Biologia
Feromônios humanos: por que os quatro candidatos mais famosos não cumprem os critérios de identificação
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Comunicação animal
A ciência não demonstrou feromônios em pessoas. Androstenona, androstenol, androstadienona e estratetraenol, os quatro candidatos mais citados, nunca passaram pelo caminho que identificou feromônios em outros animais: resposta medida em bioensaio, molécula isolada e confirmação em concentração natural. Segundo a revisão de Wyatt (2015), resultados positivos com elas têm grande chance de ser falsos positivos. Se humanos têm feromônios, isso segue sem resposta.
Feromônio é um sinal químico que evoluiu para comunicar membros da mesma espécie e provoca uma reação específica, como um comportamento ou uma mudança no desenvolvimento. Não é o cheiro individual que permite reconhecer uma pessoa: é uma molécula, ou mistura, característica de todos os machos, ou de todas as fêmeas, de uma espécie. Há feromônios bem estabelecidos em mamíferos, como coelhos, camundongos e cabras, e humanos são mamíferos, então a hipótese é razoável. O problema está nas moléculas escolhidas e no método: os testes com esteroides das axilas partiram de suposições, não de um bioensaio que apontasse essas substâncias. O método de identificação aparece no post sobre o bombicol, o primeiro feromônio de inseto identificado.
Dois estudos, o mesmo estímulo
No estudo de 2017, androstadienona e estratetraenol foram dissolvidos em óleo de cravo, que mascara o cheiro, e comparados a óleo de cravo puro. Nem os julgamentos de gênero nem os de atratividade mudaram.
Como se prova um feromônio: o exemplo das cabras
O método vem do primeiro feromônio de inseto identificado: mostrar uma resposta repetível num bioensaio, isolar e sintetizar a molécula e confirmar que ela, em concentração natural, reproduz a resposta. Em cabras, pesquisadores compararam secreções de machos inteiros e castrados, reconstituíram uma mistura de 18 moléculas e identificaram o 4-etiloctanal, que reproduziu a maior parte da atividade (Wyatt 2015, descrevendo Murata et al.). O bioensaio é o passo que falta aos esteroides humanos.
De onde vieram os quatro candidatos
Androstenona e androstenol foram testados desde a década de 1970 porque são esteroides com efeito em porcos e aparecem na axila humana; Wyatt supõe que a venda de androstenona em aerossol para criadores facilitou a escolha. Androstadienona e estratetraenol vieram de uma comunicação de 1991, em congresso patrocinado por uma empresa interessada em feromônios humanos, que não detalhou como as moléculas foram obtidas; uma patente posterior da empresa tratava de composições de fragrância. Para Wyatt, nada disso é um bioensaio.
Por que um resultado positivo não basta
Sem razão prévia para esperar efeito, estudos pequenos que acham algo significativo tendem a superestimar o efeito, e os negativos ficam na gaveta. Wyatt conta mais de 40 artigos desde 2000. No experimento de 2017 (46 e 94 participantes, duplo-cego, 500 µM das substâncias em óleo de cravo), nenhum julgamento mudou. A concentração, muito acima da das axilas, é a padrão do campo. Os autores admitem baixo poder na tarefa de gênero e reconhecem estudos anteriores com resultado diferente.
O que fica em aberto
Wyatt e Loos et al. não descartam a hipótese: dizem que o caminho seguido não a testa. A pista mais promissora é a secreção areolar de mães que amamentam, que faz bebês procurarem o mamilo, mas a molécula não foi identificada. A sincronia menstrual, citada por anos como exemplo, teve replicação inconsistente. Cheiros individuais, como os usados no reconhecimento de parentes ou na escolha de parceiros, são outro fenômeno: variam de pessoa para pessoa e não são feromônios.
Como sabemos
Três fontes abertas, lidas na íntegra, concordam quanto à falta de evidência; os detalhes históricos vêm da leitura de Wyatt, sem conferência nos trabalhos originais.
