Zoologia

No mergulho, o falcão-peregrino pode passar de 300 km/h, a maior velocidade conhecida de um animal

Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Ao avistar uma presa voando mais abaixo, o falcão-peregrino (Falco peregrinus) recolhe as asas e despenca num mergulho chamado stoop. A literatura de aerodinâmica fala em mais de 320 km/h, e um modelo físico de 1998 calculou que um falcão em queda vertical pode chegar a 320–400 km/h. É a maior velocidade conhecida de um animal. O número exato, porém, é difícil de medir, e o recorde mais citado, cerca de 389 km/h, vem de um único registro.

O peregrino é um falcão, não um gavião: as duas aves de rapina se parecem, mas uma análise de DNA de 169 espécies, liderada pelo Museu Field de Chicago em 2008, mostrou que falcões e gaviões são apenas primos distantes. No mergulho, a velocidade não depende de bater asas, e sim da altura, do ângulo e da forma do corpo. Por isso é tão difícil de medir: em 2014, pesquisadores alemães filmaram falcões treinados mergulhando diante de uma barragem de 60 m e só registraram até 80 km/h, porque a queda era curta. Em 1998, o biólogo Vance Tucker calculou as velocidades máximas possíveis e advertiu que valores tão altos nunca tinham sido medidos com precisão. Simulações de 2018 sugerem a razão do mergulho: a grande velocidade dá ao falcão mais força para fazer curvas e alcançar presas ágeis, como estorninhos.

Quase extinto pelo DDT

Depois da Segunda Guerra, o inseticida DDT fez os peregrinos porem ovos de casca fina, que quebravam no choco. Em 1975, a América do Norte tinha só 324 casais. Com a proibição do DDT nos EUA em 1972 e a soltura de mais de 6 mil falcões criados em cativeiro, a espécie saiu da lista de ameaçadas dos EUA em 1999.

Por que é tão difícil medir

No mergulho, a velocidade depende da altura de onde o falcão parte, do ângulo da queda e de quanto ele recolhe as asas. Em 1998, Vance Tucker calculou que um falcão ideal em queda vertical chegaria a 89–112 m/s, e alertou que valores assim nunca tinham sido medidos com precisão. Em 2014, falcões filmados diante de uma barragem de 60 m não passaram de 80 km/h. Sobra o recorde de cerca de 389 km/h, citado por museus, mas sem artigo científico que o descreva.

Para que serve tanta velocidade

Em 2018, pesquisadores das universidades de Groningen e Oxford simularam em computador falcões atacando estorninhos. Quando a presa desviava de forma imprevisível, o maior sucesso vinha de mergulhos de cerca de 1.500 m, com interceptação acima de 100 m/s. A explicação é física: quanto mais rápido, mais força o falcão consegue gerar para fazer curvas. Mas o mergulho só compensa se a visão e o controle do voo forem muito precisos.

Olhos e narinas

Como outras aves, o peregrino tem uma terceira pálpebra, a membrana nictitante, que é transparente: ele a fecha contra o vento e continua enxergando. Nas narinas há pequenos tubérculos ósseos em forma de cone. A explicação mais repetida é que eles desviam e desaceleram o ar que entra em alta velocidade, protegendo a respiração no mergulho, mas essa função foi pouco testada em experimentos.

DDT e a volta do peregrino

Depois da Segunda Guerra, o DDT fez os peregrinos porem ovos de casca fina, que quebravam no choco. Em 1968, um estudo na Science mostrou que a casca dos ovos de aves de rapina em declínio nos EUA afinava desde 1947, 19% ou mais. A espécie foi listada como ameaçada em 1970, o DDT foi proibido em 1972 e, em 1975, restavam 324 casais na América do Norte. Com mais de 6 mil falcões soltos, a espécie saiu da lista em 1999.

Como sabemos

O mergulho acima de 300 km/h tem apoio em modelo físico e na literatura de aerodinâmica, mas medições diretas são raras; a história do DDT e da recuperação está bem documentada pelo governo dos EUA e pela Science.

Em debate: A velocidade máxima real do mergulho é incerta. Os valores acima de 300 km/h vêm de cálculos teóricos e de poucos registros; o recorde de cerca de 389 km/h não está descrito em artigo revisado por pares, e os mergulhos filmados em estudos científicos foram muito mais lentos porque a altura de queda era pequena.

Em debate: A função dos tubérculos nasais (desviar e desacelerar o ar em alta velocidade) é uma explicação difundida, mas pouco testada experimentalmente.

Fontes

  1. Journal of Experimental Biology, vol. 201, n. 3, p. 403–414 (1998) — Gliding flight: speed and acceleration of ideal falcons during diving and pull out
    consultada em 05/10/2026
  2. PLOS ONE (2014); TU Bergakademie Freiberg, Universidade de Bonn e Universidade de Giessen — Diving-flight aerodynamics of a peregrine falcon (Falco peregrinus)
    consultada em 05/10/2026
  3. PLOS Computational Biology (2018); Universidade de Groningen e Universidade de Oxford — Physics-based simulations of aerial attacks by peregrine falcons reveal that stooping at high speed maximizes catch success against agile prey
    consultada em 05/10/2026
  4. U.S. National Park Service — Peregrine Falcon Recovery — Yukon-Charley Rivers National Preserve
    consultada em 05/10/2026
  5. U.S. Fish and Wildlife Service — The Peregrine Falcon is Back! Babbitt Announces Removal of World's Fastest Bird from the Endangered Species List
    consultada em 05/10/2026
  6. UCL Culture — Grant Museum of Zoology, University College London — Specimen of the week 245: the peregrine falcon skull
    consultada em 05/10/2026
  7. Buffalo Bill Center of the West — Draper Natural History Museum — Adaptations for the speedy life style of peregrine falcons
    consultada em 05/10/2026
  8. University of California, Berkeley (comunicado sobre estudo liderado pelo Field Museum) — Genetic study reshuffles bird family tree
    consultada em 05/10/2026
  9. Science, vol. 320, p. 1763–1768 (2008); Field Museum of Natural History — A phylogenomic study of birds reveals their evolutionary history
    consultada em 05/10/2026
  10. Science, vol. 162, p. 271–273 (1968) — Chlorinated hydrocarbons and eggshell changes in raptorial and fish-eating birds
    consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
  • Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão

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