Zoologia

Formigas defendem o jardim de fungo do parasita Escovopsis com limpeza e bactérias; sua ameaça é debatida

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

As formigas atinas que cultivam fungo defendem o jardim de Escovopsis com limpeza, retirando esporos e substrato infectado, e com bactérias na cutícula, como Pseudonocardia, que produzem antifúngicos. Mas estudos recentes mostram baixa virulência do parasita em colônias saudáveis, e o grau de especificidade dessas defesas é debatido.

Formigas da tribo Attini, entre elas as cortadeiras Atta e Acromyrmex, cultivam um fungo como alimento principal e o mantêm em jardins dentro do ninho. Esse jardim é alvo de Escovopsis, um fungo microscópico especializado: um micoparasita, isto é, parasita de outro fungo. As formigas contam com mais de uma defesa. A primeira é comportamental: limpar o jardim e retirar o que está contaminado. A segunda é microbiana: bactérias filamentosas do grupo dos actinomicetos, sobretudo Pseudonocardia e Streptomyces, que vivem na cutícula e produzem compostos antifúngicos. Como a origem dessa agricultura já é tratada em outro artigo, aqui a pergunta é como o jardim se mantém saudável e o que sabemos, e não sabemos, sobre o parasita.

O parasita que quase sempre está lá

Segundo uma revisão de 2025, é comum isolar Escovopsis de colônias saudáveis, que forrageiam normalmente. A simples presença do fungo, portanto, não indica por si só uma colônia doente.

Três camadas de defesa

A primeira camada é comportamental: as operárias removem esporos estranhos do jardim e retiram o substrato infectado, comportamentos que, no experimento com Atta colombica, se intensificaram diante de Escovopsis. A segunda é uma linhagem de Pseudonocardia, que em muitas atinas passa de irmãs para operárias novas ou vem do fungo cultivado. A terceira é um conjunto de actinobactérias adquiridas do ambiente, como Streptomyces, que formam um microbioma protetor na cutícula.

Como sabemos que a bactéria faz diferença

Duas linhas se complementam. A primeira é a de ensaios biológicos: bactérias das formigas inibem Escovopsis em placa, e inibem mais que outros fungos. A segunda é química: Haeder et al. isolaram de uma cepa de Streptomyces a candicidina, ativa contra Escovopsis e sem efeito significativo sobre o fungo simbionte. O limite comum é que ambas partem de isolados em laboratório. O artigo original de Currie et al. (1999), que descreveu as bactérias na cutícula, é citado aqui por fontes posteriores; não foi lido por nós.

O debate: as bactérias são tão específicas?

Em 2009, Haeder et al. descreviam como visão predominante a coevolução específica de formigas, fungo e parasita com Pseudonocardia, mas apontavam comunidades microbianas diversas, com Streptomyces recrutado do ambiente. Cafaro et al. (2011) encontraram um meio-termo: as Pseudonocardia das formigas não formam um grupo único, mas há especificidade entre clados de bactérias e grupos de formigas. A revisão de 2020 descreve ainda a hipótese de que as formigas selecionam produtores de antifúngicos; trata-se de hipótese.

Quão perigoso é Escovopsis?

Nos anos 1990, Escovopsis era descrito como parasita virulento. Em 2001, as formigas não o eliminaram do jardim, apesar do esforço de limpeza. Em 2021, um grupo da Universidade Federal de Viçosa mostrou baixa virulência em colônias com rainha, mesmo com doses extremamente altas, e efeito maior sem rainha. A revisão de 2025 chama o fungo de parasita de baixa virulência ou oportunista, e diz que ainda se desconhece como ele passa entre colônias.

Como sabemos

Apoiado em seis fontes abertas; o artigo original de Currie et al. 1999 foi citado a partir de uma fonte secundária.

Em debate: Em 2009, Haeder et al. descreviam como visão predominante a coevolução específica de formigas, fungo e parasita com Pseudonocardia, e apontavam evidências de comunidades microbianas diversas e flexíveis, com Streptomyces. Em 2011, Cafaro et al. mostraram que as Pseudonocardia das formigas não formam um grupo único, mas têm especificidade com grupos de formigas e inibem Escovopsis mais que outros fungos.

Fontes

  1. Frontiers in Fungal Biology — The fungus Escovopsis (Ascomycota: Hypocreales): a critical review of its biology and parasitism of attine ant colonies
    Elliot, S. L.; Montoya, Q. V.; Caixeta, M. C. S.; Rodrigues, A. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/ffunb.2024.1486601
  2. Current Opinion in Chemical Biology — Chemical warfare between fungus-growing ants and their pathogens
    Batey, S. F. D.; Greco, C.; Hutchings, M. I.; Wilkinson, B. · 2020 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.cbpa.2020.08.001
  3. Proceedings of the Royal Society B — Specificity in the symbiotic association between fungus-growing ants and protective Pseudonocardia bacteria
    Cafaro, M. J. et al. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2010.2118
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Candicidin-producing Streptomyces support leaf-cutting ants to protect their fungus garden against the pathogenic fungus Escovopsis
    Haeder, S.; Wirth, R.; Herz, H.; Spiteller, D. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0812082106
  5. Proceedings of the Royal Society B — Weeding and grooming of pathogens in agriculture by ants
    Currie, C. R.; Stuart, A. E. · 2001 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2001.1605
  6. Frontiers in Microbiology — Low Virulence of the Fungi Escovopsis and Escovopsioides to a Leaf-Cutting Ant-Fungus Symbiosis
    de Mendonça, D. M. F. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fmicb.2021.673445
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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