Ecologia

Escadas de peixes em rios sul-americanos: o que se mediu e por que podem virar armadilha ecológica

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Em Peixe Angical (rio Tocantins), só 31 das 119 espécies da área apareceram na escada e, em média, subiam 644 peixes para cada um que tentava descer. Segundo Pelicice e Agostinho (2008), quando quatro condições se cumprem, a escada vira armadilha ecológica: atrai peixes para um trecho pior para a reprodução. Numa revisão de 65 estudos, a eficiência média de subida foi de 41,7%.

Uma barragem corta o rio e impede os peixes de circular entre trechos. A escada de peixes é um canal em degraus que reduz a velocidade e o desnível da água para que os peixes subam a barragem. No Brasil, mais de 50 foram instaladas, algumas por exigência legal, e por muito tempo a existência da escada foi tomada como sucesso, sem avaliação. Armadilha ecológica é um ambiente que atrai o animal, mas reduz sua chance de deixar descendentes. Aqui, o foco é medir a escada: quantas espécies a usam, em que sentido e com que risco. Barragens como política, invasoras e passagens de fauna em estradas ficam fora.

Predadores que moram na escada

Peixes predadores marcados com linha e contas foram detectados caçando na escada do Lajeado por até 90 dias. Segundo os autores, quem fica ali encontra alimento constante, porque peixes sobem pela escada o ano todo.

Eficiência: 41,7% na subida e um critério em disputa

Uma revisão de 65 estudos (Noonan e colegas, 2012) achou eficiência média de 41,7% na subida e 68,5% na descida, sem diferença entre regiões. Faltavam dados de peixes que não são salmonídeos, e eles foram agrupados. Para a América do Sul, Pompeu e colegas (2012) criticam o critério usual, a proporção de peixes que sobem, e propõem medir se a escada mantém populações viáveis, o que exige conhecer hábitats e a descida de ovos, larvas e adultos.

Quem sobe: a escada seleciona

No Lajeado, 62,3% das 130 espécies registradas a jusante foram capturadas na escada, com as migradoras favorecidas, mas mais de dois terços das capturas vieram de apenas três espécies. Em Peixe Angical, só 31 das 119 espécies da área apareceram. Os autores chamam isso de seletividade: o conjunto que sobe não reproduz as proporções do rio abaixo e inclui espécies que não precisam ser transpostas.

Quem desce: a volta quase não existe

Em Peixe Angical, de 17.335 peixes capturados na escada, só 4% estavam descendo, e apenas 18 espécies foram registradas nesse sentido. A razão média foi de 644 peixes subindo para cada um descendo, e de 1.069:1 nas migradoras. Os autores consideram provável uma rota de mão única. Por que os adultos não descem ainda é pouco compreendido: uma hipótese é o comportamento de peixes de rio corrente, que evitam o trecho junto à barragem.

Como sabemos: uma tela e contagens no canal

Em Peixe Angical, a escada ficou com água corrente, mas bloqueada por uma tela de aço: peixes abaixo dela contaram como possíveis ascendentes, e acima, como possíveis descendentes, coletados com puçás em setembro de 2009 a agosto de 2010. O limite é admitido: nem todos passariam com a escada aberta. No Lajeado, a predação veio de contagens visuais, redes de espera, tarrafas e peixes marcados, num ano. Aves, golfinhos e tartarugas foram registrados só qualitativamente.

Armadilha ecológica: hipótese, caso e alternativas

Pelicice e Agostinho (2008) exigem quatro condições: atração para subir, movimento só rio acima, hábitat acima ruim para a reprodução e abaixo adequado. Em dois casos do alto Paraná, as quatro foram atendidas e os migradores declinavam; a causa não está provada (inferência nossa). Nas escadas do Tocantins, o que se mediu foi seletividade, mão única e predação. Como alternativas, os autores citam conservar hábitats a jusante e preservar trechos livres entre barragens.

Como sabemos

Os números das escadas do Tocantins vêm de estudos de acesso aberto lidos e conferidos por trecho, mas são de duas barragens, e a hipótese de armadilha e a revisão global estão apoiadas em resumos.

Fontes

  1. Conservation Biology — Fish-passage facilities as ecological traps in large neotropical rivers
    Pelicice, F. M.; Agostinho, A. A. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/j.1523-1739.2007.00849.x
  2. Neotropical Ichthyology (SciELO) — Fish ladders: safe fish passage or hotspot for predation?
    Agostinho, A. A.; Agostinho, C. S.; Pelicice, F. M.; Marques, E. E. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S1679-62252012000400001
  3. Neotropical Ichthyology (SciELO) — Deficient downstream passage through fish ladders: the case of Peixe Angical Dam, Tocantins River, Brazil
    Pelicice, F. M.; Agostinho, C. S. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S1679-62252012000400003
  4. Neotropical Ichthyology (SciELO) — Selectivity of fish ladders: a bottleneck in Neotropical fish movement
    Agostinho, C. S.; Agostinho, A. A.; Pelicice, F.; Almeida, D. A.; Marques, E. E. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S1679-62252007000200015
  5. Fish and Fisheries (resumo depositado no Crossref) — A quantitative assessment of fish passage efficiency
    Noonan, M. J.; Grant, J. W. A.; Jackson, C. D. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1111/j.1467-2979.2011.00445.x
  6. River Research and Applications (resumo depositado no Crossref) — Existing and future challenges: the concept of successful fish passage in South America
    Pompeu, P. S.; Agostinho, A. A.; Pelicice, F. M. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1002/rra.1557
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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