Ecologia
Evento Amperima: um pepino-do-mar abissal ficou mais de mil vezes mais denso na Planície Abissal de Porcupine
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Mar profundo
O Evento Amperima foi um salto de abundância a 4.850 m de profundidade, na Planície Abissal de Porcupine, no Atlântico Nordeste. O pepino-do-mar Amperima rosea, raro até 1995, passou a dominar a megafauna em 1996–1999 e disparou de novo em 2002. A série de 1989 a 2005 indica aumento de mais de três ordens de grandeza, sem mudança significativa na biomassa total. O fundo abissal varia de ano para ano; a causa provável, o alimento vindo da superfície, segue como hipótese.
Pepinos-do-mar (holotúrias) são equinodermos que se alimentam de detritos do fundo. Megafauna, aqui, são os animais grandes o bastante para serem pegos em redes de arrasto e vistos em fotografias. A Planície Abissal de Porcupine fica ao sul da Irlanda; o ponto de estudo, hoje chamado Porcupine Abyssal Plain Sustained Observatory (PAP-SO), está a 48°50´N e 16°30´W, entre 4.800 e 4.850 m, longe do talude continental e da cordilheira Mesoatlântica. Ali o alimento chega em pulsos sazonais de fitodetrito, restos de algas vindos da superfície, o que a neve marinha explica. Foi esse ponto que pesquisadores do Centro Oceanográfico Nacional britânico amostraram por 16 anos.
A rede enxergava só uma fração
Em arrastos, A. rosea chegou a cerca de 350 indivíduos por hectare. Fotografias em intervalos fixos mostraram mais de 6.000 por hectare, pois o animal, pequeno, frágil e quase flutuante, escapa pela malha ou é empurrado pela rede. São 0,6 por m², cálculo nosso.
Como sabemos: arrastos, fotos e tamanhos dos corpos
A série vem de arrastos de fundo com rede de 8,6 m de abertura, repetidos entre 1989 e 2005 no mesmo ponto. Os animais eram separados, contados, medidos e pesados. O arrasto deixa escapar os pequenos e frágeis, por isso se usou também fotografia em intervalos fixos, que deu densidades bem maiores. Mudanças de tamanho médio dos corpos ajudam a separar nascimento em massa de simples migração. O limite: são cruzeiros isolados, não medição contínua.
O que mudou e o que não mudou
O número de indivíduos subiu muito, mas o peso total da megafauna ficou estatisticamente estável, porque os animais que se multiplicaram eram minúsculos. Outros grupos, como anêmonas, tunicados e poliquetas, também aumentaram, e os pequenos organismos do sedimento subiram cerca de três vezes. Uma espécie, Oneirophanta mutabilis, caiu. Com tantos animais mexendo no sedimento, o fitodetrito deixou de formar camada visível no fundo, segundo os autores.
Por que aconteceu: uma hipótese, não uma prova
Como todos os tamanhos de fauna mudaram juntos, os autores veem uma causa ambiental. O candidato é o alimento vindo da superfície, em quantidade e em qualidade, que a neve marinha e a bomba biológica de carbono ajudam a explicar. Mas modelos de satélite não acharam mudança que explicasse 1996, e as armadilhas de sedimento falharam no período. Só o pico de 2002 veio depois de um grande fluxo de carbono, em 2001. O vínculo causal segue sem teste direto.
Não só no Atlântico, e não só uma vez
No Pacífico Nordeste, a Estação M mostrou booms e quedas de outras holotúrias, ligados ao clima com atraso de 14 a 18 meses. No Atlântico, a espécie já havia aparecido em grande densidade em 1911, e houve um segundo pico em 2002. Em 2018 o sedimento da mesma planície tinha menos proteína e lipídios do que em 1996, outro sinal de que o abissal muda ao longo dos anos. Este texto não trata dos mecanismos da queda de partículas; veja os posts ligados.
Como sabemos
Os números da série vêm de um artigo que lemos inteiro; a causa do evento segue como hipótese e vários detalhes (fotografia, fluxo de alimento) vêm de segunda mão.
- Fato estabelecido: A série temporal foi feita entre 1989 e 2005, a 4.850 m de profundidade, na Planície Abissal de Porcupine, e mostrou mudanças radicais na densidade dos grandes invertebrados (megafauna). [1] Abstract
Contexto: Um ponto de amostragem no centro da planície, com estações vizinhas para checar a extensão espacial. · Limitações: Não é uma série contínua: são cruzeiros em datas separadas, com lacunas entre eles. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A holotúria Amperima rosea aumentou de densidade em mais de três ordens de grandeza (mais de mil vezes) na série até 2005; a análise anterior, de 1989 a 1999, falava em mais de duas ordens de grandeza. [1] Abstract [4] Resumo
Contexto: Densidade estimada a partir de arrastos de fundo, num ponto da Planície de Porcupine. · Limitações: A magnitude depende do intervalo e do método (arrasto ou fotografia); os dois artigos usam períodos diferentes. Três ordens de grandeza equivalem a mais de 1.000 vezes (cálculo nosso, 10^3). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A biomassa total da megafauna não mudou de forma significativa no período, porque A. rosea está entre as menores holotúrias: muitos animais pequenos pesam pouco. [1] Results, 3.1
Contexto: Biomassa em peso úmido preservado, a partir de arrastos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos arrastos, a densidade da megafauna ficava entre 63 e 92 indivíduos por hectare antes de 1996, chegou a 378 por hectare em março de 1997, caiu a 112 em outubro de 2000 e teve novo pico de 435 em outubro de 2002. [1] Results, 3.1
Contexto: Todos os grupos de megafauna somados, não só Amperima. · Limitações: Valores de arrasto subestimam a densidade real; ver a5. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O arrasto subestima os animais pequenos e frágeis: fotografia em intervalos fixos indicou mais de 6.000 A. rosea por hectare, contra cerca de 350 nos arrastos, e a megafauna teria aumentado pelo menos dez vezes. [1] Discussion, 4.1
Contexto: Segundo Billett et al. (2010), que resumem o trabalho de Bett et al. (2001); não lemos Bett et al. · Limitações: Fonte de segunda mão para a fotografia. 6.000 por hectare equivalem a 0,6 por metro quadrado (cálculo nosso, 1 ha = 10.000 m²). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A mudança não foi local: amostragens numa área de cerca de 250 km mostraram que ela ocorreu numa região muito grande da planície. [1] Introduction
Contexto: Estações a cerca de 40–100 milhas náuticas do ponto principal, em 1998–2002. · Limitações: Houve variação local de densidade dentro dessa área. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Com mais animais revolvendo o sedimento, o tempo para a megafauna retrabalhar toda a superfície do fundo caiu de mais de 2,5 anos para menos de 6 semanas. [1] Introduction
Contexto: Resultado de Bett et al. (2001), citado em Billett et al. (2010); a conta envolve A. rosea, a holotúria Ellipinion molle e a ofiura Ophiocten hastatum. · Limitações: Fonte de segunda mão (não lemos Bett et al. 2001). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os picos de densidade coincidiram com redução do tamanho médio dos corpos, o que sugere nascimento e recrutamento em massa de jovens. [1] Abstract
Contexto: Distribuições de comprimento de A. rosea e de Psychropotes longicauda, com correlação negativa entre comprimento médio e densidade. · Limitações: O tamanho vem de animais preservados em arrasto; recrutamento é inferido, não observado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os organismos menores também aumentaram ao mesmo tempo (cerca de três vezes), o que levou os autores a concluir que a causa foi ambiental e não um desequilíbrio ao acaso de uma ou duas espécies. [1] Discussion, 4.1
Contexto: Meiofauna (protozoários e metazoários) e macrofauna (poliquetas) do mesmo ponto, estudadas em artigos do mesmo volume. · Limitações: Se um aumento de A. rosea tivesse se propagado pelo ecossistema, haveria defasagem entre os grupos; os autores dizem que ela não apareceu. Os dados dos grupos menores não foram lidos por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Antes de 1996, A. rosea era muito pouco representada nas amostras da região. A única outra vez registrada em grande densidade foi em 1911. [1] Discussion, 4.2
Contexto: Amostras de arrasto de 1976 em diante, de programas britânicos, franceses e holandeses. · Limitações: Registro histórico esparso: ausência em amostras antigas não prova que o fenômeno nunca ocorreu entre elas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: A hipótese preferida é que a variação do alimento vindo da superfície (quantidade e qualidade) tenha causado o evento, mas não há prova direta para o evento de 1996. Modelos com imagens de satélite não acharam mudança que o explicasse, e só o pico de 2002 veio depois de um grande fluxo de carbono, em 2001. [1] Discussion, 4.2
Contexto: Armadilhas de sedimento e modelos de fluxo de partículas na mesma região. · Limitações: O registro de armadilhas era imperfeito logo antes de 1996 (falhas de equipamento). Associação no tempo não é prova de causa. Estudos posteriores de qualidade do alimento (carotenoides, lipídios) são compatíveis, mas indiretos. · Hipótese dos próprios autores: a qualidade e a quantidade do alimento teriam favorecido espécies de reprodução oportunista. Não houve experimento que isolasse a causa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O suprimento de matéria orgânica à planície pode variar cerca de dez vezes de um ano para outro, e em certos anos chega ao fundo, a 5.000 m, uma quantidade comparável à que alimenta comunidades a 500 m. [1] Discussion, 4.2
Contexto: Segundo Billett et al. (2010), que resumem as armadilhas de sedimento de Lampitt et al., mesmo volume; não lemos Lampitt et al. · Limitações: Fonte de segunda mão. Ordem de grandeza é aproximação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nem tudo cresceu: a holotúria Oneirophanta mutabilis foi a única espécie com queda geral de densidade e biomassa na série, e sua capacidade reprodutiva diminuiu enquanto A. rosea prosperava, o que sugere competição. [1] Results, 3.1 [2] Northeast Atlantic, Megafauna
Contexto: Queda de O. mutabilis ao longo de 1989–2005; a competição é interpretação baseada em dados de fecundidade de outro estudo. · Limitações: A parte sobre fecundidade vem de revisão (Smith et al. 2009) que resume Ramirez-Llodra et al. (2005); não lemos o estudo original. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Fenômeno parecido foi visto no Pacífico Nordeste, na Estação M: duas holotúrias aumentaram de 1989 a 1996 e caíram em duas a três ordens de grandeza depois de 1998, ligadas ao El Niño e à La Niña com defasagem de 14 a 18 meses. [2] Northeast Pacific, Megafauna
Contexto: Estação M, no Pacífico Nordeste, a cerca de 4.100 m; as espécies são Elpidia minutissima e Peniagone vitrea. É correlação com clima, não experimento. · Limitações: Correlação com índice climático; outro oceano, outras espécies. A revisão destaca que a cobertura geográfica de séries como essas é limitada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Uma comparação de sedimentos da planície em 1996 e 2018 indicou menos proteína e lipídios em 2018 e mudança na composição das comunidades de micro-eucariotos, e os autores sugerem que a quantidade e a qualidade do carbono biopolimérico variam bastante ali. [3] Summary
Contexto: Apenas dois anos comparados (1996 e 2018), a cerca de 4.800 m no PAP-SO; não trata de pepinos-do-mar. · Limitações: Dois instantâneos no tempo, sem a série intermediária; os autores falam em 'sugerem' e 'podem'. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Deep-Sea Research Part II (manuscrito no repositório NORA, Natural Environment Research Council) — Long-term change in the abyssal NE Atlantic: The 'Amperima Event' revisited
Billett, D. S. M.; Bett, B. J.; Reid, W. D. K.; Boorman, B.; Priede, I. G. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.dsr2.2009.02.001 - Proceedings of the National Academy of Sciences — Climate, carbon cycling, and deep-ocean ecosystems
Smith, K. L. et al. · 2009 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0908322106 - iScience — Major changes in micro-eukaryotic biodiversity of the abyssal ecosystem of the NE Atlantic: A comparison between 1996 and 2018
Luongo, G.; Dell'Anno, A.; Tangherlini, M.; Corinaldesi, C.; Ruhl, H. A.; Danovaro, R. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.isci.2025.114266 - Progress in Oceanography (registro no repositório NORA, Natural Environment Research Council) — Long-term change in the megabenthos of the Porcupine Abyssal Plain (NE Atlantic)
Billett, D. S. M.; Bett, B. J.; Rice, A. L.; Thurston, M. H.; Galéron, J.; Sibuet, M.; Wolff, G. A. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/S0079-6611(01)00060-X
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)