Astronomia

Ferro-60 no fundo do mar: átomos de um isótopo radioativo apontam supernovas de 2 a 3 milhões de anos atrás

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

O ferro-60 é um isótopo radioativo (meia-vida de cerca de 2,6 milhões de anos) feito sobretudo em estrelas massivas e lançado em supernovas. Não se forma na Terra, e o que existia na origem do planeta já decaiu. Átomos dele em crostas e sedimentos marinhos de cerca de 1,7 a 3,2 milhões de anos indicam supernovas a dezenas de parsecs.

Um isótopo é uma versão de um elemento com número de nêutrons diferente; o ferro-60 (60Fe) tem 26 prótons e 34 nêutrons e decai por radioatividade. Meia-vida é o tempo em que metade dos átomos decai. Como é curta perto da idade da Terra (4,5 bilhões de anos), todo 60Fe primordial sumiu: o que se acha no fundo do mar chegou depois. As estrelas o produzem em camadas internas e em parte durante a explosão; poeira interestelar carrega esses átomos até o Sistema Solar, e eles caem no oceano. Um parsec equivale a cerca de 3,26 anos-luz. As crostas de ferro e manganês crescem milímetros por milhão de anos e guardam o registro.

Cerca de 60 gramas em 33 mil anos

Com 19 átomos de 60Fe contados em cinco amostras de sedimento, Wallner e colegas estimaram que cerca de 60 g de 60Fe interestelar chegaram à Terra inteira nos últimos 33 mil anos, supondo distribuição uniforme.

Como sabemos: da crosta ao átomo

O 60Fe é separado do ferro das amostras por química seletiva e medido por espectrometria de massa com acelerador. O desafio é o níquel-60, de mesma massa: o acelerador e um ímã o separam e um detector conta cada átomo. Para a idade, usam-se taxas de sedimentação, magnetoestratigrafia e o berílio-10, outro radioisótopo. Sedimentos dão resolução melhor que crostas, e foi assim que o pico perto de 2,2 milhões de anos apareceu.

O que o sinal diz sobre a distância

A quantidade depositada depende da massa de 60Fe ejetada, da fração que vira poeira, da que atravessa o Sistema Solar e da distância. Por isso as fontes dão faixas largas: algumas dezenas de parsecs em 2004, até 100 parsecs em 2016. Nenhuma das fontes lidas dá a posição exata de uma explosão. O sinal prova que houve enriquecimento recente por estrelas massivas; a localização depende de modelos.

Onde entra a Bolha Local

O Sol está numa cavidade de gás rarefeito, a Bolha Local, que Wallner e colegas (2016) atribuem a várias supernovas dos últimos cerca de 14 milhões de anos. Os dois pulsos de 60Fe (1,5–3,2 e 6,5–8,7 milhões de anos) são mais recentes que esse início, então o intervalo é compatível com explosões na vizinhança. Nenhuma fonte lida amarra um pulso a uma explosão ou a um aglomerado de estrelas específico; essa ligação é inferência de cronologia, não resultado medido.

Eco recente e limites

Wallner e colegas (2020) acharam um influxo baixo e contínuo nos últimos 33 mil anos e o leem como possível eco tardio de supernovas antigas, ainda na poeira interestelar. É uma hipótese. Ela mostra que a Terra recebe 60Fe também agora, mas não ajuda a datar as explosões. Tampouco aqui se discutem efeitos sobre o clima ou a vida: as fontes lidas não os estabelecem.

Como sabemos

Os números e as datas vêm de três artigos lidos na íntegra (dois da PNAS e o manuscrito de Wallner 2016) e de resumos da Physical Review Letters e da Nature; a associação com supernovas específicas e com a Bolha Local é inferência.

Em debate: A leitura dominante nas fontes é a de poeira de supernovas (f1, f3, f4), mas f3 registra que o excesso já foi atribuído a micrometeoritos; f4 mostra que fontes interplanetárias não bastam para o influxo recente.

Fontes

  1. Nature 532, 69-72 (manuscrito aceito, PMC) — Recent near-Earth supernovae probed by global deposition of interstellar radioactive 60Fe
    Wallner, A. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature17196
  2. Physical Review Letters 93, 171103 (resumo no PubMed) — 60Fe anomaly in a deep-sea manganese crust and implications for a nearby supernova source
    Knie, K.; Korschinek, G.; Faestermann, T.; Dorfi, E. A.; Rugel, G.; Wallner, A. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevLett.93.171103
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences (PMC) — Time-resolved 2-million-year-old supernova activity discovered in Earth's microfossil record
    Ludwig, P. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1601040113
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (PMC) — 60Fe deposition during the late Pleistocene and the Holocene echoes past supernova activity
    Wallner, A. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1916769117
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos