráda como epígrafe do artigo. - Fato estabelecido: Em 31 de julho de 1943, o gabinete de guerra, contra a posição de Amery, sustentou que a falta de grãos na Índia não era deficiência física, mas acúmulo, e ofereceu só 50 mil toneladas de trigo como remessa simbólica, mais 100 mil toneladas de cevada do Iraque. [1]
- Fato estabelecido: Em 24 de setembro de 1943, o gabinete de guerra decidiu que desviar navios para levar grãos à Índia antes da colheita seguinte não seria possível, apesar de apelos de Amery e do general Auchinleck, que em 8 de setembro escreveu que importar comida era tão importante quanto importar munição. [1]
- Estimativa: A Comissão de Inquérito sobre a Fome (1945) contou 1,5 milhão de mortes; Amartya Sen, aplicando o método da própria Comissão, chegou a cerca de 3 milhões. [5] [2]
Os dados demográficos são imperfeitos. Tirthankar Roy resume a faixa em 1,5 a 3 milhões; outros autores citam valores acima e abaixo disso, e o post usa só a faixa que as fontes abertas sustentam. - Estimativa: Cerca de 65% do excesso de mortes entre meados de 1943 e meados de 1944 ocorreu no leste de Bengala, nas divisões que hoje formam Bangladesh. [1]
Cálculo de Ó Gráda a partir de Maharatna (1996), com base em registros civis e censos imperfeitos. - Em debate: A fome ocorreu por desvio de comida do consumo civil para o consumo de guerra; quem foi o responsável pelo desvio é ponto de controvérsia. [2] [1]
Roy diz que o desvio é incontroverso, mas não a responsabilidade: historiadores populares culpam as visões racistas de Churchill; críticos destacam fatores locais, como a negação do governo eleito de Bengala de que havia fome e o colapso do comércio entre regiões. - Interpretação: Para Sen, a fome decorreu de uma falha de 'exchange entitlements' (perda do poder de compra de alimentos), com oferta de comida em 1943 superior à de 1941, ano sem fome, e foi uma 'fome de boom' ligada à inflação do gasto de guerra. [4] [3]
Tese de Amartya Sen (1976, 1981), exposta e criticada em Dyson (2021) e Roy (2016). - Em debate: Tim Dyson (2021) sustenta que são fracos os dados em que Sen se apoiou para negar uma queda na oferta de alimentos; Ó Gráda (2008) concluiu que houve de fato uma queda de disponibilidade, de extensão incerta. [4] [1]
Ó Gráda, no artigo aberto, escreve que houve um problema de disponibilidade de alimentos cuja extensão não pode ser resolvida com exatidão. - Em debate: Madhusree Mukerjee, no livro Churchill's Secret War, atribui a fome a uma intenção colonial de causar dano; Roy descreve essa leitura como uma acusação mais forte ao Raj do que a de Sen. [3]
Não abri o livro de Mukerjee; a posição é descrita por Roy (LSE, 2016). Roy e outros críticos contestam a atribuição de intenção a Churchill. - Fato estabelecido: A Comissão de Inquérito repetiu a explicação oficial de acúmulo por comerciantes, produtores e consumidores e acusou políticos e burocratas locais de incompetência. [1]
- Fato estabelecido: O Statesman, de Calcutá, publicou em agosto de 1943 fotos que fizeram manchete no mundo, depois de meses seguindo a linha oficial. [1]
- Fato estabelecido: Já em maio de 1943, o professor Radhakamal Mukherjee advertiu que não era seguro adotar visão otimista dos recursos alimentares de Bengala; uma pesquisa do Instituto Estatístico Indiano, organizada por P. C. Mahalanobis, mapeou os subdistritos mais atingidos. [1]
- Consenso científico: Não houve fome em outras partes da Índia em 1943. [2]
Afirmação de Roy: não houve fome em nenhum outro lugar da Índia; a ligação com o debate sobre a causa é dele.
Fontes
- University College Dublin (apresentado em conferência na Universidade de Warwick) — 'Sufficiency and sufficiency and sufficiency': Revisiting the Bengal Famine of 1943-44 (versão de trabalho)
consultada em 05/10/2026 - London School of Economics (LSE Research Online) — Famines in India: Enduring Lessons (Economic and Political Weekly, 56(26-27), 2021, versão aceita)
consultada em 05/10/2026 - London School of Economics and Political Science — Were Indian Famines 'Natural' Or 'Manmade'? (Economic History Working Papers 243/2016)
consultada em 05/10/2026 - London School of Economics / IUSSP — Food, Population, and Famine: Bengal 1943-44 and Bangladesh 1974-75 (IUSSP, Conferência Internacional de População, Hyderabad, 2021)
consultada em 05/10/2026 - Universidade do Norte de Bengala — The Great Famine of 1943 and North Bengal: Revisiting its Genesis and its Impact (Karatoya: NBU Journal of History, v. 14)
consultada em 05/10/2026
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