Biologia

Esporotricose no Rio: como Sporothrix brasiliensis, levado por gatos, virou epidemia desde 1998

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Desde 1998, o Rio de Janeiro vive uma epidemia de esporotricose em que gatos infectados por Sporothrix brasiliensis passam o fungo a pessoas, por arranhões e mordidas. Antes dos anos 1990 o estado tinha poucos casos, quase todos sem ligação com gatos. Apenas no serviço de referência da Fiocruz foram contados cerca de 5.000 casos humanos de 1998 a 2015 e 5.113 felinos até 2018. A origem do fungo segue incerta.

A esporotricose é uma micose de pele causada por fungos do gênero Sporothrix. A forma clássica vem do solo e de plantas, por ferimentos: é a "doença do jardineiro". Em S. brasiliensis o caminho mudou: o gato se infecta, tem lesões com muitas células do fungo e, por arranhão ou mordida, inocula-as em outros gatos e em pessoas. Isso transformou uma doença esporádica em surto urbano. Este texto trata da história e da ciência da epidemia; não traz orientação de diagnóstico, tratamento ou manejo de animais, que cabem a médicos e veterinários.

Gatos sim, cães quase não

No Rio, 244 cães foram diagnosticados desde 1998, mas não houve relato de contágio de cão para pessoa. Os autores atribuem a diferença, provavelmente, à escassez de fungos nas lesões dos cães.

O gato como elo da transmissão

Na forma clássica, esporos do solo entram por um ferimento. Na epidemia do Rio, o elo é o gato: segundo a revisão de 2017, a transmissão de gato para humano está associada a arranhões e mordidas, e acredita-se que seja mediada por células de levedura inoculadas direto no tecido. Cães também adoecem, mas não há relato de que tenham passado a doença a pessoas no surto. O gato é o hospedeiro mais atingido e a ponte; não é "culpado" por isso.

Como sabemos que foram os gatos

A prova vem da genética. Em 2013, pesquisadores sequenciaram dois genes (calmodulina e fator de elongação 1-alfa) em 33 cepas de gatos de cinco estados: 96,9% eram S. brasiliensis, e o genótipo dos gatos foi idêntico ao de cepas humanas. Isso liga casos de gatos e de pessoas, mas não rastreia cada contágio. Limites: amostra pequena (só 15 cepas do Rio) e de conveniência. A soma de 33 cepas é cálculo nosso.

Por que o surto cresceu

Os autores apontam vários fatores, sem pesá-los. Uma hipótese é a virulência de S. brasiliensis, vista em modelos de laboratório. Outro é que, em áreas endêmicas do Rio, muitos gatos circulam soltos e não são vacinados nem castrados. Há também problemas sociais e de saúde pública: o programa de controle animal, com diagnóstico e tratamento gratuitos, só veio 16 anos após o início da epidemia, em medida avaliada como insuficiente.

De onde veio e para onde foi

Dados de 188 isolados indicam o Rio como provável centro de origem de S. brasiliensis, com expansão por efeito fundador: poucos animais levam o fungo a uma nova região. Mas já havia dois genótipos no país (RJ e RS), ou seja, ao menos duas fontes, e a origem geográfica do fungo é descrita como de difícil definição. Em 2013 foi descrito o primeiro surto familiar fora da área endêmica do Rio (Espírito Santo); em 2020, a expansão pelo Brasil era documentada e a possível chegada à Argentina, alertada.

Como sabemos

Números, mecanismo de transmissão e genotipagem têm boa base; a origem do surto e o peso de cada fator são inferências.

Em debate: O Rio é apontado como centro de origem por diversidade genética, mas já se reconhecem ao menos dois genótipos brasileiros (RJ e RS) e a origem geográfica do fungo é descrita como difícil de estabelecer. O papel de uma possível maior virulência é hipótese.

Fontes

  1. PLoS Pathogens — Zoonotic Epidemic of Sporotrichosis: Cat to Human Transmission
    Gremião, I. D. F.; Miranda, L. H. M.; Reis, E. G.; Rodrigues, A. M.; Pereira, S. A. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.ppat.1006077
  2. PLoS Neglected Tropical Diseases — Phylogenetic Analysis Reveals a High Prevalence of Sporothrix brasiliensis in Feline Sporotrichosis Outbreaks
    Rodrigues, A. M.; Teixeira, M. M.; de Hoog, G. S.; et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pntd.0002281
  3. Emerging Infectious Diseases (CDC) — Geographic Expansion of Sporotrichosis, Brazil
    Gremião, I. D. F.; Oliveira, M. M. E.; Monteiro de Miranda, L. H.; Saraiva Freitas, D. F.; Pereira, S. A. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3201/eid2603.190803
  4. Studies in Mycology — Trends in the molecular epidemiology and population genetics of emerging Sporothrix species
    de Carvalho, J. A.; et al. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.simyco.2021.100129
  5. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz — Molecular identification of Sporothrix species involved in the first familial outbreak of sporotrichosis in the state of Espírito Santo, southeastern Brazil
    Oliveira, M. M. E.; Maifrede, S. B.; Ribeiro, M. A.; Zancopé-Oliveira, R. M. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/0074-0276130239
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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