Botânica

Flores de morcegos: abrem à noite, ficam longe das folhas e, em algumas, o cheiro vem de enxofre

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Flores polinizadas por morcegos costumam abrir à noite e ficar afastadas das folhas, em ramos, troncos ou hastes pendentes; são esses dois traços que mais as unem. O resto varia: cor discreta, cheiro mofado (às vezes com compostos de enxofre) e muito néctar. Algumas também devolvem ao sonar do morcego um eco forte e reconhecível. É um padrão de tendências, não uma regra sem exceções.

Os botânicos chamam de síndrome de polinização o conjunto de características que se repete nas flores atendidas por um mesmo tipo de visitante. A da quiropterofilia (do grego "amor aos morcegos") foi descrita a partir de morcegos grandes, que não pairam no ar, e se aplica menos às Américas, onde morcegos pequenos pairam diante da flor. Antese é a abertura da flor; ela é noturna porque o visitante é. Cauliflora é a flor que nasce direto no tronco ou nos ramos; flagelifloria, a que pende em hastes longas. Néctar rico em hexoses é o rico em açúcares simples, como glicose e frutose. Morcegos polinizadores enxergam pouca cor e se orientam por cheiro e, em alguns casos, por eco, o que explica boa parte do conjunto.

Uma flor da Mata Atlântica que atende de dia e de noite

Callianthe sellowiana, de altitude no Itatiaia, tem cheiro de repolho ao entardecer, corola mais larga à noite e é polinizada por morcego e por beija-flores, com efeito parecido sobre frutos e sementes.

Horário e posição: o que une

Segundo a revisão de Fleming, Geiselman e Kress (2009), só dois traços são quase universais: a flor ficar longe da folhagem (em ramos, no tronco ou pendente) e abrir à noite. A posição ajuda tanto o morcego que enxerga quanto o que usa sonar a achar, chegar e sair da flor. O resto muda de uma espécie para outra, inclusive a abertura noturna: flores de Burmeistera ficam abertas por até três dias.

Cheiro: do mofo ao enxofre

O cheiro típico é mofado. Compostos de enxofre, raros em flores em geral, apareceram várias vezes em flores de morcego sem parentesco próximo nas Américas. Em testes, Glossophaga soricina, sem nunca ter ganhado recompensa, preferiu o dissulfeto de dimetila a outros componentes e a controles sem cheiro; os autores consideram a preferência provavelmente inata. A cor, ao contrário, importa menos: muitas flores são discretas, possivelmente por camuflagem.

Eco: a flor que se anuncia ao sonar

Além do cheiro, algumas plantas devolvem eco forte. Na Marcgravia evenia, uma folha em prato sobre as flores funciona como baliza e reduziu à metade o tempo de busca dos morcegos. Em Mucuna holtonii, segundo a revisão de Fleming, a flor virgem, mais rica em néctar, devolve ecos por um ângulo maior. Como o morcego ouve o eco está nos posts sobre ecolocalização; aqui interessa a flor como alvo.

Como sabemos, e onde a regra falha

A síndrome vem de comparações entre espécies; os efeitos de cada traço vêm de testes com flores artificiais e animais cativos. Em gaiola de voo, o cheiro pesou mais que a forma quando havia folhas ao fundo. Medir 12 espécies mostrou eco mais forte nas de morcego, mas sem assinatura comum. E há exceções: no Itatiaia, uma flor de cheiro de repolho é polinizada por morcego e beija-flores com efeito parecido sobre frutos e sementes.

Como sabemos

A síndrome vem de uma revisão revisada por pares e os testes de cheiro e eco têm estudos próprios, mas o resultado do eco da Mucuna é de segunda mão e vários estudos foram lidos só no resumo.

Fontes

  1. Annals of Botany — The evolution of bat pollination: a phylogenetic perspective
    Fleming, T. H.; Geiselman, C.; Kress, W. J. · 2009 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcp197
  2. Journal of Comparative Physiology A — Sulphur-containing "perfumes" attract flower-visiting bats
    von Helversen, O.; Winkler, L.; Bestmann, H. J. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1007/s003590050014
  3. Science — Floral acoustics: conspicuous echoes of a dish-shaped leaf attract bat pollinators
    Simon, R.; Holderied, M. W.; Koch, C. U.; von Helversen, O. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1204210
  4. PLoS Computational Biology — Acoustic traits of bat-pollinated flowers compared to flowers of other pollination syndromes and their echo-based classification using convolutional neural networks
    Simon, R.; Bakunowski, K.; Reyes-Vasques, A. E.; Tschapka, M.; Knörnschild, M.; Steckel, J.; Stowell, D. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. PLoS ONE — The Complexity of Background Clutter Affects Nectar Bat Use of Flower Odor and Shape Cues
    Muchhala, N.; Serrano, D. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  6. Ecology and Evolution — Mixed Bat-Hummingbird Pollination Assures Reproductive Success in a Highly Variable Upper Montane Species
    Paglia, I.; Coimbra, G.; Freitas, L. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)

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