Ciências da Terra

Estalagmites do Brasil: o δ18O das cavernas lê a chuva e a monção sul-americana ao longo de 116 mil anos

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Uma estalagmite do sul subtropical do Brasil, datada por urânio-tório, guarda 116.200 anos de δ18O, valor que varia com a origem e a quantidade da chuva. No estudo de Cruz et al. (2005), o sinal seguiu sobretudo a radiação solar de verão, ligada à precessão da Terra. Na escala da precessão, a chuva da monção sul-americana oscilou em oposição à das monções do Hemisfério Norte.

A estalagmite cresce camada a camada com a água que goteja do teto da caverna, rica em carbonato de cálcio. O oxigênio dessa calcita guarda uma razão entre os isótopos 18O e 16O, o δ18O, que depende do δ18O da água e, em parte, da temperatura. Nos trópicos, quanto mais chove, menor o δ18O da chuva, e a umidade que já perdeu chuva a montante chega mais pobre em isótopos pesados. Datar a calcita pelo decaimento do urânio fornece uma idade para cada ponto. Assim, a série vira um arquivo da monção sul-americana, que traz o pico de chuva no verão austral.

Uma caverna é um termômetro quase parado

Em Jaraguá (MS), a temperatura do ar dentro da caverna variou 1,4 °C ao longo do ano; do lado de fora, 47,8 °C. Essa estabilidade ajuda a ler o δ18O da calcita como sinal de chuva, e não de calor.

O que o δ18O da calcita carrega

O δ18O da calcita depende do δ18O da água de gotejamento e da temperatura da caverna. Nos trópicos, a chuva tem δ18O menor quando chove mais, o efeito da quantidade, e, a jusante da região central da monção, reflete também o quanto já choveu a montante. Em Jaraguá, a temperatura interna varia 1,4 °C no ano, e o efeito máximo seria de cerca de 0,3‰, perto do erro de medida. Por isso os autores leem o sinal como chuva da monção.

Como cada ponto ganha uma idade

Estalagmites são datadas por séries do urânio, o que dá idades absolutas, e não só relativas. No registro de Jaraguá, 80 idades U-Th e 3.390 medidas de δ18O dão resolução média de 6,8 a 10 anos. Em Mato Grosso, outra estalagmite combinou 12 idades U-Th com contagem de camadas anuais. Entre uma idade e outra, o tempo é interpolado, e hiatos de crescimento são lacunas no registro.

O que as cavernas brasileiras mostraram

No sul subtropical, o δ18O de 116.200 anos acompanhou a radiação solar de verão ligada à precessão, e os ciclos de Dansgaard/Oeschger apareceram sem dominar. Em Jaraguá, o glacial foi mais úmido que o Holoceno inicial. Na escala da precessão, a monção do sul ficou em oposição às do Hemisfério Norte. Cheng et al. acharam variação milenar coerente nos registros sul-americanos e um padrão quase em dipolo entre a Amazônia ocidental e a oriental. Em Mato Grosso, um ciclo de 208 anos pode ligar a monção ao Sol.

Limites e perguntas abertas

O δ18O não é um pluviômetro direto: mistura a origem do vapor e a quantidade de chuva. Em Jaraguá, o glacial úmido discorda de indicadores biológicos próximos, e o ciclo solar de 208 anos é uma correlação, com forçamento direto fraco. As escalas de tempo vêm de dados de várias cavernas, então um único registro nunca basta.

Como sabemos

Os métodos e os resultados vêm de quatro artigos científicos e de um artigo de dados; Cruz et al. (2005) e Cheng et al. (2013) só puderam ser conferidos pelo resumo, e as interpretações são dos autores.

Fontes

  1. Nature 434, 63-66 — Insolation-driven changes in atmospheric circulation over the past 116,000 years in subtropical Brazil
    Cruz, F. W., Jr; Burns, S. J.; Karmann, I.; Sharp, W. D.; Vuille, M.; Cardoso, A. O.; Ferrari, J. A.; Silva Dias, P. L.; Viana, O., Jr · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature03365
  2. Scientific Reports 7, 44267 — A high-resolution history of the South American Monsoon from Last Glacial Maximum to the Holocene
    Novello, V. F. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/srep44267
  3. Nature Communications 4, 1411 — Climate change patterns in Amazonia and biodiversity
    Cheng, H.; Sinha, A.; Cruz, F. W.; Wang, X.; Edwards, R. L.; d’Horta, F. M.; Ribas, C. C.; Vuille, M.; Stott, L. D.; Auler, A. S. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/ncomms2415
  4. Scientific Reports 6, 24762 — Centennial-scale solar forcing of the South American Monsoon System recorded in stalagmites
    Novello, V. F. et al. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/srep24762
  5. Earth System Science Data 10, 1687-1713 — The SISAL database: a global resource to document oxygen and carbon isotope records from speleothems
    Atsawawaranunt, K. et al. · 2018 · Base de dados · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.5194/essd-10-1687-2018
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos