Grandes descobertas
Ferrugem-asiática da soja: do Paraguai, em 2001, a mais de 90% da área do Brasil em 2002/03
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
A ferrugem-asiática foi confirmada no continente americano em 5 de março de 2001, no Paraguai, e em maio do mesmo ano no Paraná. Os esporos de Phakopsora pachyrhizi viajam pelo vento: a doença estava em cerca de 60% do Brasil na safra 2001/02 e em mais de 90% da área em 2002/03, segundo a Embrapa Soja. O DNA de 26 lavouras sugere várias introduções independentes; a rota exata segue hipótese.
A ferrugem-asiática é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, registrado pela primeira vez no Japão, em 1902. Uma espécie aparentada, P. meibomiae, é nativa das Américas e causa danos bem menores à soja; por isso, relatos de ferrugem nas Américas anteriores a 2001 são atribuídos a ela. O P. pachyrhizi forma nas folhas uredósporos, esporos assexuais que o vento carrega. A pergunta é quando e como ele chegou e se firmou nas lavouras brasileiras. A resposta tem uma parte documentada, a das datas e da expansão, e outra ainda em discussão, a da origem das populações que chegaram.
A doença que ninguém reconheceu
No oeste do Paraná, em 2001, a ferrugem não foi vista na safra de verão. Os autores da Embrapa atribuem a falha, provavelmente, à semelhança com doenças de fim de ciclo; ela só apareceu em soja de safrinha.
Como se soube que era a espécie asiática
Em maio de 2001, folhas com esporulação foram coletadas em dois pontos do Paraguai e dois do Paraná e enviadas ao serviço de pesquisa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA/ARS). A análise de DNA, comparada à de P. meibomiae, mostrou que o surto era da espécie asiática. O argumento climático ajudou: a doença ocorria em regiões quentes, onde a espécie nativa, mais fraca, não costumava causar dano. O documento resume o resultado e não detalha a técnica.
Uma chegada ou várias?
Freire e colegas sequenciaram o marcador ITS em 26 lavouras brasileiras, amostradas em 2005/06, e compararam com 13 sequências antigas do GenBank, da Ásia, Austrália e Zimbábue. Variantes comuns no Brasil aparecem também fora, e as raras ficam em uma lavoura ou em vizinhas. Os autores leem isso como sinal de entradas sucessivas, e não de uma só. É uma inferência de um marcador curto; eles mesmos pedem amostras asiáticas mais recentes.
O que os esporos no ar mostram
Em Campo Mourão (PR), coletores de esporos ficaram no campo de dezembro de 2006 a março de 2008. Os esporos apareceram em dezembro, antes das lesões, cresceram com a doença e sumiram de junho a início de dezembro de 2007, com a soja colhida. A quantidade de esporos acompanhou a severidade e a chuva, mas isso é correlação. É um retrato de um local; a Embrapa cita soja voluntária e de safrinha como fontes de inóculo em outras regiões.
Como sabemos
Datas, extensão e perdas vêm de um documento da Embrapa Soja de 2004 (estimativas) e a origem das populações é inferência de um marcador só, apresentada como hipótese.
- Fato estabelecido: A ferrugem-asiática foi identificada pela primeira vez no continente americano em 5 de março de 2001, no Paraguai, e em 26 a 28 de maio de 2001 no oeste e norte do Paraná. [4] Safra 2000/01
Contexto: Paraguai (Itapúa) e Paraná, 2001. · Limitações: "Continente Americano" é a expressão da fonte; a revisão de Goellner et al. registra um achado anterior no Havaí, em 1994, que é um arquipélago do Pacífico, não o continente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Em 2001 a doença não havia sido notada nas lavouras de verão do oeste do Paraná, provavelmente porque os sintomas lembram os de doenças de fim de ciclo. [4] Safra 2000/01
Contexto: Oeste do Paraná, safra 2000/01. · Limitações: A explicação é um "provavelmente" dos autores, não foi testada. · Explicação plausível dos autores da Embrapa, sem teste. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Análises de DNA de quatro amostras (duas do Paraguai, duas do Paraná) confirmaram que o surto de 2001 era da espécie asiática, P. pachyrhizi, e não de P. meibomiae. [4] Safra 2000/01
Contexto: Amostras coletadas em maio de 2001 e analisadas no USDA/ARS, nos Estados Unidos. · Limitações: Quatro amostras apenas; o documento resume o resultado sem detalhar o método de DNA. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Antes do P. pachyrhizi, a ferrugem causada pela espécie nativa P. meibomiae existia nas Américas desde os anos 1970, mas só virou problema grave após a invasão da espécie asiática. [1] Introduction
Contexto: América Central e do Sul. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Na safra 2001/02 a ferrugem já estava em quase toda a região produtora do Paraguai e em cerca de 60% do Brasil; em 2002/03 atingiu mais de 90% da área de produção brasileira. [4] Introdução
Contexto: Brasil e Paraguai, safras 2001/02 e 2002/03. · Limitações: Percentuais de área estimados pelos autores da Embrapa Soja a partir de levantamentos de campo. · Estimativas de levantamento da Embrapa Soja, publicadas em 2004. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: As perdas de grãos atribuídas à ferrugem no Brasil somaram mais de 8,5 milhões de toneladas, o equivalente a US$ 2,06 bilhões, entre as safras 2001/02 e 2003/04. [4] Introdução
Contexto: Brasil, três safras; valores em dólares da época. · Limitações: Estimativa da Embrapa Soja (Yorinori e colegas). A revisão de Goellner et al. (2010) cita US$ 2 bilhões de perdas "para 2003", número que não coincide com o da Embrapa para a safra 2002/03 (US$ 737,4 milhões); adotamos o documento da Embrapa por detalhar safra a safra. · Os dois documentos divergem na atribuição do período; usamos o de maior detalhe. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os esporos do P. pachyrhizi (uredósporos) saem das pústulas e são levados pelo vento; segundo a Embrapa, não são transmitidos pela semente, por restos de cultura ou pelo farelo de soja. [1] Life cycle [4] Introdução
Contexto: Biologia geral da espécie. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Para a chegada à América do Sul, a Embrapa supõe que esporos tenham atravessado o Atlântico vindos do sul da África, ou, talvez mais provavelmente, vindos da Austrália pelas correntes de ar do Pacífico; é uma suposição, não uma rota demonstrada. [4] Sintomas e disseminação [2] Discussion
Contexto: Origem das primeiras populações sul-americanas. · Limitações: As duas fontes divergem sobre o ponto de partida (África ou Austrália); nenhuma demonstra a rota. · Hipótese de rota; nenhuma das fontes a demonstra. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 26 lavouras brasileiras e uma sul-africana, a região ITS do DNA ribossômico do fungo mostrou 27 e 19 variantes (ribótipos) nas duas porções analisadas, ITS1 e ITS2. [2] Resumo
Contexto: Amostras da safra 2005/06; ITS é um trecho de DNA que costuma servir de marcador entre espécies e populações. · Limitações: ITS é um único marcador, que não sofre seleção forte mas diz pouco sobre o genoma inteiro. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: As variantes mais comuns no Brasil ocupam posições centrais nas redes genealógicas e aparecem também na África e na Ásia; as raras no Brasil seriam locais. [2] Resumo
Contexto: 26 lavouras brasileiras amostradas em 2005/06, comparadas com 13 sequências do GenBank (1972 a 2000). · Limitações: As referências asiáticas e africanas eram poucas e antigas; os autores dizem que amostras mais recentes da Ásia e da Austrália são necessárias para confirmar. · Leitura dos autores a partir de uma teoria de genealogia de genes; depende da amostragem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores concluem que um único evento de dispersão a longa distância não combina com a distribuição da diversidade genética: o padrão sugere múltiplas introduções independentes. [2] Resumo
Contexto: Populações brasileiras de P. pachyrhizi, dados de 2005/06. · Limitações: Estudo de um só marcador e de uma safra; o próprio texto fala em "sugerem". · Inferência de um estudo; precisa de genomas completos e amostras de várias épocas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A diversidade de ribótipos no Brasil foi considerada surpreendentemente alta para um fungo recém-chegado e, até onde se sabe, sem fase sexual observada em campo. [2] Discussion [1] Life cycle
Contexto: Fungo da ferrugem da soja. · Limitações: O ciclo sexual do P. pachyrhizi segue pouco conhecido; ausência de observação não prova ausência de sexo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Campo Mourão (PR), coletores de esporos registraram os primeiros uredósporos em 8 de dezembro de 2006 e em 11 de dezembro de 2007, antes das primeiras lesões nas folhas. [3] Discussão
Contexto: Campo Mourão, oeste do Paraná, safras 2006/07 e 2007/08. · Limitações: Um único local e duas safras. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: De junho a início de dezembro de 2007, com a soja colhida, os coletores de Campo Mourão não registraram esporos; a quantidade de esporos no ar acompanhou a presença de soja na lavoura. [3] Discussão
Contexto: Campo Mourão (PR), 2007. · Limitações: No Brasil central, a Embrapa aponta soja voluntária e de safrinha como fontes contínuas de inóculo; a ausência de esporos no Sul do Paraná não vale para todo o país. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nas duas safras estudadas, o número de esporos coletados correlacionou-se positivamente com a severidade da ferrugem e com a chuva; é correlação, e o texto cita a chuva como fator provável. [3] Resultados
Contexto: Campo Mourão e Luiziana (PR). · Limitações: Correlação não é causa: esporos e doença crescem juntos por vários fatores ao mesmo tempo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Molecular Plant Pathology — Phakopsora pachyrhizi, the causal agent of Asian soybean rust
Goellner, K.; Loehrer, M.; Langenbach, C.; Conrath, U.; Koch, E.; Schaffrath, U. · 2010 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/j.1364-3703.2009.00589.x - Genetics and Molecular Biology — Evolutionary history of Phakopsora pachyrhizi (the Asian soybean rust) in Brazil based on nucleotide sequences of the internal transcribed spacer region of the nuclear ribosomal DNA
Freire, M. C. M.; Oliveira, L. O.; Almeida, A. M. R.; et al. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/s1415-47572008005000026 - Summa Phytopathologica — Progress of Asian soybean rust and airborne urediniospores of Phakopsora pachyrhizi in southern Brazil
Nascimento, J. F.; Vida, J. B.; Tessmann, D. J.; Zambolim, L.; Vieira, R. A.; Oliveira, R. R. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/s0100-54052012000400002 - Embrapa Soja — Ferrugem "asiática" da soja no Brasil: evolução, importância econômica e controle (Documentos 247)
Yorinori, J. T.; Nunes Junior, J.; Lazzarotto, J. J. · 2004 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)