Em debate:
- Evidência forte: Segundo a revisão de Wyatt (2015), não há evidência robusta, obtida por bioensaio, de que androstenona, androstenol, androstadienona e estratetraenol sejam feromônios humanos. [1] Abstract
Contexto: Vale para as quatro moléculas esteroides citadas, até a data da revisão (2015). · Limitações: É uma revisão crítica de um autor; Hare et al. (2017) e Loos et al. (2023) apontam na mesma direção, mas ausência de prova não é prova de ausência de efeito. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Não se sabe se humanos têm feromônios: nenhuma substância corporal humana foi mostrada como capaz de provocar uma resposta típica da espécie, e a busca por um feromônio humano continua sem resultado conclusivo. [1] 9. Conclusion [3] The quest for human pheromones
Contexto: Estado do conhecimento em 2015 (Wyatt) e na revisão de Loos et al. (2023). · Limitações: Loos et al. dizem que é incerto se isso ocorre porque feromônios humanos não existem ou porque o método adequado ainda não foi usado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Para identificar um feromônio é preciso demonstrar uma resposta de comportamento ou fisiologia mediada por um estímulo químico de indivíduos da mesma espécie, isolar e sintetizar a molécula e confirmar, em concentração natural, que ela reproduz a atividade original no mesmo bioensaio. [1] 2(a). The essential steps for identifying a pheromone
Contexto: Critério proposto por Wyatt, que o compara aos postulados de Koch; Loos et al. (2023) adotam esse arcabouço, com acréscimos. · Limitações: É um critério de método, não uma lei; Loos et al. discutem que, em vertebrados, a resposta pode ser graduada e depender do contexto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Duas levas de experimentos usaram esteroides como supostos feromônios humanos: androstenona e androstenol, da década de 1970 à de 1990; androstadienona e estratetraenol, a partir de 1991 e sobretudo depois de 2000. [1] 4. There is no scientific basis for calling androstene molecules ‘human pheromones’
Contexto: Histórico das pesquisas com humanos, segundo Wyatt (2015). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A androstenona parece ter atraído pesquisadores em parte por estar à venda em aerossol para uso na criação de porcos; faltava uma razão para testá-la em pessoas e não outra das centenas de moléculas das axilas. [1] 4(a). Androstenone and androstenol
Contexto: A explicação da disponibilidade comercial é suposição do autor da revisão ("likely"). · Limitações: Wyatt cita a crítica detalhada de Doty aos experimentos com androstenona, que não lemos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A androstadienona e o estratetraenol entraram na pesquisa a partir de uma comunicação de 1991 em congresso patrocinado por uma empresa com interesse comercial em feromônios humanos, sem descrição de como as moléculas teriam sido extraídas e testadas. [1] 4(b). Androstadienone and estratetraenol
Contexto: Segundo a leitura de Wyatt do trabalho de Monti-Bloch e Grosser (1991); o artigo original não foi lido por nós. · Limitações: Descrição vinda de uma revisão crítica; o conteúdo do trabalho de 1991 não foi conferido na fonte original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores do estudo de 2000 que popularizou as duas moléculas escreveram que seria prematuro chamá-las de feromônios humanos, e as moléculas e concentrações que usaram viraram padrão no campo. [1] 4(b). Androstadienone and estratetraenol
Contexto: O estudo é o de Jacob e McClintock (2000), sobre humor; a frase de cautela é citada por Wyatt, não lida no original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As concentrações usadas na maioria dos experimentos com androstadienona e estratetraenol superam muito as presentes nas axilas humanas. [2] Discussion [1] 1. Introduction
Contexto: O "cerca de um milhão de vezes" refere-se a um estudo de neuroimagem específico (Savic et al., 2005) citado por Wyatt; Hare et al. usaram 500 µM, concentração padrão do campo. · Limitações: Não comparamos nós mesmos as concentrações com medições nas axilas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Estudos com moléculas sem justificativa prévia tendem a produzir falsos positivos: amostras pequenas, efeito superestimado, viés de publicação de resultados positivos e falta de replicação. [1] 4(c). Positive results from un-evidenced molecules
Contexto: Argumento estatístico de Wyatt sobre esse conjunto de estudos, sem reanálise nossa. · Limitações: Não significa que todo resultado positivo seja falso; significa que, sem justificativa prévia, o resultado positivo isolado pesa pouco. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num experimento duplo-cego de 2017, 46 pessoas julgaram o gênero de rostos neutros e 94 avaliaram a atratividade e a provável infidelidade de rostos; a androstadienona e o estratetraenol não alteraram nenhum desses julgamentos. [2] Abstract
Contexto: Participantes adultos, heterossexuais e não fumantes; resultado de um único estudo. · Limitações: Os próprios autores admitem que a tarefa de gênero tinha poder estatístico limitado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Estudos anteriores relataram efeitos das duas moléculas na percepção de atratividade e de gênero, o que o estudo de 2017 não reproduziu; os autores consideram mais plausível que as moléculas não sejam feromônios sexuais. [2] Discussion
Contexto: Divergência publicada entre estudos de laboratório sobre as duas moléculas. · Limitações: O estudo não resolve o desacordo; os autores citam ainda anosmia específica a androstenos em até 37% das pessoas, dado que não conferimos na fonte original. · Há resultados positivos publicados; a divergência é real e Hare et al. não a explicam por diferença de protocolo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: A sincronia menstrual entre mulheres que convivem, frequentemente apontada como o melhor candidato a efeito de feromônio humano, tem replicação muito inconsistente. [3] The quest for human pheromones
Contexto: Revisão de Loos et al. sobre estudos desde McClintock (1971); dois estudos em sociedades não industriais (Dogon, Mali; beduínos, Israel) não encontraram sincronia. · Limitações: Há também críticas ao modo de calcular a sincronia, que pode surgir por acaso entre ciclos de comprimentos diferentes (Schank, 2006, citado por f3). · Há estudos que encontraram sincronia e outros que não; a discussão sobre o fenômeno é independente da questão do feromônio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: O candidato mais promissor segundo Wyatt é a secreção das glândulas da aréola de mães que amamentam, que faz bebês de qualquer mãe procurarem o mamilo; a molécula responsável ainda não foi identificada. [1] 7. The suckling response of human babies to areola gland secretions points to our best candidate pheromone [3] Resolving the question of human pheromones
Contexto: Recém-nascidos; o comportamento do bebê é o bioensaio, a molécula não foi identificada. · Limitações: Trata-se de uma pista a investigar, não de um feromônio demonstrado; a resposta do bebê vem de trabalhos que Wyatt cita e que não lemos. · Wyatt trata como a pista mais promissora, e não como feromônio identificado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Feromônios são sinais comuns a todos os indivíduos de um sexo ou estado da espécie, diferentes do cheiro individual; o cheiro individual influencia o reconhecimento de parentes e talvez a escolha de parceiros, mas não é feromônio. [1] 3(c). Not all human smells are pheromones
Contexto: Definição adotada por Wyatt; o experimento das camisetas de Wedekind e as festas de feromônios tratam de odores individuais. · Limitações: Wyatt nota que as replicações do efeito da camiseta foram inconsistentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em cabras, a identificação do feromônio do macho seguiu o método: comparar as secreções de machos inteiros e castrados e reconstituir a mistura; a molécula 4-etiloctanal reproduziu a maior parte da atividade. [1] Figure 1 (legenda)
Contexto: Exemplo em mamífero (Murata et al., citado por Wyatt); a atividade restante pode vir de outras moléculas da mistura. · Limitações: Descrição a partir da legenda de Wyatt, sem leitura do estudo original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Proceedings of the Royal Society B — The search for human pheromones: the lost decades and the necessity of returning to first principles
Wyatt, T. D. · 2015 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2014.2994 - Royal Society Open Science — Putative sex-specific human pheromones do not affect gender perception, attractiveness ratings or unfaithfulness judgements of opposite sex faces
Hare, R. M.; Schlatter, S.; Rhodes, G.; Simmons, L. W. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.160831 - Perspectives on Psychological Science — Past, Present, and Future of Human Chemical Communication Research
Loos, H. M.; Schaal, B.; Pause, B. M.; Smeets, M. A. M.; Ferdenzi, C.; Roberts, S. C.; de Groot, J.; Lübke, K. T.; Croy, I.; Freiherr, J.; et al. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1177/17456916231188147
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)