Genética

Como se lê DNA de ossos de centenas de milhares de anos e como saber que não é contaminação

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

O DNA de ossos antigos sobrevive em pedaços curtos e quimicamente alterados, misturado ao de micróbios e de quem manuseou o osso. Por isso é extraído em salas limpas e só vale depois de testes de autenticidade: padrão de dano nas pontas dos fragmentos, contaminação estimada por marcadores e repetição em outro laboratório. Foi assim que se leu DNA de hominínios de Sima de los Huesos, na Espanha, de cerca de 430 mil anos.

O DNA de um osso antigo é uma mistura. O DNA endógeno, o do próprio indivíduo, restou em traços; em volta dele há DNA de micróbios que colonizaram o osso e de pessoas que o tocaram. O endógeno é quebrado em fragmentos de dezenas de pares de bases (pb, as “letras” do código) e sofre desaminação: a citosina (C) perde um grupo amino e, ao ser sequenciada, aparece como timina (T). Essas trocas se concentram nas pontas dos fragmentos e funcionam como assinatura de antiguidade. O DNA mitocondrial (mtDNA) é mais fácil de achar que o nuclear porque cada célula tem centenas a milhares de cópias dele, contra duas do nuclear. Este texto trata do método; o limite de idade do DNA e as proteínas antigas têm posts próprios.

A primeira sequência neandertal tinha 379 letras

A primeira sequência de DNA neandertal, publicada em 1997, reuniu 379 nucleotídeos de mtDNA. Antes de valer, um pedaço do osso foi enviado a outro laboratório, na Pensilvânia, para repetir o teste de forma independente.

Pouco, curto e alterado: o que o tempo faz com o DNA

Depois da morte, o DNA se parte e se altera. Nas amostras analisadas por Sawyer e colegas, o comprimento mediano dos fragmentos de mtDNA ficou entre 44 e 170 pares de bases e não variou de forma significativa com a idade: a fragmentação acontece cedo. O que cresce com o tempo é a troca aparente de C por T na ponta 5′ dos fragmentos. Em amostras sem tratamento, o máximo foi 0,05 até 117 anos e o mínimo foi 0,11 a partir de 500 anos. As quebras ocorrem com mais frequência ao lado de purinas (A e G), efeito atribuído em parte à depurinação.

Sala limpa, chave no adaptador e réplica

O osso já chega com DNA de micróbios e de quem o tocou. Pääbo projetou salas limpas e insistiu em reprodução por outros laboratórios: o fragmento neandertal de 1997 foi enviado a Mark Stoneking, nos EUA. Para o genoma de 2010, adaptadores com uma sequência-chave exclusiva de neandertais foram adicionados em sala limpa, de modo que cada leitura pudesse ser ligada ao extrato do osso. Mas a sala limpa não resolve tudo: o DNA moderno que o espécime já traz ao chegar ao laboratório não pode ser evitado.

Como se confere que é autêntico, e onde isso falha

Três verificações se combinam. O padrão de dano: em DNA neandertal, cerca de um terço das citosinas da ponta aparecia como T, contra menos de 5% no contaminante. A contaminação medida: no genoma de 2010, três vias deram menos de 1%. E o filtro por dano: Skoglund e colegas criaram um escore para isolar fragmentos improváveis de fontes atuais. Os dados de 2006, porém, sofreram contaminação detectada depois. E o padrão tem limites: amostras aquecidas e o uso de branqueador alteram as taxas de C para T.

Sima de los Huesos: o método aplicado a 430 mil anos

O sítio de Atapuerca tem 28 indivíduos, datados em cerca de 430 mil anos. O mtDNA de um deles, lido em 2014, ficou perto da linhagem dos denisovanos. Em 2016, o DNA nuclear de dois espécimes mostrou parentesco com neandertais, e não com denisovanos, o que coloca a separação entre os dois grupos antes de 430 mil anos. A diferença entre mtDNA e DNA nuclear é explicada, entre outras possibilidades, por uma troca posterior do mtDNA dos neandertais: hipótese dos autores, não resultado.

Como sabemos

O método tem base sólida em texto integral (Comitê Nobel e Sawyer et al.), mas os artigos sobre Sima de los Huesos e Briggs et al. foram lidos só no resumo.

Fontes

  1. Nobel Assembly, Karolinska Institutet — Scientific background: Discoveries concerning the genomes of extinct hominins and human evolution
    Nobel Committee for Physiology or Medicine · 2022 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. PLoS ONE — Temporal Patterns of Nucleotide Misincorporations and DNA Fragmentation in Ancient DNA
    Sawyer, S.; Krause, J.; Guschanski, K.; Savolainen, V.; Pääbo, S. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0034131
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Patterns of damage in genomic DNA sequences from a Neandertal
    Briggs, A. W. et al. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0704665104
  4. Nature — A mitochondrial genome sequence of a hominin from Sima de los Huesos
    Meyer, M. et al. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature12788
  5. Nature — Nuclear DNA sequences from the Middle Pleistocene Sima de los Huesos hominins
    Meyer, M. et al. · 2016 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature17405
  6. Proceedings of the National Academy of Sciences — Separating endogenous ancient DNA from modern day contamination in a Siberian Neandertal
    Skoglund, P. et al. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1318934111
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos