Paleontologia
Cavalos: 55 milhões de anos de evolução numa árvore de muitos ramos, não numa escada
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Os cavalos têm um dos registros fósseis mais contínuos da evolução: cerca de 55 milhões de anos, do pequeno Hyracotherium, de porte parecido com o de um cão, ao Equus de hoje. Mas a imagem de uma escada rumo ao cavalo moderno está superada. A família Equidae formou uma árvore de muitos ramos, com cerca de três dezenas de gêneros extintos, e só um gênero sobrevive: Equus, que reúne cavalos, burros e zebras.
Do início do Eoceno ao início do Mioceno, entre 55 e 20 milhões de anos atrás, os cavalos eram pequenos, de 10 a 50 kg estimados, e tinham dentes de coroa baixa, próprios para folhas macias. Entre 20 e 15 milhões de anos atrás, os dentes se diversificaram muito, e, com a expansão das pastagens no Mioceno, várias linhagens desenvolveram coroas altas, adequadas ao capim. O tamanho, porém, não cresceu em linha reta: depois de 20 milhões de anos há linhagens maiores, estáveis e menores. Equus apareceu há cerca de 5 milhões de anos. Os cavalos desapareceram da América do Norte há cerca de 10 mil anos, e só voltaram trazidos por europeus no século XVI. Os cavalos domésticos atuais descendem de uma população das estepes da Eurásia ocidental, que se espalhou a partir de cerca de 2000 a.C.
O DNA de um cavalo de 700 mil anos
Em 2013, pesquisadores sequenciaram o genoma de um osso de cavalo congelado no permafrost, de 560 a 780 mil anos, o mais antigo genoma completo obtido até então. A análise sugeriu que a linhagem de todos os cavalos, burros e zebras atuais surgiu há 4,0 a 4,5 milhões de anos, o dobro da estimativa convencional.
De Marsh e Huxley à árvore
Em 1876, o biólogo Thomas Huxley visitou Yale e estudou a coleção de cavalos fósseis reunida por Othniel Marsh nos territórios do oeste dos EUA. A sequência impressionou-o tanto que virou o centro de sua palestra em Nova York. Na época, a evolução dos cavalos era vista como uma linha reta, rumo a Equus. Desde o início do século XX, os paleontólogos sabem que o padrão é uma árvore com muitos ramos laterais.
Dentes e pastagens
Dentes fossilizam bem e permitem identificar os animais. Os cavalos de 55 a 20 milhões de anos atrás tinham dentes de coroa baixa para folhas macias. Entre 20 e 15 milhões de anos atrás, houve uma diversificação explosiva dos dentes. Com a expansão das pastagens no Mioceno, muitas linhagens desenvolveram coroas altas para pastar, e outras passaram a comer capim e folhas. As linhagens de comedores de folhas, de coroa baixa, perderam diversidade.
Dedos e tamanho
O número de dedos caiu ao longo do tempo: os primeiros cavalos tinham quatro dedos nas patas dianteiras, Mesohippus ficou com três, e em Dinohippus havia indivíduos de três dedos e de um só. O tamanho, no entanto, não aumentou em linha reta. Entre 55 e 20 milhões de anos atrás, os cavalos pesavam cerca de 10 a 50 kg; depois disso algumas linhagens ficaram maiores, outras estáveis e outras menores. A regra de que animais sempre crescem não vale para eles.
Equus, o fim na América e a domesticação
Equus apareceu há cerca de 5 milhões de anos, e as duas grandes linhagens do gênero se separaram há cerca de 3 milhões de anos na América do Norte e se espalharam pelo Velho Mundo. Na América do Norte, os cavalos desapareceram há cerca de 10 mil anos, provavelmente por vários fatores. Genomas antigos mostraram que os cavalos domésticos atuais vêm das estepes do baixo Volga e do Don, e que sua expansão, a partir de cerca de 2000 a.C., coincide com a cultura de carros de guerra de rodas raiadas, como a de Sintashta.
Como sabemos
O padrão ramificado e os marcos fósseis vêm de uma revisão da Science e do Florida Museum of Natural History; datas e contagem de gêneros são estimativas sujeitas a revisão.
Em debate: A idade da linhagem Equus: o registro fóssil a coloca em cerca de 5 milhões de anos atrás, e o genoma de 2013 sugeriu 4,0 a 4,5 milhões de anos para o ancestral comum de todos os equídeos vivos, o dobro da estimativa convencional da época. A diferença reflete métodos distintos.
Em debate: A validade de vários gêneros propostos para a radiação do Mioceno médio ainda é debatida, e a contagem de gêneros muda conforme a revisão taxonômica.
Em debate: As causas do desaparecimento dos cavalos na América do Norte, há cerca de 10 mil anos, são discutidas: clima, caça por humanos ou a combinação dos dois.
Em debate: Onde e quando os cavalos foram domesticados mudou com novos genomas antigos: os cavalos de Botai (cerca de 3500 a.C.) não deram origem aos domésticos atuais, que vêm das estepes do Volga e do Don.
- Consenso científico: A filogenia dos cavalos (família Equidae) cobre cerca de 55 milhões de anos e é citada desde o fim do século XIX como evidência de evolução de longo prazo. [1]
- Consenso científico: Na época de Marsh, a evolução dos cavalos era vista como linear; desde o início do século XX os paleontólogos entendem o padrão como uma árvore complexa, com muitos ramos laterais, alguns levando a espécies extintas e outros a parentes próximos de Equus. [1]
- Fato estabelecido: Thomas Huxley, em sua viagem aos Estados Unidos em 1876, estudou a coleção de cavalos fósseis de Marsh, em Yale, e usou a sequência como ponto central de uma palestra em Nova York. [1]
- Estimativa: A diversidade da família nos últimos 55 milhões de anos inclui cerca de três dezenas de gêneros e algumas centenas de espécies extintos; o único gênero vivo é Equus. [1]
A contagem de gêneros muda com revisões taxonômicas; a validade de alguns gêneros do Mioceno médio ainda é debatida. - Evidência forte: Hyracotherium, o cavalo mais antigo conhecido, era do tamanho de um cachorro pequeno e viveu de cerca de 55 a 45 milhões de anos atrás, em localidades do oeste dos EUA e da Europa. [2]
- Estimativa: Entre 55 e 20 milhões de anos atrás os cavalos primitivos tinham massa estimada de 10 a 50 kg; o Equus selvagem atual chega a cerca de 500 kg; depois de 20 milhões de anos, as linhagens se diversificaram em tamanho, e a ideia de aumento linear de tamanho (regra de Cope) está incorreta. [1]
Massas corporais de fósseis são estimadas a partir de ossos e dentes. - Evidência forte: Os cavalos de dentes de coroa baixa (55 a 20 milhões de anos) comiam folhas macias; entre 20 e 15 milhões de anos os dentes se diversificaram muito e, com as pastagens que se expandiram no Mioceno (25 a 15 milhões de anos), muitas linhagens evoluíram coroas altas para pastar. [1]
- Fato estabelecido: Os antecessores eocênicos de Mesohippus tinham quatro dedos nas patas dianteiras; Mesohippus (cerca de 37 a 32 milhões de anos) perdeu o quarto dedo e seus pré-molares ficaram semelhantes a molares. [2]
- Evidência forte: Merychippus (17 a 11 milhões de anos) tinha ainda três dedos, mas dentes de coroa alta, sendo o primeiro cavalo pastador conhecido e ancestral das linhagens posteriores. [2]
- Interpretação: Dinohippus (13 a 5 milhões de anos) parece ser o parente mais próximo de Equus e é o primeiro cavalo com uma forma rudimentar do aparato de apoio passivo; alguns indivíduos tinham três dedos e outros apenas um. [2]
A relação entre Dinohippus e Equus é inferida da anatomia; o Florida Museum diz que ele 'parece' ser o parente mais próximo. - Estimativa: Espécies de Equus viveram de cerca de 5 milhões de anos atrás até hoje; a literatura lista sete espécies vivas: cavalo, cavalo-de-przewalski, três de asnos e três de zebras. [2]
O número de espécies vivas varia com a classificação adotada. - Estimativa: Um genoma de um osso de cavalo do início do Pleistoceno Médio, de 560 a 780 mil anos, sugeriu que a linhagem de todos os cavalos, burros e zebras atuais surgiu há 4,0 a 4,5 milhões de anos, o dobro da estimativa convencional. [3]
É uma estimativa genômica de 2013 que recalibrou a idade do gênero em relação aos fósseis. - Estimativa: As duas linhagens profundas de Equus, a dos cavalos e a das zebras e asnos, se separaram há cerca de 3 milhões de anos na América do Norte e depois se espalharam pelo Velho Mundo. [1]
Baseada em estudos de DNA mitocondrial citados na revisão de 2005. - Hipótese: Os cavalos desapareceram da América do Norte há cerca de 10 mil anos, provavelmente por vários fatores, entre eles mudança climática e caça por humanos; foram reintroduzidos por europeus no século XVI. [1]
A data é aceita; as causas são debatidas, e o artigo diz 'provavelmente'. O mesmo debate existe para a megafauna em geral. - Evidência forte: Os cavalos domésticos atuais vêm de uma população das estepes da Eurásia ocidental, sobretudo do baixo Volga e do Don, e se espalharam rapidamente pela Eurásia a partir de cerca de 2000 a.C.; a linhagem de Botai, na Ásia Central, por volta de 3500 a.C., não é ancestral dos cavalos atuais. [4]
Fontes
- Science — Fossil horses: evidence for evolution
consultada em 04/10/2026 - Florida Museum of Natural History, University of Florida — Gallery of Fossil Horses (Hyracotherium, Mesohippus, Merychippus, Dinohippus, Equus)
consultada em 04/10/2026 - Nature — Recalibrating Equus evolution using the genome sequence of an early Middle Pleistocene horse
consultada em 04/10/2026 - Nature — The origins and spread of domestic horses from the Western Eurasian steppes
consultada em 04/10/2026
Histórico de alterações
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