Paleontologia
Floresta petrificada do Tocantins: o que troncos de samambaias do Permiano mostram sobre plantas e clima
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
No nordeste do Tocantins, caules de plantas do Permiano ficaram preservados em sílica, com os tecidos ainda legíveis ao microscópio. Predominam samambaias arborescentes, com caules que passam de 10 m e chegam a 1,20 m de diâmetro na base. Os estudos reconstroem um clima quente e sazonal, mas divergem sobre o quanto era úmido ou árido, e a idade exata das rochas segue em discussão.
A Floresta Petrificada do Tocantins Setentrional ocorre no Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Tocantins e arredores, em Filadélfia, no sudoeste da Bacia do Parnaíba, uma grande bacia sedimentar do Brasil. As plantas estão ligadas a depósitos de rios (aluviais) da base da Formação Motuca, uma unidade de rochas sedimentares do Permiano. A palavra "madeira" simplifica: a maior parte dos fósseis são caules de samambaias arborescentes, e só uma parte dos troncos é de gimnospermas, plantas com sementes, que formam madeira com zonas de crescimento. Permineralização é o processo em que a sílica dissolvida na água preenche as células e os espaços entre elas e endurece, guardando a estrutura do tecido. O processo geral está em outro artigo do WikiMundi.
Uma samambaia que ligou Brasil, França e Alemanha
O gênero de samambaia arbórea Grammatopteris era conhecido só em Autun (França) e Chemnitz (Alemanha) até aparecer no Tocantins. Segundo o guia SIGEP, isso permitiu estudar o grupo em muito maior detalhe e sugere uma ligação entre as floras das duas regiões.
Como a sílica guardou as células
Segundo o guia SIGEP, o soterramento rápido e a silicificação impediram a decomposição, e a sílica que se infiltrou nas células formou uma matriz inorgânica que sustentou os tecidos. Por isso muitos fósseis mostram detalhes dos tecidos. O guia relata que o agente da permineralização segue obscuro, possivelmente ligado a nódulos de silcrete nos solos; isso é uma pergunta aberta, com base em informação de 2007.
Como sabemos o que eram essas plantas
O método é cortar e polir o fóssil e fazer lâminas delgadas, que são fatias de rocha finas o bastante para passar luz, em três planos. Ao microscópio aparecem o cilindro central do caule (estelo), os vasos de condução e as bases das folhas. Foi assim que um caule da fazenda Buritirana foi classificado como Grammatopteris. O limite: em geral só o xilema, tecido que conduz água, se conserva; o floema, mais frágil, costuma se perder, e as raízes ou folhas podem faltar.
Clima: sinais que não coincidem
As plantas e as rochas dão sinais diferentes. O guia SIGEP interpreta uma floresta de terras baixas, em clima quente e úmido com estações; relata que estudos de pólen sugerem clima árido a semiárido; e um artigo de 2026 descreve a Formação Motuca como de clima predominantemente desértico. Os autores do guia consideram o conflito aparente e propõem oscilações no tempo. É uma pergunta aberta, não um consenso.
Idade: como se data sem datação direta
Nas fontes lidas não há datação direta da Motuca. A idade vem de correlação: a Formação Pedra de Fogo, logo abaixo, foi proposta como Kunguriana por comparação com a Formação Irati (U-Pb em 278,4 ± 2,2 Ma) e com a floresta de Chemnitz, na Alemanha. Chemnitz foi depois datada por U-Pb em 291 ± 2 Ma, final do Sakmariano. Isso deixa abertas as idades obtidas por esse caminho, e já se propuseram idades do Mesopermiano ao Triássico para a Motuca.
Elos com a floresta alemã
O guia SIGEP (2007) vê a floresta como elo entre as floras euroamericana e gondvânica e a chama de a mais importante floresta petrificada permiana tropical-subtropical do Hemisfério Sul; é avaliação dos autores. Grammatopteris, antes só de Autun e Chemnitz, aparece no Tocantins, e um estudo de 2020 diz que as floras de Chemnitz e da Pedra de Fogo dividem ao menos três gêneros de samambaias.
Como sabemos
Fontes institucionais e artigo de periódico concordam no essencial, mas o guia SIGEP é de 2007, um dos estudos é de outra área da bacia e clima e idade são debatidos.
Em debate:
Em debate:
- Fato estabelecido: A Floresta Petrificada do Tocantins Setentrional ocorre no Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Tocantins e arredores, em Filadélfia, no nordeste do estado, no sudoeste da Bacia do Parnaíba. [1] Resumo (p. 1)
Contexto: Descrição do sítio no guia SIGEP 104, publicado em 2007. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os vegetais são abundantes, foram permineralizados por sílica e estão preservados em três dimensões; aparecem rolados na superfície ou em quartzo-arenitos e pelitos. [1] Resumo (p. 1)
Contexto: Material da base da Formação Motuca no Monumento e arredores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Caules com mais de 10 m de comprimento e até 1,20 m de diâmetro na base são comuns na floresta petrificada. [1] Resumo (p. 1)
Contexto: Medidas dos autores do guia SIGEP em caules do Monumento e arredores; são fósseis frequentemente fragmentados. · Limitações: O guia também diz que os grandes caules são frequentemente fragmentados; o comprimento original de cada planta é inferido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Entre os caules destacam-se samambaias arborescentes dos gêneros Tietea, Psaronius, Grammatopteris e Dernbachia; Tietea e Psaronius são os elementos dominantes e maiores. Há ainda esfenófitas arborescentes e caules de gimnospermas. [1] Resumo (p. 1) [2] Introdução
Contexto: Composição florística da base da Formação Motuca na área do Monumento. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: A sílica infiltrou-se nas células e nos espaços entre elas e formou uma matriz inorgânica que sustentou os tecidos; o soterramento rápido seguido de silicificação impediu a decomposição das plantas. [1] seção A Floresta Petrificada do Tocantins no MNAFTO
Contexto: Explicação dos autores do guia SIGEP para a preservação desta floresta. · Limitações: É a reconstrução do processo feita pelos autores, não uma observação direta; o agente da silicificação segue incerto (a6). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: O agente que provocou a permineralização por sílica nesta floresta ainda é desconhecido; os autores do guia SIGEP apontam como possibilidade a formação de nódulos de silcrete (crostas silicosas) nos solos. [1] seção A Floresta Petrificada do Tocantins no MNAFTO
Contexto: Estado do conhecimento em 2007. · Limitações: Fonte com 19 anos. · O guia SIGEP, de 2007, diz que o agente permanece obscuro; a questão pode ter avançado desde então e não foi verificada em literatura posterior. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Para ver a anatomia interna, os pesquisadores cortam e polem o fóssil e preparam lâminas delgadas em três planos (transversal, longitudinal radial e tangencial). Mesmo em fósseis muito bem preservados, tecidos frágeis como o floema geralmente não sobrevivem. [2] Resultados e discussão, Descrições anatômicas
Contexto: Método descrito para um caule de Grammatopteris da fazenda Buritirana; a segunda frase é afirmação geral que o artigo atribui a Beck, Schmid e Rothwell (1982), fonte que não lemos. · Limitações: Estudo de um único espécime; a afirmação sobre o floema é de segunda mão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores do guia SIGEP interpretam que a floresta ocupou terras baixas sob clima quente e úmido, com variação sazonal. [1] Resumo (p. 1)
Contexto: Interpretação baseada nas plantas fósseis (paleobotânica); o próprio guia registra que estudos de pólen indicam clima mais seco (a9). · Limitações: Contestada em parte por outras linhas de evidência (a9). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: O clima da floresta é tema de divergência: estudos de pólen sugerem clima quente árido a semiárido, enquanto as análises paleobotânicas indicam condições quentes e úmidas; outro trabalho descreve o clima da Formação Motuca como predominantemente desértico, e um estudo da Formação Pedra de Fogo no Piauí cita ambiente em boa parte úmido, com eventos secos de vários anos. Os autores do guia SIGEP propõem que houve oscilação climática. [1] Discussões, item d [2] Introdução [3] Discussion
Contexto: Os autores do guia SIGEP afirmam que o conflito é aparente e deve desaparecer com mais estudo estratigráfico; essa expectativa é deles. · Limitações: Os textos tratam de recortes e níveis diferentes da sucessão de rochas e de lugares diferentes (o estudo do Piauí é de outra área da bacia); o clima pode ter mudado ao longo do tempo. · Divergência registrada na literatura entre palinologia e paleobotânica, e entre interpretações do clima (úmido com secas, semiárido, desértico). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: A idade exata das formações Pedra de Fogo e Motuca é debatida: já foram atribuídas à Formação Motuca idades do Mesopermiano ao Triássico, e a escassez de bons fósseis-guia dificulta a datação dessas rochas. [1] Contexto geológico local [2] Introdução
Contexto: Debate registrado em 2007 (SIGEP) e retomado no artigo de 2026; a atribuição dos fósseis à Formação Motuca é a adotada em f1 e f2, não é unânime. · Limitações: Não buscamos datação mais recente; não há datação radiométrica citada nas fontes lidas. · Divergência registrada na literatura sobre o posicionamento cronoestratigráfico; os autores do guia SIGEP sugerem idade do Kunguriano ao Mesopermiano, mas apresentam como sugestão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Não há, nas fontes lidas, datação direta das rochas com as plantas: a idade da Formação Pedra de Fogo, logo abaixo da Motuca, foi proposta como Kunguriano por correlação com a Formação Irati (datada por U-Pb em 278,4 ± 2,2 Ma) e com a floresta petrificada de Chemnitz, na Alemanha; Chemnitz foi depois datada por U-Pb em 291 ± 2 Ma (final do Sakmariano). [3] Introduction (geological setting)
Contexto: Estudo de répteis da Formação Pedra de Fogo no Piauí (Cisneros et al., 2020); não trata diretamente da Formação Motuca no Tocantins. · Limitações: Que a correlação com Chemnitz fica em aberto depois da nova datação é inferência nossa, não frase da fonte; a idade da Motuca em si segue debatida (a10). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo o guia SIGEP, a presença de Grammatopteris no Tocantins, até então conhecido apenas em Autun (França) e Chemnitz (Alemanha), permitiu estudar esse táxon em muito maior detalhe; o estudo de Rössler (2006) comparou a floresta de Chemnitz com a do Tocantins. [1] Importância e significado do MNAFTO [3] Introduction (geological setting)
Contexto: Situação em 2007; a segunda frase resume o que o guia diz sobre um trabalho que não lemos diretamente. Um estudo de 2020 (f4) diz que as floras de Chemnitz e da Formação Pedra de Fogo mostram abundância de samambaias arborescentes marattiales e dividem ao menos três gêneros. · Limitações: Fonte de 2007; o gênero pode ter sido registrado em outros lugares depois. A comparação com Rössler (2006) é de segunda mão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores do guia SIGEP (2007) consideram a floresta a mais importante floresta petrificada permiana tropical-subtropical do Hemisfério Sul, em posição de transição entre as províncias de plantas euroamericana e gondvânica. [1] Importância e significado do MNAFTO
Contexto: Avaliação dos autores em 2007, não um ranking oficial. · Limitações: Superlativo atribuído e datado (2007); não existe ranking mundial verificado em fonte independente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A área é protegida desde a Lei Estadual 1.179/2000, que criou uma unidade de conservação de proteção integral, instituída pelo Naturatins, depois de a floresta sofrer, nos anos 2000, com o contrabando de fitofósseis. [2] Introdução
Contexto: Descrição do artigo de 2026; o guia SIGEP (2007) data a lei de outubro de 2000. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- SIGEP / Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil — Floresta Petrificada do Tocantins Setentrional - O mais exuberante e importante registro florístico tropical-subtropical permiano no Hemisfério Sul (SIGEP 104)
Dias-Brito, D.; Rohn, R.; Castro, J. C.; Dias, R. R.; Rössler, R. · 2007 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Desafios - Revista Interdisciplinar da Universidade Federal do Tocantins — Novo registro do gênero Grammatopteris Renault, 1891, para o Monumento Natural das Árvores Fossilizadas do Estado do Tocantins, Permiano, Bacia do Parnaíba
Carlos, C. W.; Oliveira, E. F. P. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.20873/vol13n3pibic202536 - PeerJ, v. 8, e8719 — Captorhinid reptiles from the lower Permian Pedra de Fogo Formation, Piauí, Brazil: the earliest herbivorous tetrapods in Gondwana
Cisneros, J. C. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.8719
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 17; conferência de trechos automatizada)