Física

Por que o espaguete seco quase sempre quebra em três ou mais pedaços: ondas de flexão em cascata

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

O espaguete seco dobrado até a ruptura quase sempre quebra em três ou mais pedaços, e não em dois. Segundo Audoly e Neukirch (2005), a primeira quebra solta as pontas e a curvatura relaxa de repente ali, o que lança ondas de flexão pela haste. Elas aumentam a curvatura em alguns pontos e podem provocar novas quebras, em cascata. Filmagens de 2018, de até 1.000.000 de quadros por segundo, mostram que as rupturas seguintes acompanham essas ondas.

Curvatura é o quanto uma haste está curva. Dobrado devagar e por igual, um espaguete seco quebra perto do meio, onde é mais curvo, e isso o divide em duas metades. Cada metade fica livre numa ponta, e a curvatura ali relaxa de repente. Esse relaxamento emite uma onda de flexão, uma ondulação que viaja ao longo da haste. No trecho que a onda atravessa, a curvatura pode ficar maior do que antes da primeira quebra, e é isso que os autores chamam de mecanismo contraintuitivo: soltar a haste pode aumentar a curvatura em outro ponto. Se o novo valor passar do limite que o fio aguenta, ele quebra outra vez. A trinca em si corre quase à velocidade do som no material, mas a sequência de quebras segue o ritmo mais lento das ondas de flexão.

Dez milissegundos para nascer, dez microssegundos para cruzar

Em filmagens de até 1.000.000 de quadros por segundo, a ruptura de um espaguete tem duas fases: a trinca nasce devagar, em cerca de 10 milissegundos, e então cruza o fio em cerca de 10 microssegundos, perto da velocidade do som no material. As quebras seguintes dependem das ondas de flexão, mais lentas.

A onda que a primeira quebra deixa para trás

Audoly e Neukirch partiram de uma haste dobrada que é solta de repente numa das pontas, como se fosse uma metade do espaguete logo após a primeira ruptura. A curvatura ali relaxa de imediato e isso lança uma rajada de ondas de flexão. A forma dessa onda se repete em todas as escalas de tempo (solução autossimilar), sem parâmetros ajustáveis. Onde ela passa, a curvatura aumenta, e é isso que pode levar a haste a quebrar de novo.

Como sabemos que as ondas importam

O artigo de 2005 é uma proposta teórica com um experimento simples. Em 2018, outro grupo filmou rupturas sucessivas de espaguete a até 1.000.000 de quadros por segundo e viu que elas seguem o máximo de tensão de flexão, em acordo com simulações. A trinca corre em cerca de 10 microssegundos, e a cascata é governada pelo ritmo mais lento das ondas de flexão. Limite: o tamanho mínimo dos fragmentos ainda não tem teoria completa.

Feynman: o que as fontes dizem e o que é anedota

O artigo de 2018 afirma que Feynman notou que o espaguete seco quase sempre quebra em três ou mais pedaços e cita um livro de C. Sykes (1996), que não lemos. O relato de que ele passou boa parte de uma noite quebrando macarrão vem de uma notícia do MIT, sem fonte indicada: é anedota. A notícia diz ainda que a questão ficou sem explicação até 2005, ano do artigo de Audoly e Neukirch.

Dá para quebrar em dois? Torção e velocidade (2018)

O espaguete pode quebrar em dois, mas só em condições controladas. Torcido além de um ângulo crítico e dobrado devagar, a quebra tende a ser binária; o modelo indica que a torção se dissipa antes que a onda de flexão cause outra ruptura. Dobrado a 1 mm/s, deu menos de três pedaços em média, e o número cresce com a velocidade. Isso apoia o papel das ondas: mexer nelas muda o resultado.

Como sabemos

O mecanismo e os experimentos de 2018 vêm de um artigo do PNAS lido por inteiro; o artigo de 2005 só é conferido pelo resumo, e a anedota de Feynman é de segunda mão.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PMC, NIH) — Controlling fracture cascades through twisting and quenching
    Heisser, R. H.; Patil, V. P.; Stoop, N.; Villermaux, E.; Dunkel, J. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1802831115
  2. Massachusetts Institute of Technology — MIT mathematicians solve age-old spaghetti mystery
    Chu, J. (MIT News Office) · 2018-08-13 · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026
  3. Physical Review Letters (resumo no PubMed, NIH) — Fragmentation of rods by cascading cracks: why spaghetti does not break in half
    Audoly, B.; Neukirch, S. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevLett.95.095505
  4. Physical Review Letters (resumo no PubMed, NIH) — Dynamic buckling and fragmentation in brittle rods
    Gladden, J. R.; Handzy, N. Z.; Belmonte, A.; Villermaux, E. · 2005 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1103/PhysRevLett.94.035503
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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