Zoologia
A maioria das estrelas-do-mar tem um olho em cada braço, e sem eles a Linckia laevigata não voltou ao recife
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
A maioria das espécies de estrela-do-mar tem um olho composto na ponta de cada braço. Em Linckia laevigata, num recife de Okinawa, animais sem os olhos andaram em direções aleatórias a 1 m do recife, enquanto os operados só de mentira voltaram a ele. A imagem que esses olhos formam é grosseira: só enxergam estruturas grandes, como o próprio recife.
Estrelas-do-mar são equinodermos, parentes de ouriços e pepinos-do-mar, e não têm um cérebro como o dos vertebrados: o sistema nervoso central é limitado. Em cada ponta de braço, sobre um pé ambulacral modificado, fica um olho composto formado por dezenas a centenas de omatídeos, pequenos tubos com fotorreceptores (células que captam luz) e pigmento. Sem lente nem córnea, cada omatídeo enxerga só o que o pigmento deixa passar, como um buraco de agulha. Por dois séculos o órgão era conhecido, mas ninguém havia ligado a ele um comportamento guiado pela visão. Em 2014, Anders Garm e Dan-Eric Nilsson testaram isso com a estrela-azul Linckia laevigata, que vive em recifes de coral.
Olhos que se fecham
Quando a estrela é perturbada, ela recolhe os pés negros que protegem o olho e fecha o sulco do braço sobre ele. Nesse momento, segundo os autores, o animal fica cego.
Como se provou: tirar o olho e comparar
O teste decisivo comparou três situações. Animais intactos, animais com o pé que carrega o olho removido e animais operados só de mentira (sham), que perderam duas estruturas do meio do braço mas mantiveram os olhos. Todos foram soltos a 1 m do recife e filmados por 25 minutos. Só os sham seguiram para o recife; os cegos andaram em direções aleatórias, na mesma velocidade. O controle de velocidade descarta que a cirurgia tenha deixado os cegos inativos.
O que o olho consegue ver
Cada olho cobre cerca de 210° na horizontal e 170° na vertical, e os olhos de braços vizinhos se sobrepõem. Mas a imagem é pobre: os omatídeos olham em direções separadas por cerca de 16° e cada um aceita luz de um cone largo. Em termos práticos, só estruturas grandes são distinguidas. A 2 m, onde o recife ocupava 31° do campo vertical, a orientação já era duvidosa; a 4 m, o resultado foi ao acaso.
Lenta, daltônica e de curto alcance
As medições elétricas dos fotorreceptores mostraram resposta lenta, com cerca de 250 ms até o pico, e sensibilidade a uma única faixa de luz, perto de 450 nm. Esses números combinam com um animal que anda alguns centímetros por minuto. Os autores sugerem que a função principal não é achar recifes distantes, mas evitar que a estrela se afaste do recife onde vive. Essa leitura é uma interpretação deles, apoiada na distância máxima do teste.
Limites da evidência e outras estrelas
O estudo de 2014 usou uma espécie, em dois locais, com poucos animais por grupo. A coroa-de-espinhos, testada em aquário em 2016, também usou a visão para se orientar e distinguiu formas, mas tem campo de visão mais estreito e resolução melhor, de cerca de 8°, segundo Petie e colegas citados por Korsvig-Nielsen e colegas. Em juvenis, os olhos menores resolvem pior. Para a maioria das estrelas-do-mar, a função dos olhos ainda não foi testada.
Como sabemos
O experimento central é de uma espécie e de um grupo pequeno, mas foi seguido por testes em outra estrela; falta replicar em mais espécies.
- Fato estabelecido: A maioria das espécies conhecidas de estrela-do-mar tem um olho composto na ponta de cada braço, sem óptica verdadeira (lente). [1] Abstract
Contexto: Estrelas-do-mar (Asteroidea) em geral; o experimento foi feito com uma espécie. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Linckia laevigata adulta o olho tem 150 a 200 omatídeos e fica sobre um pé ambulacral modificado. [1] Results, (a) Eye morphology
Contexto: Linckia laevigata de tamanho adulto, animais de aquário em Copenhague e coletados em Okinawa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os omatídeos de L. laevigata não têm óptica focalizadora: o campo de visão de cada um é definido só pelo pigmento, como num olho de buraco de agulha. [1] Results, (a) Eye morphology
Contexto: Cortes histológicos de olhos de quatro animais; o resultado vale para L. laevigata. · Limitações: Os autores notam que isso contraria sugestões anteriores, feitas para outras espécies, de que haveria óptica focalizadora. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os eixos ópticos dos omatídeos distam em média 16° entre si, e cada receptor aceita luz de um cone de 15° a 30°; por isso o olho só distingue estruturas grandes. [1] Results, (b) Low spatial resolution
Contexto: Medida com um goniômetro subaquático em dois olhos de dois animais; ângulos entre omatídeos vizinhos, n = 16. · Limitações: Amostra pequena de olhos; as aceitações são estimativas a partir da morfologia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em L. laevigata deslocada do recife, só os animais com olhos intactos voltaram a ele. [1] Abstract
Contexto: Recifes de Akajima, Okinawa (Japão), animais a 1 m da frente do recife, acompanhados por 25 minutos. · Limitações: Poucos animais por tratamento (cinco por grupo em cada teste); um dos testes de distância foi feito só com animais intactos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O grupo cego andou em direções aleatórias, e o grupo operado só de mentira (sham) seguiu em direção ao recife. [1] Methods, (e) Behavioural experiments
Contexto: O teste de Rayleigh avalia se as direções de um grupo diferem do acaso; no grupo sham, p = 0,034 no texto original. · Limitações: A cirurgia retirou o pé ambulacral com o olho e dois ossículos de cada braço; o grupo sham perdeu dois pés e dois ossículos do meio de cada braço, para controlar o efeito da operação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A velocidade de caminhada não diferiu significativamente entre animais intactos, sham e cegos; os cegos estavam ativos e só caminhavam sem direção. [1] Results, (d) Navigation
Contexto: Controle contra a hipótese de que a operação apenas tivesse debilitado os animais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A 4 m do recife os animais caminharam ao acaso; a 1 m, todos foram quase em linha reta de volta a ele. [1] Results, (d) Navigation
Contexto: O recife ocupava de 23° a 40° do campo vertical conforme a distância (4, 2 e 1 m). · Limitações: A 2 m o resultado ficou no limite (p = 0,1 no texto original). Grupos pequenos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em uma noite estrelada sem lua, 10 animais intactos também andaram ao acaso, o que reforça a explicação pela visão. [1] Results, (d) Navigation
Contexto: Teste adicional, feito à noite no recife. · Limitações: A ausência de orientação no escuro é compatível com visão, mas por si só não exclui outras explicações; os autores a usam como evidência adicional, junto ao teste dos cegos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os olhos de L. laevigata são lentos e daltônicos: respondem a apenas um tipo de opsina, com pico perto de 450 nm (azul), e o tempo até o pico da resposta é de cerca de 250 ms. [1] Results, (c) Temporal and spectral response
Contexto: Eletrorretinograma de sete omatídeos de cinco animais, com estímulos de 100 ms. · Limitações: Opsina é a proteína que capta a luz. A conclusão de um único tipo de opsina vem da curva de sensibilidade, não de análise genética. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A sensibilidade máxima em 450 nm coincide com a cor dominante da água limpa do mar aberto; segundo os autores, isso faria o mar aberto parecer claro e o recife, escuro, aumentando o contraste para localizá-lo. [1] Results, (c) Temporal and spectral response
Contexto: Inferência dos autores a partir da física da luz na água e da refletância de recifes. · Limitações: A coincidência espectral foi interpretada, não testada com filtros de cor no comportamento. · É raciocínio dos autores sobre a adaptação, não resultado experimental. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Quando perturbada, a estrela recolhe os pés negros que cercam o olho e fecha o sulco do braço sobre ele, ficando cega. [1] Results, (a) Eye morphology
Contexto: Observação em L. laevigata viva. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: A resolução baixa é compatível com um sistema nervoso central limitado e com o comportamento lento do animal; segundo os autores, serve para reconhecer o habitat, não para detalhes finos. [1] Results, (b) Low spatial resolution
Contexto: Comparação feita pelos autores com outros animais de visão simples. · Limitações: O texto fala em sistema nervoso central limitado, sem medir processamento neural. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2016, outro grupo mostrou com a coroa-de-espinhos que a estrela distingue formas: respondeu a retângulos pretos e brancos, mas não a círculos com a mesma área de preto e branco. [2] Abstract, Results
Contexto: Experimentos controlados em aquário com Acanthaster planci, outra estrela de recife. · Limitações: Os autores chamam o resultado de primeira prova direta de visão espacial verdadeira em estrelas-do-mar e no filo Echinodermata; é a avaliação deles. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em juvenis da coroa-de-espinhos o campo de visão é parecido com o dos adultos, mas a resolução espacial é significativamente menor. [3] Abstract
Contexto: Acanthaster do complexo de espécies; juvenis. · Limitações: Os autores não encontraram prova direta de uso da resolução espacial na fototaxia negativa dos juvenis. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Proceedings of the Royal Society B (Universidade de Copenhague; Universidade de Lund) — Visual navigation in starfish: first evidence for the use of vision and eyes in starfish
Garm, A.; Nilsson, D.-E. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2013.3011 - Frontiers in Zoology (Universidade de Copenhague; Australian Institute of Marine Science) — Crown-of-thorns starfish have true image forming vision
Petie, R.; Garm, A.; Hall, M. R. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1186/s12983-016-0174-9 - Biology Open (Universidade de Copenhague; Australian Institute of Marine Science) — Eyes and negative phototaxis in juvenile crown-of-thorns starfish, Acanthaster species complex
Korsvig-Nielsen, C.; Hall, M.; Motti, C.; Garm, A. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/bio.041814
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 5; conferência de trechos automatizada)