Linguística

Existe “linguagem animal”? A busca por semântica e sintaxe achou continuidade, mas pouca gramática

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Assuntos: Comunicação animal

A busca por semântica e sintaxe em animais, aberta pelos alarmes de macacos-vervet em 1980, encontrou sinais que distinguem situações e orientam a resposta de quem ouve, mas, segundo a revisão de Rendall (2021), pouca evidência das propriedades da linguagem humana. Na recursão, proposta como traço exclusivamente humano, os resultados em aves são contestados. “Linguagem” funciona como ponto de comparação, não de chegada.

Semântica é o significado que um sinal carrega; sintaxe, as regras que combinam sinais em estruturas maiores; recursão, a capacidade de gerar uma gama infinita de expressões a partir de um conjunto finito de elementos, com unidades encaixadas em unidades. Em 2002, Hauser, Chomsky e Fitch separaram a faculdade da linguagem em sentido amplo, que inclui sistemas sensório-motor e conceitual-intencional, e em sentido estrito, que eles hipotetizaram conter só a recursão. A pergunta passou a ser quais partes aparecem em outros animais. Este texto faz o balanço e remete a casos individuais já tratados no WikiMundi.

Quem propôs a recursão também fez balanço cético

Segundo Rendall, Hauser e colegas concluíram em 2014 que sistemas de comunicação animal não demonstraram nada parecido com a fonologia, a semântica e a sintaxe humanas.

O ponto de partida: os vervets e a semântica

O estudo de 1980 sugeriu que alarmes diferentes para leopardo, águia e cobra funcionariam como rótulos. A reanálise acústica de 2015, assinada também por Cheney e Seyfarth, confirmou a distinção entre os alarmes, mas achou sobreposição com chamados dados em agressão e concluiu que a semântica dos alarmes pouco lembra palavras. Rendall acrescenta que o artigo original já trazia efeitos estatisticamente fracos. O experimento original está no artigo sobre os vervets.

Por que a intencionalidade importa nessa conta

Rendall propõe uma hierarquia: a semântica complexa depende de querer informar o outro, e a sintaxe, de ter semântica complexa para organizar. Em primatas, diz, o chamado reflete a situação do emissor. Quando se tentou salvar a ideia com a 'referência funcional', o critério original (resposta apropriada sem contexto) deixou de ser cumprido pelos vervets. É uma hipótese explicativa, não um resultado medido.

Como sabemos: o teste de gramáticas artificiais

Para testar sintaxe sem depender de significado, os pesquisadores familiarizam o animal com sequências de sons geradas por uma regra e medem se ele distingue sequências novas que a obedecem das que a violam. Em 2004, macacos dominaram uma regra entre vizinhos, mas não uma hierárquica. Em 2006, estorninhos pareceram dominar uma regra recursiva; em 2009, tentilhões-zebra mostraram que regras mais simples bastavam. O método admite explicações alternativas, e um teste negativo não prova incapacidade.

Comparar não é igualar

Os próprios Hauser, Chomsky e Fitch sugeriram procurar as computações da faculdade da linguagem fora da comunicação, como em número e navegação. Rendall defende que a continuidade com a comunicação humana existe na anatomia da voz, na percepção e na flexibilidade dos chamados, não nas propriedades especializadas da linguagem. 'Linguagem' serve de ponto de comparação; comunicações animais têm suas próprias funções.

Como sabemos

Síntese de uma revisão lida na íntegra e de quatro resumos de artigos originais; temas em debate vão marcados como tais.

Em debate: Os alarmes dos vervets são semânticos?

Em debate: Estorninhos fazem recursão?

Fontes

  1. Frontiers in Psychology — Aping Language: Historical Perspectives on the Quest for Semantics, Syntax, and Other Rarefied Properties of Human Language in the Communication of Primates and Other Animals
    Rendall, D. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3389/fpsyg.2021.675172
  2. Science — The faculty of language: what is it, who has it, and how did it evolve?
    Hauser, M. D.; Chomsky, N.; Fitch, W. T. · 2002 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.298.5598.1569
  3. Science — Computational constraints on syntactic processing in a nonhuman primate
    Fitch, W. T.; Hauser, M. D. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1089401
  4. Nature — Recursive syntactic pattern learning by songbirds
    Gentner, T. Q.; Fenn, K. M.; Margoliash, D.; Nusbaum, H. C. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature04675
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences — Simple rules can explain discrimination of putative recursive syntactic structures by a songbird species
    van Heijningen, C. A. A.; de Visser, J.; Zuidema, W.; ten Cate, C. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0908113106
  6. Scientific Reports — Vervets revisited: A quantitative analysis of alarm call structure and context specificity
    Price, T.; Wadewitz, P.; Cheney, D.; Seyfarth, R.; Hammerschmidt, K.; Fischer, J. · 2015 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/srep13220
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

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