Paleontologia

Fim do Triássico: o que liga a extinção de cerca de 201 milhões de anos atrás ao vulcanismo da CAMP

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

A extinção do fim do Triássico, há cerca de 201,5 milhões de anos, coincide no tempo com a CAMP, apontada como a maior província ígnea conhecida, cujos restos hoje estão em quatro continentes. A ligação se apoia em datações de zircão por urânio-chumbo, em mercúrio e metais do grupo da platina nos sedimentos e em metano preso em rochas do Amazonas. A causa exata ainda é debatida.

A CAMP (Província Magmática do Atlântico Central) foi um conjunto de derrames de basalto, diques e soleiras (rocha magmática que se injeta entre camadas de sedimento) formado quando o supercontinente Pangeia começou a se romper. Hoje seus restos aparecem na África, na Europa e nas Américas. A extinção em massa do fim do Triássico atingiu ecossistemas marinhos e terrestres e é uma das "cinco grandes" do Fanerozoico. Estabelecer causa e efeito exige duas coisas: provar que os eventos ocorreram na mesma janela de tempo, o que depende de datação de alta precisão, e achar no registro geológico marcas químicas que só o vulcanismo explicaria. Nenhuma das duas é simples, porque as seções com fósseis são em geral marinhas e a maior parte das lavas acessíveis está em rochas continentais.

Enxofre em escala inédita

Segundo uma análise de dados paleomagnéticos, os basaltos iniciais da CAMP liberaram mais de 500 vezes o enxofre emitido pela erupção de Laki, na Islândia, em cinco pulsos de menos de um século cada. É uma estimativa que sustenta a hipótese de invernos vulcânicos.

Como sabemos: o relógio do zircão

A coincidência no tempo vem da datação por urânio-chumbo em cristais de zircão, medidos um a um por espectrometria de massa depois de uma limpeza química do cristal. As melhores datas têm incerteza da ordem de dezenas de milhares de anos [a2][a13]. Isso permite comparar intrusões e derrames com a extinção em escala de 100 mil anos. O limite é que as seções com fósseis são em geral marinhas e as lavas, continentais; ligá-las exige correlações indiretas, como a calibração orbital dos sedimentos [a11].

Três pistas químicas nos sedimentos e nas rochas

O mercúrio é usado como marcador de emissões vulcânicas e aparece em picos no limite Triássico–Jurássico, junto de esporos deformados de samambaia [a7]. Os metais do grupo da platina têm, nos basaltos do Marrocos, proporções parecidas com as dos sedimentos da extinção [a8]. E bolhas microscópicas de metano em quartzo de soleiras do Amazonas indicam gás liberado do sedimento aquecido [a9]. Cada pista é indireta; juntas, apontam para o vulcanismo.

Por que a causa ainda é debatida

Nas bacias de Newark e Fundy, a extinção registrada em terra fica abaixo das lavas locais [a12], mas intrusões da CAMP são cerca de 100 mil anos mais antigas que essas lavas [a4]. Há ainda desacordo sobre o agente: invernos vulcânicos por enxofre, que explicariam a extinção em terra [a6], ou aquecimento e acidificação do mar por carbono, mais lentos. O impacto de um meteorito foi proposto para o sinal de platinoides [a10], mas os dados de f4 favorecem o vulcanismo.

O papel do Brasil

O Brasil tem papel central: as soleiras da bacia do Amazonas, intrusões em rochas ricas em matéria orgânica, têm idades que coincidem com a extinção [a5] e guardam o metano preso em quartzo [a9]. Diques no Nordeste, como o de Senador Pompeu, estendem a CAMP cerca de 800 km mais a leste na América do Sul [a13]. Por isso a região é usada para testar a hipótese de que a intrusão em sedimentos ricos em carbono foi um mecanismo-chave [a14].

Como sabemos

A coincidência no tempo e as pistas químicas estão bem documentadas, mas o mecanismo e a ordem exata dos eventos seguem em debate.

Em debate: Se a extinção em terra veio antes, junto ou depois dos primeiros derrames de lava: as intrusões datam de antes, mas os sedimentos de Newark e Fundy mostram a extinção abaixo das lavas locais.

Em debate: Qual agente matou: invernos vulcânicos por aerossóis de enxofre, aquecimento e acidificação do mar por CO₂ e metano, ou envenenamento por mercúrio e outras substâncias tóxicas.

Em debate: Se o sinal de irídio e de platinoides vem de vulcanismo ou de um impacto extraterrestre.

Fontes

  1. Nature Communications — End-Triassic mass extinction started by intrusive CAMP activity
    Davies, J. H. F. L. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms15596
  2. Scientific Reports — New U-Pb geochronology for the Central Atlantic Magmatic Province, critical reevaluation of high-precision age
    Oliveira, A. L. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-32534-3
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Correlation of sub-centennial-scale pulses of initial Central Atlantic Magmatic Province lavas and the end-Triassic extinction
    Kent, D. V. et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2415486121
  4. Scientific Reports — Platinum-group elements link the end-Triassic mass extinction and the Central Atlantic Magmatic Province
    Tegner, C. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-020-60483-8
  5. Science Advances — Volcanic mercury and mutagenesis in land plants during the end-Triassic mass extinction
    Lindström, S. et al. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aaw4018
  6. Nature Communications — Massive methane fluxing from magma-sediment interaction in the end-Triassic Central Atlantic Magmatic Province
    Capriolo, M. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-021-25510-w
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos