Botânica

Flores com cheiro de carne podre: sulfetos voláteis e calor atraem moscas e besouros

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Flores "cadavéricas" liberam sulfetos voláteis, como o dissulfeto e o trissulfeto de dimetila, típicos de carne em decomposição. Na titã (Amorphophallus titanum), esses compostos são os principais do odor, e os polinizadores nativos são besouros e moscas de carniça. No arum-cavalo-morto, o calor do apêndice atrai moscas, e elas, sem receber recompensa, levam o pólen. A imitação é química e térmica, não visual.

Voláteis são compostos que passam facilmente ao ar e, por isso, chegam ao nariz de um inseto à distância. Sulfetos de dimetila contêm enxofre e aparecem quando proteínas se decompõem, daí o cheiro de carniça. Termogênese é a produção de calor pela própria planta: nas aráceas, parte da energia da respiração é desviada da produção de ATP e sai como calor. Espádice é a haste carnuda onde ficam as flores; o apêndice é a ponta dela; espata é a folha modificada que a envolve. O que mais interessa aqui é a polinização por engano: a flor não paga o visitante com néctar, apenas parece algo que ele procura. Este texto trata de moscas e besouros atraídos por carniça; a imitação do cheiro da fêmea por orquídeas é outro caso.

O cheiro forte vem de quantidades pequenas

Para o nariz humano esses odores são fortes, mas segundo uma revisão sobre Jaborosa eles raramente são registrados em grande quantidade nas flores, o que sugere que as moscas são muito sensíveis a essas substâncias.

O que compõe o cheiro de carniça

No odor da titã, os principais compostos são o dissulfeto e o trissulfeto de dimetila, moléculas com enxofre que também surgem quando proteínas apodrecem. Em Jaborosa, planta andina sem parentesco próximo com a titã, a maioria das espécies visitadas por moscas emitiu os mesmos dois compostos. Que grupos tão distantes cheguem a misturas parecidas sugere, como interpretação, que a semelhança surgiu de forma independente. Na titã, a análise de 2024 também apontou putrescina, mas a inclusão dela no odor ainda precisa de testes com os insetos.

Por que a flor esquenta

Termogênese é a produção de calor pela própria flor. Na titã, o apêndice chegou a cerca de 11 °C acima da sala, e os genes mais ativos eram os que desviam a respiração da mitocôndria para liberar energia como calor. A hipótese do estudo é que o calor espalha o cheiro. Em Helicodiceros o papel foi testado com moscas: o calor ajuda a atraí-las ao apêndice. Em geral, porém, a revisão de 2019 diz que testes formais dessa função adaptativa faltam.

Como sabemos: o que foi medido e o que foi inferido

Há três tipos de evidência. O cheiro da titã foi identificado por análises químicas citadas no estudo e a produção dele foi inferida de genes e aminoácidos de plantas de estufa, sobretudo de um exemplar. O efeito do calor sobre moscas foi testado em Helicodiceros, ao alterar calor e odor da planta e observar as moscas. O padrão comparado entre grupos vem da literatura. Falta, para a titã, um teste que separe calor, cheiro e cor na atração de besouros e moscas na natureza.

Como sabemos

Os sulfetos e a termogênese da titã vêm de um estudo de 2024 lido na íntegra, mas feito em poucas plantas de estufa; o efeito do calor sobre as moscas vem só do resumo do estudo de Angioy e colegas.

Fontes

  1. PNAS Nexus — Molecular basis for thermogenesis and volatile production in the titan arum
    Zulfiqar, A. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/pnasnexus/pgae492
  2. Proceedings of the Royal Society B (Biology Letters) — Function of the heater: the dead horse arum revisited
    Angioy, A. M.; Stensmyr, M. C.; Urru, I.; Puliafito, M.; Collu, I.; Hansson, B. S. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2003.0111
  3. Plants (Basel) — Floral Scent Evolution in the Genus Jaborosa (Solanaceae): Influence of Ecological and Environmental Factors
    Moré, M. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/plants10081512
  4. Plants (Basel) — Labellum Features and Chemical Composition of Floral Scent in Bulbophyllum carunculatum Garay, Hamer & Siegerist
    Stpiczyńska, M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/plants12071568
  5. Annals of Botany — The thermal ecology of flowers
    Kuhn, B. et al. · 2019 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcz073
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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