Astronomia
Como detectamos planetas em outras estrelas sem conseguir vê-los
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Poucos exoplanetas são vistos diretamente. Os dois métodos mais produtivos medem o efeito do planeta na estrela: a velocidade radial, que registra o balanço da estrela puxada pela gravidade do planeta, e o trânsito, que registra a pequena queda de brilho quando o planeta passa à frente. O primeiro planeta confirmado em torno de uma estrela como o Sol foi achado pela velocidade radial, anunciado em 6 de outubro de 1995. O arquivo da NASA já lista mais de 6.300 confirmados.
A luz de uma estrela ofusca a de qualquer planeta próximo, por isso os astrônomos aprenderam a detectar o planeta pelo que ele faz à estrela. Na velocidade radial, o espectro da estrela se desloca ligeiramente para o azul e para o vermelho, de modo periódico, à medida que ela se aproxima e se afasta de nós. No trânsito, o telescópio espacial Kepler, da NASA, mostrou o método em larga escala: pequenas quedas na luz de estrelas individuais, causadas por planetas que cruzam sua frente. Cada método mede uma grandeza diferente. O trânsito dá o tamanho do planeta em relação ao da estrela. A velocidade radial dá a massa. Quando os dois se combinam, obtém-se a densidade, que indica se o planeta é rochoso ou gasoso. Também existem a microlente gravitacional e a imagem direta, esta ainda restrita sobretudo a gigantes jovens e quentes.
Um fax, e uma dúvida
No fim de 1994, o estudante Didier Queloz mandou um fax a Michel Mayor, que estava no Havaí: uma estrela mostrava variações com período de só 4,2 dias. Mayor ficou cauteloso, porque os modelos da época diziam que planetas gigantes se formam longe da estrela. Só novas medições, em julho de 1995, confirmaram a hipótese.
Por que não vemos os planetas
A luz da estrela ofusca a do planeta. Desde meados do século XX, astrônomos suspeitavam que sistemas planetários se formassem junto com as estrelas, o que implicaria centenas de bilhões de mundos na Via Láctea. O desafio era detectá-los, e a solução foi medir o efeito sobre a estrela.
O primeiro em torno de uma estrela como o Sol
Nos anos 1970, pesquisadores do Observatório de Genebra desenvolveram um método para medir variações minúsculas na velocidade das estrelas. Mayor e o engenheiro André Baranne projetaram um espectrógrafo para o telescópio de dois metros do Observatório de Alta Provença. Em 1993, Mayor obteve 42 noites por ano para acompanhar 142 estrelas parecidas com o Sol.
A cautela antes do anúncio
O sinal de 4,2 dias sugeria um planeta com metade da massa de Júpiter. Mas os modelos diziam que gigantes se formam longe da estrela, com órbitas de décadas. Mayor teve cautela e esperou até julho de 1995, quando a estrela voltou a ser visível. As novas medições confirmaram o planeta, e o resultado saiu na Nature. O Nobel de Física de 2019 premiou Mayor e Queloz.
O arquivo hoje
O arquivo de exoplanetas da NASA, atualizado toda semana, tinha 6.375 planetas confirmados em 1º de outubro de 2026, 939 deles descobertos pela missão TESS. A NASA diz que os dados do Kepler sugerem mais planetas do que estrelas na Galáxia, o que implicaria mais de um trilhão deles.
Como sabemos
Métodos e estudos de caso conferidos em páginas da NASA, no comunicado da Universidade de Genebra e em artigo no arXiv; a contagem muda toda semana.
- Fato estabelecido: Na velocidade radial, mede-se a variação na velocidade de uma estrela, detectada por mudanças no comprimento de onda da luz, causadas pela gravidade de planetas que a puxam para perto e para longe. [1] [2]
- Fato estabelecido: No método do trânsito, o telescópio Kepler detectou pequenas quedas de brilho em estrelas individuais causadas por planetas que passam à frente delas. [1]
- Fato estabelecido: O trânsito determina o tamanho do planeta e a velocidade radial determina a massa; no caso de Kepler-10b, o trânsito deu o raio (cerca de 1,4 raio terrestre) e 40 medidas Doppler deram a massa (cerca de 4,6 massas terrestres). [3]
- Fato estabelecido: Combinando raio e massa, a densidade de Kepler-10b foi calculada em cerca de 8,8 g/cm³, o que indica composição rochosa. [3]
- Fato estabelecido: A microlente gravitacional e a imagem direta também detectam planetas; a imagem direta se limita sobretudo a gigantes gasosos jovens e quentes. [1] [4]
- Fato estabelecido: Mayor e Queloz anunciaram 51 Pegasi b em 6 de outubro de 1995, numa conferência em Florença, depois de publicar na Nature. [2]
- Fato estabelecido: 51 Pegasi b é um Júpiter quente a cerca de 50 anos-luz, na constelação de Pégaso, com período de 4,2 dias e metade da massa de Júpiter. [2]
- Fato estabelecido: A observação programática de Mayor e Queloz acompanhava 142 estrelas parecidas com o Sol. [2]
- Fato estabelecido: O arquivo de exoplanetas da NASA registrava 6.375 planetas confirmados em 1º de outubro de 2026. [5]
Número que cresce com atualizações semanais. - Consenso científico: 51 Pegasi b foi o primeiro planeta confirmado em torno de uma estrela do tipo solar. [2] [4]
Existem planetas confirmados antes, em torno de pulsares; a precisão é 'estrela do tipo solar', como na citação do Nobel de 2019.
Fontes
- NASA Science — Methods for finding and characterizing exoplanets
consultada em 04/10/2026 - Université de Genève — The first exoplanet was discovered 30 years ago at the UNIGE (comunicado de 3 de outubro de 2025)
consultada em 04/10/2026 - arXiv (equipe da missão Kepler) — Kepler-10b: physical properties (arXiv:1102.0605)
consultada em 04/10/2026 - Planets, Stars and Stellar Systems, via arXiv — Exoplanet Detection Methods (Wright e Gaudi)
consultada em 04/10/2026 - NASA / Caltech IPAC — NASA Exoplanet Archive
consultada em 04/10/2026
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